Se anjos saltassem, foi como anjos que saltaram dos barrigas de jinguba e fizeram estremecer o céu de Angola. Já digo quem.
Nunca tínhamos visto nada assim. Primeiro ouvimos os velhos Nordatlas, os barrigas de jinguba, a roncar entre as nuvens, lentos, pesados, preguiçosos. Depois, os aviões abriram-se como se abrem torneiras e o azul celeste ficou povoado por uma rede de pontos negros, pescadores do céu. Caíam vertiginosos, como a boca que beija depois da zanga. Para a morte, parecia! Até lhes nascer inocente uma cabeleira ampla. Deslizavam, então, silenciosos, presos dos próprios cabelos, como se fossem alucinados lençóis de Deus.
Foram os primeiros pára-quedistas que vi. Foram os primeiros pára-quedistas que Nélinho, Zé Vitor e Lando viram no céu de Luanda. Tinham tantos 8 anos como eu e ainda não nos conhecíamos. Eu era, serei sempre, um rapazinho recatado. Nenhum dos três se pode acusar do mesmo. A imaginação deles, flor infrene, exigiu-lhes igual cabeleira branca e honras de boina verde. Cortaram metros de plásticos, vários novelos de fio grosso. Diligentes e unânimes procuraram a seguir um local subversivo: a obra em construção antes de Chico Buarque lhe cantar os operários. Mosqueteiros das alturas, subiram ao segundo andar. Cá em baixo, duas montanhas e um vale, tudo desenhado pela areia tão amarela, macia, do Bengo. Cenário idílico, heróico, propício.
O que se passou a seguir é pura epopeia. Só havia um perfeito e descendente pára-quedas. Porque as versões neste ponto se desencontram e eu não sou narrador omnisciente, não direi qual, mas um dos três amarrou ao pescoço o científico (atributo de que os acontecimentos subsequentes fazem prova) e improvisado pára-quedas. Os outros dois, em rígida continência, tributavam-lhe a coragem. E o ungido de Deus saltou. O plástico – mas seria plástico? – reagiu com eficácia newtoniana abrindo-se em funda e côncava inspiração. Numa estranhíssima e imprevisível cadeia de efeitos, a corda esticou e, de repente, o pescoço do mais jovem boina verde do mundo viu-se apertado. Faltou-lhe o ar e é engraçado que os olhos, mas que mania que os olhos têm, se abriram com muito mais vontade de ver o mundo do que tinham antes quando de inspirações e expirações o anjo voador nem dava conta. E dizem-me, contaram-me depois, que a ladainha que lhe saiu da boca não incluía santa mena nem outras santinhas do bairro, mas só louváveis impropérios a seres que vivem escondidos e na noite escura.
Ainda não disse, mas os outros camaradas, os dois pré boinas verdes, foram nobremente solidários. Correram pelas escadas, saltaram pelos andaimes, trovejando “tem calma, tem calma”, “já aterras, já aterras”. Vozes mais maldosas insinuam ter mesmo ouvido um “ai minha mãezinha”, rotunda mentira que os 12 anos que se seguiram, e que gloriosamente partilhei com este trio destemido, cabalmente desmentem.
Corriam eles desenfreados e pairava no ar o herói, como convinha à sua condição. Foi, tinha de ser, juntos que tombaram no chão: os não iniciados esfolando-se nos restos de cimento, o atrelado e atónito pára-quedista na quieta areia dourada. Terminava em sangue, suor e sem lágrimas a primeira aventura militar de um trio idealista, empreendedor e aberto à inovação tecnológica.
Irónico, quase maternal, talvez não volte o céu de Angola a estremecer tanto, como nesse dia em que, tão coladinho à terra, veio ver o salto valente de uns principezinhos sem asas.


















Terras do Al gharb do norte,19–12-09 Pois é, parabéns pelo texto, que ‚parece, vem na sequencia do denominado exercio Humbe ‚levado a cabo pelo governo Colonial de então,na denominada Provincia de Angola. E bem verdade,eu tenho o previlégio de conhecer, todos,os personagens constantes nesse texto, ocorrido nos então chamados Bairros do Golf e Vila Alice, na cidade de São Paulo da Assunçao de LOANDA. Tem sómente duas, tres pequenas nuances, aqui agora relatadas pelo efectivo, e denominado primeiro paraquedista ‚o tal “ungido de Deus”,mentor da visita inicial ao campo de golfe,a ver ao longe tais homens que caiam do céu,“arranjador ” dos objectos de plásticos uns comprados na Mercearia do Villares, outros retirados no lar materno na cozinha de qualquer casa colonial do bairro,que descrevo.
De facto os olhos azuis do paraquedista, este, ao chegar ao solo,já os tinha verdes…e,as primeiras palavras de dor que vociferou, quando era ajudado a levantar-se pelos dois “aspirantes” às alturas foram Tuje,Tuje.…Belo retrato de algo vivido experiencialmente , na adolescencia Luandense, nos já idos anos sessenta, quando uma guerra desnecessaria se iniciava.Um abraço deste ungido de Deus josé Rotiv
Manuel Fonseca,
se eu mandasse só um bocadinho, porém com uma autoridade solar no meu bocadinho bem mandado, obrigava-o a voltar ao Expresso, cinéfilo só se lhe apetecesse e sempre e igualmente assim, para que as suas histórias do tamanho de crónicas fossem de outras pessoas, gente desblogada, que as gostariam também muito.
Eugénia,
Feita devida vénia à sua gentileza (sincera e, por isso, gosto muito) pergunto-me: mas porque é que me querem mandar embora? O PN quis mandar-me para a cinemateca, a EV para o expresso, e eu só quero estar aqui, consigo, com o PN e com os outros mortinhos todos, no aconchego do mais caloroso cemitério que conheço: o nosso cemitério dos prazeres. Deixe, sim?!