Gaspar-Félix Tournachon é, convenhamos, um nome que ninguém dá a um filho. Está portanto postumamente desculpado o petiz que, traindo desde bem cedo as orientações do bibliotecário paizinho, trocou um nome com a vaga sonoridade de uma empada de caça pelo bem mais aquífero pseudónimo de Nadar. Para os mais distraídos: fotógrafo, caricaturista, editor, romancista, soldado, médico falhado, balonista, jornalista, fugazmente espião e boémio de reconhecidos méritos. Ah! e levemente megalómano (o seu nome ocupava os 15 metros da fachada do seu estúdio no Boulevard des Capucines), compulsivamente generoso (foi o anfitrião da primeira exposição dos proscritos impressionistas) e irresistivelmente inspirador (Verne pediu-lhe o balão «emprestado» para as suas célebres Cinco Semanas e Michel Ardan, herói da Terra à Lua não passa, afinal, de um anagrama do próprio Nadar). Pelo meio, divertiu-se e ganhou a vida a fotografar o «tout Paris»: Baudelaire, Berlioz, Bernhardt, Clemenceau, Courbet (prometo voltar a este), Daguerre, Daumier, Delacroix, Dumas, Monet, Rodin, Zola… E Victor Hugo, claro, vivo e morto.
Mas de todos os retratos de Nadar, e muitos há que me encantam, há um que sempre exerceu sobre mim um especial fascínio.
Reza a lenda que este Pierrot é Charles Debureau, filho do célebre Mimo Baptiste que fascinava, também ele, as audiências do Théatre des Funambules em Paris. Juram-me também que, por causa dele, se zangaram os irmãos Félix e Adrien. O que o primeiro terá fotografado, o segundo terá usurpado (e com a foto, o artístico apelido). Tão bem montada foi a trapaça que o Nadar larápio chegou mesmo a ganhar, à pala deste tristíssimo Pierrot, uma medalha de ouro na Exposição Universal de Paris de 1845. Não posso garantir-vos, em consciência, se assim foi. Mas garanto-vos que este Pierrot que era de sais de prata ficou para a historia como sendo de pai desconhecido embora o avô, esse, toda a gente soubesse quem era .
Imagino portanto — e a partir daqui não juro mesmo mais nada — que, na hora da sua morte, ninguém o tenha oficialmente chorado. Adrien porque se tinha posto a léguas, Félix porque se sentia compreensivelmente cornudo. Mas gosto ainda mais de imaginar (inspirado no Quincas que o Diogo aqui ressuscitou) que foi outra a história que se passou em segredo. À socapa, já a noite ia escura, o velho Felix convocou alguns dos amigos que o pobre Pierrot, em vida, sempre sonhara vir a ter. Vestiu-lhe o melhor dos seus fatos de linho. Enfeitou-lhe a lapela com uma enorme begónia de aroma solitário e calçou-lhe uns sapatos de verniz branco dois números acima dos que usara em vida. É verdade que parecia um pouco ridículo no seu ar trágico de morto importante, velado por todos os amigos que nunca na verdade tivera. Mas não menos verdade é que, fosse por amor a Félix, a Pierrot ou simplesmente à arte, naquela noite fria da Paris de XIX, lá estiveram a mulher com barba, o trapezista coxo, o domador e o leão sem dentes. Lá estiveram ainda o lanternista viúvo, o Meliès ainda menino e todos os truques que ainda não aprendera. A todos, sem excepção, obrigou Nadar a imaginar uma vida que o pobre Pierrot nunca vivera. Um teatro enorme, todo brocados, todo dourados, todo cores, palmas estridentes, cartolas, pateadas e bengalas que nunca soaram, fortes gargalhadas que nunca se ouviram e tudo o mais de que é feito um circo que não existiu.
E só assim, confortado por ter feito do Pierrot triste do seu inicío de carreira, um grande artista desaparecido, pôde deixar-se chorar em silêncio, as saudades amargas que por ele, de verdade, mais ninguém sentia.


















Excelente texto!
Parabéns pelo prazer que me deu a ler
Ainda bem que gostou, Maria.