Nelson Rodrigues
Queridos Mortos

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O Anjo Pornográfico

   “Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.”

Estava no meio de um almoço e entre generalizações disse que gostava de ser um escritor. “Batata!” reagiram os amigos com comiseração. Não é um escritor quem quer. Só é um escritor quem a biografia ajuda.

Dou o exemplo do pernambucano Nelson Rodrigues. Biograficamente ele vai ser sempre carioca, prova escarrada de que só depois de vivermos muito é que devíamos decidir onde nascer. Para o que conta, para ser um escritor, Nelson nasceu no Rio, viveu carioca e carioca morreu.

É só o começo. Um escritor inventa. Nelson inventou o moderno teatro brasileiro ao escrever Vestido de Noiva e ainda teve tempo para inventar, com seu irmão, jornalista desportivo, o derby do Rio, o Fla-Flu que ainda hoje, da campa onde se enerva, ele deve ver com muito distorcida paixão pó de arroz, já que, bem entendido, “a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos”.

Mas não é isto o que quero dizer. A biografia tem de dar certo muito cedo. Nelson tinha catorze irmãos. Esta sim, é já uma asserção bíblica, um arranque literário. No Rio foram morar na Rua Alegre, facto biográfico de indisfarçável volúpia. Nelson era menino, poucos anos. A vizinha do lado, dona Caridade, entrou sem bons-dias pela casa de Nelsinho e declarou à mãe de catorze descendentes: “Todos os seus filhos podem frequentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson.” O que Dona Caridade disse a seguir é dito por quem sabe que está já a subsidiar uma vocação literária: vira Nelson aos beijos em cima dos três aninhos de sua filha Odélia. Não em pé ou de lado; em cima, sublinhou, e em movimento. Qualquer um dirá: sem nunca se ter posto em cima, e só duas letras à frente no alfabeto, Fernando Pessoa é quem é.

Prenúncio da tragédia carioca de que Nelson faria a sua dramaturgia foi a redacção com que assombrou a professora e uma escola inteira. O menino escreveu uma história de adultério. Contou como um marido, com pressa de chamar “meu anjo” à esposa amada, a surpreende nua, estendida de oferecida na cama, enquanto um vulto, insolente mas só um vulto, saltava virilmente pela janela para a madrugada indiferente e cálida. Sem perder um milímetro de tanto amor, faca cega na mão, o marido mata a mulher e tomba ajoelhado aos pés da cama, a pedir-lhe “perdoa-me por me traíres”. Estava em jogo uma biografia: a escola não deixou que ninguém lesse mas concedeu-lhe prémio prevenindo glória futura. 

Aos 13 anos, Nelson começou a escrever reportagens policiais no jornal de que seu pai era director. Num dia de Natal, final dos anos 20 do século que passou, com falta de assunto para primeira página, o pai e outros três irmãos mais velhos, todos jornalistas, decidiram que a matéria de abertura seria o desquite de um casal de pública celebridade. No dia seguinte, a dama visada avançou com toda a sua ofensa pela redacção. Não encontrando o patriarca, viu Roberto, o irmão mais velho, e puxou o gatilho do revólver novinho da compra dessa manhã. Não sei se terá dito: “Tome o seu presente de Natal!” À frente dos olhos de Nelson, a tragédia carioca consumou-se: o irmão morreu e o pai agonizaria 67 dias depois, consumido pela dor e trombose cerebral. Nesse dia, Nelson só queria uma coisa: morrer. Ferida biográfica, nunca mais sarou.

Mesmo sabendo que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, Nelson Rodrigues amou. No começo, com a maturidade dos 14 anos e numa lógica inatacável, apaixonava-se por actrizes e dormia com prostitutas. Amores de beijos e soluços. A bailarina argentina de olhos azuis, a estudante de Copacabana, a professora de Ipanema. Dividiu com o irmão Joffre a paixão por outra bailarina, Eros Volúsia – vejam: com factos biográficos destes é fácil ser-se escritor.

Já a Rua Alegre lhe tinha dado ajuda em matéria sentimental. Nelson sempre lembrava o sujeito de bigodinho (pode ser que não tivesse) que a mulher xingava à vista do bairro todo. Uma humilhação multiplicada, de anos. Um dia o sujeitinho débil desamarrou a culpa e, também na rua, bem no meio dela, bateu. De cinto, até. A vizinhança correu para o espectáculo: “bate mais, bate mais” pediam as mulheres. E ele bateu com a euforia de um anjo, até se cansar. Não foi só o mulherio que aplaudiu. Ela, sofrida e orgulhosa, atirou-se-lhe aos pés e desatou a beijá-lo. “Toda mulher gosta de apanhar” filosofou o adolescente Nelson.

Sexo e morte, sublime e sórdido – que outra coisa é que pode ser uma biografia? Casou. Um dia, regressando ao jornal o Globo, depois de cura no sanatório, disseram-lhe: “Tem uma mulher na redacção, 19 anos, moradora do Estácio e dura na queda”. “Pode deixar, está no papo” disse logo o desleixado e indolente Nelson. Era Elza, meia-siciliana, com uma família que a Nelson nem vê-lo, numa rejeição que põe logo uma mancha de honra numa biografia. Casaram-se clandestinos, no horário de trabalho, comemorando a café com leite e torradas, e jurando que noite de núpcias só com o casamento religioso. Cumpriram. Descasariam muito mais tarde. Depois de outros dois casamentos dele, voltaram a casar. Quando Nelson morreu, Elza, ainda em vida, colocou como lhe prometera, o nome na lápide ao lado do nome dele, logo debaixo da inscrição: “Unidos para além da vida e da morte. É só.” Porque, como toda a sua obra reclama, amor que acaba não era amor.

Podia continuar: a biografia de Nelson Rodrigues é inultrapassável de copiosa. Angustia-me uma pequena dúvida:

foi mesmo a biografia que o obrigou a ser o escritor que é, criando um imaginário de sexo punido e punitivo, traição, incesto, crueza, sentimentos torturados,

ou é por ser o escritor que é que Nelson Rodrigues teve esta biografia excessiva, auto-paródica, isenta de tédio e tão terrivelmente cheia de quotidiano?!

Manuel S. Fonseca

Comentários a “Nelson Rodrigues” (2)

  1. Orcama diz:

    Caro Manuel “Sumptuoso” Fonseca,

    Texto explêndido, necessário, urgente, para repor certas coisas e ideias, aqui na “Morta Gente”… e não foi escrito numa “Remington”… Tivesse “Nelsinho” usado uma certa verde “Hermes” minha conhecida e teria sido ainda muito mais escritor do que aquele que quis ser e comprovadamente foi.

    Continua assim no ano de já amanhã. Brilhante, inconformado e inconformista. Provocador, também.

    Kolela com Kandandus.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Dear Mr. Orcama,
    Quero, antes que regresse do Dubai, agradecer-lhe esta sua simpática nota. Mas preciso também, antecipando o eventual constrangimento da nossa coincidência na mesma cidade, de lhe dizer, a esta distância, que Nelsinho é mesmo, para mim, um dos mais hábeis artíficies da língua que nos acolhe. Gosto de cada frase, da adjectivada justiça que as molda e das substantivas injustiças que porventura contenham. Justa e injustamente ele pensou muito bem por pensar no querubínico português em que pensou.

    Um rijo kandandu com votos de que almocemos de novo e rápido com o nosso tão físico amigo enólogo. Transmita à ramificada família os meus protestos de dívida eterna, o que inclui as lindas maninhas e os dois intrépidos major alvega da área força angolana.

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