Arquivo | Dezembro de 2009


E eu, que morro aos bocados!?

David, La mort de Socrate, 1787
Dias houve, neste fim-de-ano, em que morri aos bocados perante a perspectiva de ter, uma vez mais, que recomeçar a vida.
A possibilidade do novo, para quem está já lançado na existência, traz sempre consigo a impossibilidade do velho. E se o ânimo, nesta questão, resulta da perspectiva, o facto é que o novo é sempre mais difícil quanto mais nos tornamos velhos. E eu tenho envelhecido.
Tanto de novo me tem sido dado, tanto caminho me tem sido aberto, tanto horizonte alargado… Porque ando eu preocupado? Porque vivo antes do tempo o que há-de-ser?
É verdade que a vida não é fácil e que nela nos cruzamos com gente que quase completamente esqueceu a bondade com que foi criada. Mas cá dentro, sabemos, às vezes, que há uma paz que não nos pode ser roubada. Porque me esqueço então de visitar-me nesse meu quieto e feliz lugar?
«Ânito e Meleto têm o poder de me conduzir à morte, mas não têm o poder de me fazer mal», disse Sócrates durante o seu julgamento (Platão, Apologia de Sócrates, 30c).
Mais tarde, retomando a história da injusta morte do mais justo dos homens, disse também Epicteto (Enquiridon, 5) que «o que perturba a mente dos homens não são os acontecimentos, mas os seus juízos sobre os acontecimentos. A morte, por exemplo, não tem nada de horrível, caso contrário Sócrates tê-la-ia considerado como tal. Não, a única coisa horrível sobre a morte está no juízo dos homens segundo o qual ela é horrível. Assim, quando estivermos impotentes, ou perturbados, ou ansiosos, nunca devemos pôr a culpa nos outros, mas sim em nós próprios, isto é, nos nossos próprios juízos. Acusar os outros das nossas desventuras é um sinal de falta de educação. Acusar-se a si próprio mostra que a educação de um indivíduo teve início; não acusar nem a si próprio nem aos outros mostra que a educação desse indivíduo está completa.»
Ai, meu Deus, mas e eu, que morro aos bocados!?

Uma viagem feliz

Ainda a propósito de Olympia, nua e com sapatos, o Pedro MS fez cinco perguntas sobre damas reclinadas. Em cinco perguntas, o Pedro veio, como um comboio que rasga a planície nocturna, da Veneza renascentista à Hollywwod quase contemporânea.
O Pedro disse: tenra idade; O Pedro também disse: fita de veludo. O Pedro ainda sugeriu: poço sem fundo. O Pedro depois começou a pensar: chapéus de palha. E, por fim, o Pedro cedeu à moderna escolástica: majos desnudos.
 São cinco perguntas que só não ficam sem resposta porque cada furtiva pergunta dele continha em si mesma a resposta despida e libertina. Como a nenhuma saberia responder, faço a viagem de volta e vou ainda mais atrás, fazendo justiça ao modelo inicial, à primeira representação num quadro de larga escala (um metro e oito por um e setenta e cinco) de uma Vénus em total e abençoada nudez. Pintado por Giorgione.

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Antes de Ticiano (que terá finalizado o quadro por morte de Giorgione), por mais que a mão tape, ou porque tanto a mão tapa, o que esta adormecida Vénus reclama é o nosso olhar. Mesmo que feche os olhos ou, por isso, fecha os olhos.
É Vénus, mas de Veneza, duma cidade rica, católica e insolente. Ainda é Vénus, como poderia ser a Virgem se a Virgem pudesse ser pintada nua. Ainda é Vénus mas já é o corpo de uma mulher. Ticiano, levando-a para o interior da casa, deitando-a no leito conjugal como dama despida, completou essa lavagem do olhar. Sem Veneza, sem a Veneza “cidade das mil e uma noites do catolicismo” como Sollers a chamou, não teríamos este olhar. Madame de Pompadour terá perguntado a Casanova, numa noite de Paris, “Você, vem lá de baixo, não é?”. E Casanova, gentil “Veneza não é lá em baixo, é lá em cima, Madame!”
De Veneza a Hollywood, pergunto eu agora, PMS, é uma viagem feliz?

Imagine…

Há coisas que nos tocam. E mesmo quando sabemos que elas não são reais, inspiram-nos, por vezes, a trans-formar um bocadinho mais a realidade, de tal maneira que ela possa mostrar-se mais, que ela possa ser mais: mais una, mais verdadeira, mais boa e mais bela, como diziam os medievais. É o que acontece neste filme:

Imagine

Cinco Perguntas para Damas Reclinadas

A propósito das primas tardias de MSF e da sua (dele, nossa, de Manet) “Olympia”, os teimados sapatos por tombar, faíscando, nos dorsos masculinos:

1. Como jaa bem comenta, será que o escândalo de “Olympia”, não provém, igualmente — sobretudo — da tenra idade da retratada, na púbis púbere por revelar, os seios de traço incompleto, de prados a percorrer, o olhar ainda preso aos últimos fios dos cabelos das bonecas, apesar de já tudo ter visto pelos mistérios vorazes da noite?

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2. Porque será que as fitas de veludo escuro se mantêm como prendas simbólicas do aprisionamento juvenil, das infâncias perdidas nos corredores côncavos dos bordéis, ainda e sempre, cem anos depois?

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Brooke Shields, “Pretty Baby”, Louis Malle

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Elisabeth Shue, “Leaving Las Vegas”, Mike Figgis

3. Sendo poço sem fundo a obsessão dos pintores de todas as épocas pelas Damas Reclinadas, ora omissas, ora expectantes, numa filiação que ultrapassa Ticiano…

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“La Maja Desnuda”, Francisco Goya, circa 1797

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“Femme Nue Couchée”, Gustave Courbet, 1862

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“Femme Nue au Collier”, Pablo Picasso, 1968

…que exacto desejo se encontra no fundo do poço? Contemplação, penetração, dúvida ou posse?

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Sue Lyon, dejeuner sur l’ herbe

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Brooke Shields, a flowered prison in New Orleans

4. E porque são os rostos dúbios da inocência enquadrados por grandes chapéus de palha, tão doces e tão adultos, como se a maioridade fosse dissimulada pela coroa que se transporta? Serão os homens mortalmente inseguros, os que transportam Lolitas nos seus caminhos secretos, tão inseguros assim?

 

5. Será que Rafael e Caravaggio pintavam e pintaram os seus “Majos Desnudos”? E em que caves do pensamento os esconderam?

É assim que se marca um penalty!

Desgraçadamente hoje não houve futebol. Falo de futebol decente, daquele que envolve o glorioso SLB. Não houve e faz-me mal à saúde. Leio mais e a miopia cresce, gigantesca, desmesurada.  O futebol é a única coisa que me obriga a olhar para uma folha com mais de cem metros de comprimento e quase setenta de largura, uma espécia de e-book do tamanho de um elefante, onde Di Maria escreve frases irreverentes e Aimar usa adjectivos como só os melhores argentinos.
Não houve e não tive remédio que não fosse consultar velhos apontamentos e reler (o único desvio que me permito à fidelidade clubística) glórias de terceiros. Lembrei-me de um episódio caricato, desses que deixam mal, muito mal, quem os sofre. O autor foi o honestíssimo Cruyff. Fez o que não se faz: tapear o adversário. O adversário assiste, sofre impotente e nem tem sequer vontade e muito menos energia para xingar a mãezinha do sujeito. Fica só com vontade de ir directo para o balneário e ficar lá, fechado, a soluçar como uma criança. Se virem, vão acreditar. Ah, e é mesmo tudo legal.

Hitler inventou a Arriflex

Godard disse um dia a Marguerite Duras, em directo (fingido) na televisão: “Tu sabes dizer bem coisas boas. Eu sei dizer bem coisas más”. Se é verdade que um plateau de cinema não é necessariamente um lugar feliz, quando nele se instala a fúria de Godard, o plateau transforma-se num campo de batalha, mas também, como o são todos os campos de batalha, num lugar onde se aprendem coisas. No meio das filmagens o realizador pegou-se com o seu operador. Veja-se a potência da violência pedagógica do discurso godardiano:

Para que serve um telemóvel?

Serve, por exemplo, para ficarmos mais sós — só precisamos de um telemóvel porque queremos ficar longe, muito longe, pelo menos não ao pé. Pode servir, também, para dizer “ouve lá” ou “gosto muito de ti” . Serve para mandar sms de “ai, valha-me Deus” (mas quem é que no seu perfeito  juízo escreve “ai valha-me Deus” no ecrã de um telemóvel?!)
E quando não é a nossa história (ó, a nossa nunca cabe onde cabem as histórias dos outros), um telemóvel serve até para contar histórias como a que Jason van Genderen contou há mais de um ano e lhe deu o primeiro prémio do Tropfest Film Festival.

Heróis

A hero is no braver than an ordinary man, but he is braver five minutes longer.
Ralph Waldo Emerson

*Dec 26 - 00:05*Umar-Farouk-Abdulmutallab-001

De vez em quando as notícias são melhores do que os romances. Não é sempre, mas acontece, e reparamos mais se for por volta do Natal. Desta vez foi o voo 253 que começou em Amsterdam e Umar Farouk Abdulmutallab planeava acabar no inferno que, como toda a gente sabe, paira uns quilómetros acima de Detroit.
No voo iam 278 passageiros e 11 tripulantes. Jaspar Schuringa, holandês, realizador, era só um deles. Um estrondo, fumo e fogo fizeram-no sair do sério: voou do lugar e placou, em estilo que imagino mais ou menos atlético, o jovem que o pai, banqueiro nigeriano, denunciara já aos Estados Unidos como professando “ideias extremistas”. Umar tinha embrulhado com perfeccionismo a morte e colara-a à própria pele. Jaspar, como os velhos exorcistas, arrancou-lhe o diabo do corpo, sem contemplações, à pancada.
“Infeliz a terra que precisa de heróis” resmungou, marxizante, Bertolt Brecht. Nem com toda a sua dramatúrgica inspiração, Brecht adivinhava que precisaríamos – precisamos – de milhares.

Os sapatos de Olympia

Quando, no Salon de 1865, Édouard Manet expôs a “Olympia” que abaixo se reproduz, caíram, sem que os parisienses soubessem o que isso era, o Carmo e a Trindade. Sobre o almofadado leito recosta-se uma mulher nua, flor obscena na orelha esquerda, quase omitido e por isso tão presente, “o íntimo tosão escondido pela mão em leque que Olympia pousa firmemente sobre a coxa”, como escreveu Michel Leiris no melhor texto que conheço (e só conheço ínfima parte) de exaltada análise deste quadro de um metro e trinta por um e noventa.

olympia 

É bom de ver, e os críticos parisienses bem o sabiam, que a “Olympia” de Manet, como expressamente Manet quis que fosse, era uma prima tardia da “Dama Despida” criada por Ticiano para o nobre Guidobaldo della Rovere e que outros e posteriores proprietários correram a esconder debaixo de diáfano manto mitológico chamando-lhe “Vénus de Urbino”, com desculpas de Giorgione e de outras Vénus do próprio Ticiano.

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Na pintura de Ticiano, vejo a mesma pose que Manet retomaria, porventura ainda mais oferecida, nenhuma fita de veludo negro a enfeitar o pescoço despido, os iguais e frutados seios, a diferença (e que diferença) da mão esquerda se deixar cair dedilhante e apreciativa sobre (quase dentro) o dourado tosão que mais tarde Manet faria “Olympia” esconder atrás da mão firme.
Ninguém, na Veneza de 1538, se revoltou como na segunda metade do século XIX se indignaria essa Paris que já vira, um século antes, a fraternal e igualitária Revolução e estava à beira, um lustro depois, de ver a ainda mais revolucionária Comuna.
Olhamos para estes dois quadros e vemos que é quase a mesma cama, os mesmos alvos lençóis, as mesmas serviçais que as contingências de época reduziram a uma e africana, o cão felpudo agora transformado, a pedido de Baudelaire, em gato negro de olhos faiscantes. Ou será gata?
O que é que, então, fez a revolta dos informados críticos parisienses? O quarto em que Manet fechou “Olympia”, sem essa linha de fuga exterior que nos tranquiliza em Ticiano? O corpo mais prosaico, tão contemporâneo, do modelo de Manet? Ou só, e como longamente Michel Leiris explicou, a fita de veludo negro que enfeita o pescoço de Olympia? Ou os sapatos que Olympia teima em não descalçar?

Drink in thoughts

I-Drink-Therefore-I-am-A-Phi

Para mim, há uma parte do Natal que é silêncio e leitura. A minha mais juvenil leitura de Natal, o livro todo numa madrugada, em Luanda, foi o, entre outras coisas boémio, Tortilla Flat, de Steinbeck, traduzido com especiosa propriedade por “O Milagre de São Francisco”.
Desta vez, enquanto chegavam e não chegavam reis magos, li “Ponto Último” para descobrir, na tradução de Ana Luísa Amaral, a poesia do romancista que foi John Updike. Poemas de aniversário e envelhecimento, doença e antevisão da morte, há um, esplêndido, que por começar assim – Grande e inestimável, loura e benigna máquina, / que nos engole e cospe meio-surdos, devagar, / o sangue ainda tingido: isto tudo para mascarar / o triste e simples facto de que definhamos… — me obrigou a pensar no cru e desapaixonado louvor da morte que Larkin fez em Aubade.
A seguir, e pensando que a quadra merecia outras libações, adormeci encostado a “I Drink Therefore I Am”, uma inteligente apologia do vinho e da civilização que, nele, com ele e por ele, outros fundaram e de que, bem ou mal, optimistas ou ressentidos, somos herdeiros. Escreveu-o o filósofo Roger Scruton, desafiando-nos a aceitar a excelência do vinho como acompanhamento do pensamento: “And by thinking with wine you can learn not merely to drink in thoughts, but to think in draughts”.  

A Morcela de Arouca

Se há coisa de que não nos podemos queixar, em Portugal, é da doçaria. Bolos, bolinhos, pastéis, tartes ou mousses, à sobremesa, ou à tardinha, há de tudo um pouco. Portugal é porventura o país com mais pastelarias per capita, a grande maioria com capacidade bastante para nos trazerem à mesa os  bolos. Mas no que diz respeito ao bolo industrial e semi-industrial já foi tudo dito no  Fabrico Próprio, pelo que não me vou alongar.

Nos Estados Unidos, apesar de a América Runs on Donuts, o panorama é confrangedor. Ora muffin, ora brownie, ora brownie, ora muffin. E à sobremesa, depois do jantar, a dimensão da decadent triple layer mud pie geralmente requere que não se tenha comido nada da entrée, que, ao contrário do que o nome indica, é o prato principal. Na europa do norte e leste, há, para mim, um uso excessivo de especiarias e frutas cristalizadas. Das sobremesas asiáticas não penso que haja nenhuma que me tenha deixado saudade, embora verdade seja dita, só pude provar aquilo que me descreveram como sendo sobremesas asiáticas, já que não tive ainda a felicidade de as poder degustar in loco.

Assim sendo, temos de, literalmente, dar graças a Deus pela doçaria que temos, nomeadamente a conventual. Bem aventuradas as freiras e frades com tanta gema de ovo à mão de semear. E as colheitas colhemo-nas nós. Ele é o pastel de Tentúgal, barrigas de freiras, ovos moles, toucinho do céu, clarinhas de fão etc.

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Desta feita trago-vos as morcelas de Arouca. Do “Um tratado da cozinha Portuguesa do século XV” de António Gomes Filho:

Com farinha de rosca, pinhões, amêndoas em pedaços, gema de ovo, banha de porco derretida, calda de açúcar, sal, cravo-da-índia, canela em pó e algumas gotas de água-de-flor façam uma massa e encham com ela as tripas. Em seguida lancem estas na água fervente, até ficarem duras. Ao cozerem-nas, dêem-lhes uns piques com um garfo, para não estourarem.

Iguaria sem igual, causa sempre espanto por ser doce e vir entripada. Nunca as comi cozidas, mas sim fritas em manteiga, em que todos os sabores ficam principescamente envolvidos naquela crosta estaladiça. E não há melhor que ir prová-las directamente às origens, onde o magnífico Convento de Arouca vos espera.

A todos um excelente Natal e caso não apareça no sapatinho uma caixa de morcelas, podem sempre recorrer ao Sr. Manuel Bastos (256944851), que também sabe expedir prendas. Mas presente, presente, é irem com quem mais gostam a Arouca. Não ficarão desiludidos.

O meu primeiro Natal de Gente Morta

Gosto tanto do Natal que quase não gosto do Natal. Neste, de 2009, ando devastado e com os nervos em franja. De memórias e de esquecimentos, de perdas, do que morre em nós e não só por morte de outros. Mas ando também devastado pelos ganhos – pela esperança de ser sempre mais amado, pela descoberta tão boa do Gente Morta (gosto insuportavelmente deste blog, dos autores dele, da Eugénia, que o benjamim Francisco pôs em primeiro na lista, até ao Pedro N que é o último, antes mesmo de mim; gosto tanto deles que, sem querer começar com obscenidades, lhes daria beijinhos a todos, agora, se os visse). É que a escrita sabe-me a pouco. Não chega para as tristezas, não faz justiça às alegrias. Apetece mais dar beijinhos, muitos. E levar beijinhos.
Apetece telefonar aos amigos, aos velhos amigos a que já não podemos telefonar, aos novos amigos a que ainda temos vergonha de telefonar, aos tão habituados amigos que já nem dão conta que estamos a falar ao telefone e que parece que estamos mesmo ao lado deles e eles de nós. Ah, e quando telefonamos nem é só para dizer, “olha, gosto muito de ti”, é até mais para ver se ouvimos do outro lado dizer, “Também gosto muito de ti, não há ninguém no mundo como tu, nem o Einstein era tão sábio, nem a Madre Teresa tão boazinha”. Ouvirmos, corarmos e ficarmos mais vaidosos do que o peru de Natal da Eugénia: mortinhos de vergonha e orgulho e prontos a comer.
Pode parecer que vem a despropósito, mas prontos, vou mesmo dizer. Há uns anos, no Natal mataram o Ceausescu. Sabemos todos que era muito mau e que ninguém lhe telefonava a pensar que ele era a Madre Teresa. Fuzilaram-no na noite de Consoada. Contra uma parede qualquer. Mas agora um dos soldados que lhe deu tiros no peito contou o episódio. Era noite de Natal, o terrível Ceausescu tinha lágrimas nos olhos (não era medo) e a mulher pediu para ser morta com ele. Não há ninguém mau, nem mesmo os monstros muito maus que só quase fazem maldades, menos quando têm lágrimas nos olhos e é noite de Natal. Mesmo num peito cheio de tiros, ainda bate um coração. (E não digam que não vos avisei de que o Natal me deixa imprestável para a escrita!)