Para acabar com 2009: –1

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2009 foi tão pródigo como qualquer outro ano em patifarias políticas e aposto que daqui a 6 meses já ninguém se recordará dos acontecimentos que abriram os noticiários, dias, semanas, seguidas.
Mas houve um lance que me parece decisivo, embora tenha sido qualificado como um fait divers de grau 7 na escala de Mercalli, ou seja, um episódio com alguma importância, mas incapaz de abater estruturas. Foi o arrebatado par de cornos que o Ministro Manuel Pinho apontou na sua cabeça na direcção do Deputado Bernardino Soares.
Uma afronta! Uma deseducação! Um alarme para a democracia! Tal foi como jorraram comentadores, especialistas e periodistas, gente paga para encher o ar de estrondo. Mas as vestes de vestal, ninguém as vestiu melhor que os deputados bloquistas, delatando com minúcia o episódio a todas as autoridades competentes, não fossem elas subestimar a altíssima gravidade parlamentar do trejeito de Pinho.
No fim, rolou a cabeça do Ministro, ficou incólume a do Deputado.
Foi minúsculo o acontecimento, mas bem pode ter sido o tal suave bater de asas da borboleta que adiante resultará numa calamidade.
É notório que o sr. Manuel Pinho tinha uma vida no mínimo desafogada antes de se dedicar à actividade política, pode ter sido a vaidade ou qualquer outra razão menos elevada, mas também – porque não, oh cínicos? – pode ter sido o gosto de Fazer, para evitar aludir ao já tão depauperado “sentido cívico”, ou a vontade de trepidação, aquilo que levou o sr. Manuel Pinho a resolver-se por uma pasta ministerial que toda a gente sabe ser mais espinhosa que contemplativa e onde os dissabores sobrelevam largamente as alegrias.
Para as contrariedades e lentidões ia ele preparado, suponho, até mesmo para os incómodos da publicidade e para a rispidez dos adversários. Mas o que não aguentou foram as chufas acintosas e contumazes daquele Bernardino da vida.
Ora, qualquer pessoa de bem, ao ver o estalo na paciência do sr. Manuel Pinho imagina-se a si próprio naquelas figuras, caso lhe passasse pela cabeça a tentação pueril de calçar os sapatos de Ministro.
E é nisto que o triste episódio chifrudo se faz crucial. A partir daquele instante horrível, os comprovadamente competentes, rigorosos, honestos, os que poderiam acrescentar em vez de parasitar, fugirão da política a sete pés, tendo visto o que ela lhes poderá fazer ao ânimo e ao ego.
Haverá pior sensação que a de pressentir a política, daqui para a frente, entregue aos Bernardinos?

Comentários a “Para acabar com 2009: –1” (2)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Absolutamente de acordo consigo, JNA.

    Só há, em todo este bizarro episódio, um aspecto que permanece por explicar e que, confesso, me intriga: porque é que o então ministro Pinho pôs os ditos na própria cabeça? Existem outros gestos, de similar conotação bovina, igualmente expressivos e até de uso mais corrente, que poderia ter dirigido ao deputado em questão … É que mesmo admitindo que o desfecho político fosse o mesmo, o retrato que ficaria para a posteridade seria decerto outro …

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Para usar uma expressão inglesa que me agrada: “the man snaped out”. Ous eja: passou-se. E o factod e alguém como ele, se ter passado, a pontod e fazer um gesto incongruente, é que me deixa petrificado. A política é para os políticos, para os que gostam daquelas touradas verbais e pegas de cernelha.

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