Uma sexta palavra sobre a morte

Poesia

Como por Herberto Helder:

“é pela cabeça que os mortos maravilhosamente pesam em nosso coração.”

CV NOV 09 288

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas

Que têm os olhos cegos como sangue.

Este corria, assombrado.

Os mortos devem ser puros.

Ouvi dizer que respiram.

Correm pelo orvalho dentro, e depois

estendem-se. Ajudam os vivos.

São doces equivalências, luzes, ideias puras.

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

 

- a morte é passar. como rompendo uma palavra,

através da porta,

para uma nova palavra. E vejo

o mesmo ritmo geral. Como morte e ressureição

através das portas de outros corpos.

Como uma qualidade ardente de uma  coisa para

outra coisa, como os dedos passam o fogo

à criação inteira, e o pensamento

pára e escurece

 

- como no meio do orvalho o amor é total.

Havia um homem que ficou deitado como uma flecha na fantasia.

A sua água era antiga. Estava

tão morto que vivia unicamente.

Dentro dele batiam as portas, e ele corria

pelas portas dentro, de dia, de noite.

Passava para todos os corpos.

Como em alegria, batia nos olhos das ervas

que fixam estas coisas puras.

Renascia.


Herberto Helder, excerto de “Elegia Múltipla”, in A Colher na Boca

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