Hoje não é o meu dia de assistente de coveiro, mas não se pode acabar esta semana de memória colectiva dos Anni di Piombo em Itália, sem falar desse morto legendário que foi Giangiacomo Feltrinelli. Filho da alta burguesia Milanesa, membro dos Partigiani que no final da segunda guerra lutaram contra os Alemães e Mussolini, e um dos mais activos membros e financiadores do PCI no pós-guerra, Feltrinelli decidiu em 1954 criar uma editora, dando assim à Italia, a hoje reputadíssima casa editorial Feltrinelli Editore. Foi sob esse nome que descobriu Pasternak e o Doutor Jivago, (publicou-o contra a vontade da sua USSR e foi por isso, mais tarde, expulso do PCI) e descobriu e publicou também, esse capo-lavoro que é Il Gattopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (toda uma história que merece só por si um longo post). Contra a ordem moral vigente e arriscando-se a ser preso, publicou também obras muito avant garde para a altura como o Trópico de Câncer de Henry Miller. Durante os anos 60, passeou profusamente pela América Latina, conhecendo e tornando-se amigo pessoal de Che e de Fidel, publicando, destes, e de outros como Ho Chi Min, diversos livros e escritos. A partir dessa experiência, Feltrinelli passa a personificar a figura do revolucionário urbano, que acredita que só eliminando os inimigos dos seus ideais se podem atingir os propósitos da revolução, que via como única solução para os males da sociedade moderna.
Não teve tempo de ir muito longe. Em 1972 foi encontrado morto, num descampado dos arredores de Milão, com o corpo dilacerado por uma explosão. Pensa-se que preparava, na companhia de outros membros da GAP (Gruppi d´Azione Partigiana), mais um atentado bombista contra aqueles que, provenientes da sua burguesa Milão, se recusavam a pensar como ele.*
Já comprei quase todos os meus presentes de natal. Comprei-os na Mega Store da Feltrinelli de Corso Vercelli em Milão. Ao pagar as minhas compras com o meu American Express, e ao usar o meu cartão de cliente, (recebendo um desconto e divulgando com isso à Feltrinelli os meus mais íntimos gostos e preferências), pergunto-me o que pensaria hoje da minha customer experience , o velho Giangiacomo.
* Existem naturalmente muitíssimas teorias de conspiração que sugerem que tudo não passou de uma encenação e que Feltrinelli foi assassinado pelas forças secretas do estado Italiano.


















Vasco Grilo, foi uma óptima ideia lembrar aqui os Anni di Piombo que, como se viu, marcaram para tantos de nós, gente ainda pequena, o despertar para uma dimensão bem negra e bem real deste nosso mundo. Gostei muito dos seus variados posts e de todos os que se lhes seguiram. Se muito recordei, muito mais aprendi. Obrigada.
PS – Grazie mille também pela fantástica sugestão quanto ao Il Gattopardo de Lampedusa… Fico à espera …