Fetiche Têxtil


Penso estar possuído por um preocupante caso clínico de fetichismo. Digo isto aqui, desta forma brutalmente honesta, devido à especial e crescente obsessão que tenho por algumas senhoras, que, embora elegantes e cheias de fascínio, se parecem demasiado com as amigas da minha avó em velhos retratos dos anos 20 e 30.

Não estou orgulhoso, nem certo do porquê deste meu desabafo, no entanto e sob o risco de parecer desnecessariamente provocatório, aqui vai,

- quem é que se atreve a afirmar que esta altiva e luminosa Amelita Galli-Curci, assim enrolada em pérolas e arminho, não é absolutamente divina?*


amelita Galli-Curci

Amelita Galli-Curci — Soprano, Metropolitan Opera NY 1939

- Ou que o proeminente nariz de Kiki de Montparnasse, que enlouqueceu pintores e escultores durante os anos excessivos da Paris expressionista, não é o que basta para nos causar uma enorme vontade de dedicar o resto da vida à pintura?

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Kiki de Montparnasse — Man Ray 1926

- Ou que o talento e a vida desperdiçada de Irène Némirovsky, combinados com o seu olhar penetrante e compreensivo não é motivo suficiente para ter vontade de viajar no tempo e com isso salvá-la dos cruéis invasores da Paris de 1942?


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Irène Némirovsky — Escritora Russo-Francesa, morta em Auschwitz 1942

Talvez esta obsessão não seja um fetiche propriamente dito, mas nesta nossa era feita de silicone e “stupid hairstyles”, fica-me a nostalgia dessa beleza clássica e “bem penteada”, que nas ditas fotos da minha avó me aparecia como testemunho de um tempo que, esteticamente, me pareceu sempre muito mais digno do que o actual. Mas talvez tudo isto não passe de mero comércio intelectual de tipo barato.


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Pronta para a missa.…


* OK, confesso. Fetiche, fetiche, tenho-o pelo Astrakan. Quando vejo na rua uma senhora, elegante no seu casaco de Astrakan tenho que me conter para não me apresentar, na esperança de a poder abraçar e com isso poder passar os dedos pelas ondas, curvas e relevos desse voluptuoso e divino material têxtil (Horror! É extraído de crias de ovelha recém-nascidas ou por nascer). Infelizmente, nos dias de hoje, penso que o único sítio onde um casaco de Astrakan estaria ao alcance dos meus sentidos, seria na fila para a comunhão, numa igreja frequentada por senhoras de idade, perdoem-me a heresia. Como o local não seria o apropriado e à muito que não ponho os pés numa missa, acho que para uma plena satisfação desta minha obsessão terei mesmo que comprar um casaco só para mim e mantê-lo secreto no meu guarda-fatos de casa.



Comentários a “Fetiche Têxtil” (7)

  1. BELLATRIX diz:

    Vasco, a minha Avó (a do Pantagruel) sempre teve uma predilecção por casacos de astrakan. E coleccionou vários, ao longo da vida. Lindos de morrer. Porque a idade a fez pequenina e frágil, os ditos tornaram-se-lhe muito pesados. Agora só usa um de breitschwantz (o tal astrakan bebé). Os outros deu-os à minha mãe e a mim. Tenho dois, um cor de mel e um preto. Uso-os em todas as ocasiões – especialmente com jeans — e adoro.

    Terei o maior gosto em emprestar-lhos para interagir com eles numa próxima vinda a Portugal. Sem ter que me abraçar e/ou ir ter comigo à missa.

  2. António Eça diz:

    Ó Vasco, desculpe lá a minha morbidez freudiana (sim, claro que ele era mórbido, alguém duvida?…): um astrakan no armário não será um qualquer sinal de desejo reprimido, como, por exemplo, querer frequentar missas animado de intenções pouco católicas e portanto dúbias?…
    Bellatrix: essa exibição despudorada dos astrakans ancestrais não será reveladora duma personalidade dominadora (no sentido mais coevo do termo!) em que nem os animais, esses nossos amiguinhos, serão poupados?…
    A Greenpeace já está avisada, é só acabar a Cimeira do Clima e eles vêm logo cá para fiscalizar…

    • BELLATRIX diz:

      Olhe que não, António Eça, olhe que não. Os astrakans em apreço são, como bem diz, ancestrais. Significa isto que:

      1 – Quando eu nasci, já os falecidos astrakans jaziam no armário da minha avó. Porque nada sei sobre a vida deles, não posso pedir aqui ao Gente Morta que lhes faça um lindo obituário. Resta-me assegurar que a morte dos anónimos astrakans não foi em vão, usufruindo abnegadamente os casacos em que se eternizaram.

      2 – O meu problema não é o Greenpeace – sempre poderei explicar-lhes que a mera possibilidade de vestir, não um, mas dois astrakans, reduz, e muito, a minha pegada ecológica, ao evitar horas de aquecimento ligado. O meu problema é a ASAE que, estou certa, não hesitará em aplicar-me uma coima por ter em casa astrakans fora de prazo, ainda que em perfeito estado de conservação.

  3. Vera Herédia Colaço diz:

    Maravilha, maravilha…sim possuo (vários, digam-se!!) fetiches têxteis desde há já vários anos sem pudor algum de o revelar. Astrakans, sim qualifico de uso diário e integrados numa linha já um pouco fora do domínio têxtil mais a tender para os cortumes e seus artigos de peles, pelo que Domingos e feriados talvez arrisque tb combinar com algo mais prático e numa combinação perfeita e a contrastar com os ditos “small luxuries” como os algodões orgânicos e outras top fibras sustentáveis!! Assim tudo fica mais equilibrado e ajustado com a dita cimeira clima!

  4. Ler muito, muito baixinho (murmurado, ok? senão vêm aí os fundamentalistas da PETA e a Blonde já era e eu gosto muito da Blonde):
    Eu sempre tive um fetiche parvo com um gorro-russo dessa coisa astrakan que o Pai tinha (ponto um: o meu português não sabe se há um nome para gorros-russos; ponto dois: o meu português dá ainda menos para saber que em português astrakan é astrakan). E não é só isso (agora ler ainda mais baixinho, vale?), arminho não tenho nada, mas tenho aí um vison e uma marta da Mãe… que ai Jesus, Cristo Senhor. chiu!

  5. António Eça diz:

    Bellatrix, assim não tem qualquer problema: a ASAE faliu!!!

  6. ads diz:

    Olhe, tenho cá um regalo de astracan preto muito lindo e muito maravilhoso e muito vintage que jamais uso porque não é lá muito compatível com a minha vida quotidiana em que tenho de transportar muitas coisas (ou nem tenho mas habituei-me a isso) e de vez em quando fumar um cigarro, e sobretudo em contexto nocturno, onde o dito regalo brilharia mais, acresce o copo de cerveja na outra mão. É uma coisa que realmente não me dá jeito. E crias de ovelhas pronto, também coiso. Mas de bom grado lho vendo. Que melhor maneira de sentir o astracan que enterrar as mãos nele? A sério, vendo-lho. Só não lho dou porque é coisa fina e bem, e vá. Mas faço um preço de amiga.

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