Não me tenho dado mal com o método de medir os anos pelos livros que leio.
2009 foi de “The Rest Is Noise” e terminei-o com a sensação de ter descoberto um continente.
extraordinário: o título português é mais eufónico que o original: “O Resto é Ruído”
É uma simples história da música “clássica” do séc. XX, ou seja, da música que é conhecida como contemporânea. Alex Ross faz bom uso de todas as virtudes dos típicos livros de divulgação anglo-saxónicos: com parcimónia de adjectivos, descreve acontecimentos, correntes, obras e compositores; inteligentíssimo no modo como trata com clareza questões complexas, não propõe teses peripatéticas pour épater, é sereno na exposição dos conflitos e não atira com vaticínios negros ou luminosos sobre o futuro do género. A prosa é ágil, calorosa e informada. Por vezes deixa-se levar pelo entusiasmo da beleza, noutras não resiste a um reparo de humor.
É tudo muito interessante até ao capítulo 13; as duas partes finais são fulminantes.
Na minha ignorância, costumava reagir de um modo behaviourista à expressão “música contemporânea” imaginando logo penhascos harmónicos, a paixão pela dissonância, a melodia escorraçada, só com licença para meia dúzia de compassos, se tanto. Este apocalipse tonal, determinado nos encontros de Darmstad em 1949, teve quatro cavaleiros: Boulez, Stockhausen, Berio e Xenakis, progénitos de Schonberg, abençoados pelo titânico Adorno e com a obra prospectivamente romanceada no “Dr. Fausto” de Thomas Mann.
Pérfido Adorno
Pobre de mim que achava aquela música infrequentável, embora me calasse por vergonha, não fossem os senhores da Gulbenkian juntarem o desdém à sobranceria com que já me toleram em seus claustros.
Ora o que “The Rest Is Noise” revela é uma evidência que já me deveria ter assaltado, tivesse eu os ouvidos e o entendimento abertos: este modernidade é velha de meio século e entretanto muita outra água correu. E de repente eis que Alex Ross me apresenta uma miríade de nomes desconhecidos cujos trabalhos fui picando e downlowdando do iTunes, qual deles o mais cativante, o mais belo o mais intenso ou sublime. E, oh espanto!, o mais emocional.
Thomas Adès, Arvo Pärt, David Lang, Tan Dun, John Adams, Osvaldo Golijov, Nico Muhly, e a lista seguiria por aí fora, nada os une a não ser o frágil fil rouge de terem superado ou ignorado a “impossibilidade da música” que tanto atormentou (atormenta?) os descontrutores de Darmstad e seus pupilos.
E tudo isto me tinha passado ao lado, até 2009. Obrigado, Alex Ross.
Osvaldo Golijov, Oceana (frag.)


















O David Lang é brilhante. Thank you for the introduction.
thanks