My sin, my soul

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Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul.” É com esta frase que Vladimir Nabokov começa o romance que mais fama e mais proveito lhe deu em toda a sua carreira.
A tradução portuguesa, na versão que tenho, editada pela Teorema em 1987, acompanha com correcção o exaltado garbo com que Nabokov tratou a língua inglesa, e cito: “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma.” Reconhece-se o honesto esforço, mas escapa-lhe a cadência da aliteração do original e, tratando-se do que se trata, é pena que na tradução portuguesa o fogo que responde à visão de Lolita se associe a uma conceptual “virilidade”, quando em inglês o mesmo fogo abrasa com precisão anatómica os “loins” que são o pecado e a alma do narrador.
Se falo de “Lolita”, o romance de Nabokov que Graham Greene foi o primeiro a louvar e Stanley Kubrick o primeiro a adaptar ao cinema, não é para exercitar dotes de crítico literário que não possuo.
Recordo apenas que foi há pouco mais de meio-século que o romance viu, definitivamente, a luz do dia nos Estados Unidos da América. Nessa altura, havia pelo menos dois factores de perturbação que “Lolita” suscitava: primeiro o tema e, depois, a babélica torre que envolve a sua criação. Antes do romance ser romance na América, e louvando-se no tema, quatro editores tinham recusado o livro com receio – melhor, com medo – da controvérsia. Não era caso para menos.
Por mais voltas que lhe possamos dar, “Lolita” é a história de um pedófilo. Escrita com admirável estilo – ou não tivesse Nabokov dito do seu narrador, Humbert Humbert: “É sempre de esperar num assassino uma prosa de estilo caprichoso” – continua ainda assim a ser a história de um pedófilo. É que, mesmo tratada com brilho literário, a monstruosidade não deixa de ser monstruosidade e a perversão tem sempre, da perversão, um leve cheiro a esgoto.
As fantasias desviantes de Humbert Humbert acabaram por ser acolhidas em livro, pela primeira vez, em França. O facto é tão irónico como justo. Afinal, Humbert Humbert, o protagonista de “Lolita”, é um parisiense, especialista em literatura francesa. E fora em França que se animara à inclinação para as ninfitas (ou ninfetas?). Essa inclinação constitui o centro do que virá a ser o seu périplo americano, “depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal”, por certo premonitória referência ao remanso deste Dezembro de 2009 que Lisboa vive e o resto do país contempla.
A publicação em França foi pacífica e discreta. Seguiu-se o escândalo da edição inglesa, em 1956, com proibição que originou retroactiva proibição em França. Dois anos mais tarde, o livro foi editado nos Estados Unidos. Surpresa: sem polémica e com vendas astronómicas.
Não admira. Há coisas que baralham o mais pudico e resistente dos leitores: “Lolita”, a história de um pedófilo francês envolvido com uma ninfeta americana, é superiormente escrita em inglês por um autor russo. Depois de tão nebuloso e improvável puzzle, o leitor está pronto para enfrentar alguma lascívia, que é como quem diz, o carmesim da obscenidade. Mas será que hoje, aceitando muito mais facilmente a transnacionalidade linguística e globalizante da sua criação, estaremos dispostos a acolher com a mesma facilidade e sem judicialização o tema pedófilo? Na excelente Folha de São Paulo garantem-nos que não, com exemplo que vem de Fortaleza. A ler, é claro.

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Comentários a “My sin, my soul” (2)

  1. António Eça diz:

    Excelentes observações, tendo para mais em conta que existem juízes, aqui e em todo o lado, que funcionam como meros computadores — ou seja, que aplicam a lei independentemente da sua aplicação ser um escárnio ao bom senso.
    Em relação a ‘Lolita’ lembro ‘Morte em Veneza’ que, sendo diferente, também incorre na mesma quimera de pretender recuperar alguma juventude utilizando a vaidade juvenil, a sua atracção pelo risco e, por fim, a sua sexualidade neófita.
    Sempre existiu, afinal. E sempre cheirou a esgoto, como bem caracterizas.
    Despropósito final: já sentes as labaredas nos calcanhares?
    O Natal está a chegar…

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá MSF.

    Que bom que já tratou dos seus assuntos de estado e regressou. Não gostei de ver a cara do blog sem um texto seu.

    Isto deve ser um crime literário ou intelectual: da santíssima trindade que refere, Nabokov, que escreve tão perfeitamente, e eu gosto, não o consigo ler.

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