O meu primeiro Natal de Gente Morta

Gosto tanto do Natal que quase não gosto do Natal. Neste, de 2009, ando devastado e com os nervos em franja. De memórias e de esquecimentos, de perdas, do que morre em nós e não só por morte de outros. Mas ando também devastado pelos ganhos – pela esperança de ser sempre mais amado, pela descoberta tão boa do Gente Morta (gosto insuportavelmente deste blog, dos autores dele, da Eugénia, que o benjamim Francisco pôs em primeiro na lista, até ao Pedro N que é o último, antes mesmo de mim; gosto tanto deles que, sem querer começar com obscenidades, lhes daria beijinhos a todos, agora, se os visse). É que a escrita sabe-me a pouco. Não chega para as tristezas, não faz justiça às alegrias. Apetece mais dar beijinhos, muitos. E levar beijinhos.
Apetece telefonar aos amigos, aos velhos amigos a que já não podemos telefonar, aos novos amigos a que ainda temos vergonha de telefonar, aos tão habituados amigos que já nem dão conta que estamos a falar ao telefone e que parece que estamos mesmo ao lado deles e eles de nós. Ah, e quando telefonamos nem é só para dizer, “olha, gosto muito de ti”, é até mais para ver se ouvimos do outro lado dizer, “Também gosto muito de ti, não há ninguém no mundo como tu, nem o Einstein era tão sábio, nem a Madre Teresa tão boazinha”. Ouvirmos, corarmos e ficarmos mais vaidosos do que o peru de Natal da Eugénia: mortinhos de vergonha e orgulho e prontos a comer.
Pode parecer que vem a despropósito, mas prontos, vou mesmo dizer. Há uns anos, no Natal mataram o Ceausescu. Sabemos todos que era muito mau e que ninguém lhe telefonava a pensar que ele era a Madre Teresa. Fuzilaram-no na noite de Consoada. Contra uma parede qualquer. Mas agora um dos soldados que lhe deu tiros no peito contou o episódio. Era noite de Natal, o terrível Ceausescu tinha lágrimas nos olhos (não era medo) e a mulher pediu para ser morta com ele. Não há ninguém mau, nem mesmo os monstros muito maus que só quase fazem maldades, menos quando têm lágrimas nos olhos e é noite de Natal. Mesmo num peito cheio de tiros, ainda bate um coração. (E não digam que não vos avisei de que o Natal me deixa imprestável para a escrita!)

Comentários a “O meu primeiro Natal de Gente Morta” (9)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    É Natal, Manuel Fonseca, podemos ficar doces como a calda de açúcar dos Sonhos. Gostamos muito de si.

    (digo no plural porque se ouve melhor quando é verdadeiro.)

    Um beijinho.

  2. António Eça diz:

    É curioso: nunca me aconteceu gostar de todos os componentes humanos duma agremiação, fosse ela qual fosse.
    Bom Natal, boa Gente Morta!

  3. Orcama diz:

    Embora ausente, não quero deixar passar esta ocasião sem desejar, por intermédio deste seu post, MSF, fraternais votos de óptima Quadra Natalícia a todos os Autores/as deste simpático e irrequieto Blog. Um especial realce para Eugénia de Vasconcellos, que tem sido uma “bela companheira, que bem comporta a galhofeira”.

    Outrossim a todos os visitantes, leitores e comentadores. Um destaque aqui, também, para António Eça, nosso companheiro de diatribes várias, Bellatrix e Maria João Cayenne dilectas adversárias de muitos inventários.

    E, agora, um grande 2010 para todos/as e para este Blog. E “ELAS” que se preparem… Tchim, Tchim!

    Como prenda, aqui vos deixo Leontyne Price em Holy Night. É daquelas sopranos que nunca teve medo de cantar a plenos pulmões, como eu gosto e como digo que gosto de todos/as vós.

    http://www.youtube.com/watch?v=z8g5cpNUzyY

  4. Maria João Cayenne diz:

    Já venho um tanto fora de horas mas, ainda assim, não quero deixar de desejar a todos a continuação de umas Boas Festas, e que o Novo Ano vos permita concretizarem mais alguns sonhos.
    Tchim, Tchim Eugénia, Bellatrix, Padrinho, Manuel Fonseca, e demais mortos ou vivos que vão passando por este fantástico blog.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    À Maria João, ao António Eça e ao Orcama, agradeço as lembranças e os apertados abraços em meu nome e, se bem interpreto o espírito desta “agremiação”, de toda a Gente Morta. Abraço-os com recíproco vigor natalício primeiro e já a pensar no amanhã que há-de cantar em 2010.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Manuel Fonseca, também gosto deste seu mood natalício. Afinal o intrigante e conspícuo S simply stands for sweet, sentimental ou até, quem sabe, soft… Quem houvera de dizer…

    António Eça, como hoje não me apetecia trabalhar, dediquei-me a reciclar bolo-rei seguindo as suas calóricas instruções. Substitui o tawny por um restinho de vintage que miraculosamente sobrou de ontem e, ajuizada, refreei-me na parte do mel. Foi fantástico. Em todo o caso, e só esta tarde, devo ter engordado pelo menos um quilo. Tudo por sua culpa.

    Orcama, desaparecido padrinho, folgo em saber de si, já estava quase em cuidados! Aproveite a quadra festiva para descansar, que esta trégua está por dias.…

    Maria João Cayenne, que bom saber de si. Tem feito falta. TchimTchim

    Que o vosso 2010 seja fantástico, todos os dias!

  7. António Eça diz:

    Vasconcelos, Joana Vasconcelos: só posso aceitar metade da culpa, porque, como já deve ter deduzido, a outra metade deve-se exclusivamente ao seu notável descontrole perante as artes da sensualidade — comprovado pelo quilo de bolo-rei torrado (mais levezinho que o ‘outro’) que diz ter ingurgitado com a ajuda de generosas facadas de queijo serrano . E toclas, mai nada! Um quilo!…
    Ainda bem que gostou.
    Bom novo ano!

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Bellatrix, I mean Joana, quando é que entra em funções? O Francisco ainda deve andar às voltas com a morcela de Arouca e nunca mais procede às mudanças. Estou a ver que tenho de mudar o malfadado s para sevícias.

  9. Joana Vasconcelos a.k.a Bellatrix diz:

    Boa tarde Manuel, olhe lá o Natal e essas coisas todas … take it easy e não seja Severo nem Sinistro com o rapaz!

    Eu, por ora, estou bem, ainda em registo de guerra de trincheiras e ainda sem vontade de trabalhar, a dar conta dos doces que sobraram do Natal. O meu único problema resulta de uma alusão do Diogo a um manual de instruções técnicas (?!) e mais a uma formação inicial (?!), que me deixou um bocado stressada. É que o meu caso é grave, sendo a minha suposta vocação jurídica um mero eufemismo destinado a encobrir uma profunda inépcia para tudo o que não meta códigos, artigos, alíneas e afins. Acho que vou até ao Corte Inglês comprar uns marcadores de sublinhar.

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