Sobre ele correm lendas. Que se o deixassem, ia para o campo sozinho fintar os touros, que sabia galopar para trás, ambas as coisas só vistas porque são contra-natura: um cavalo sem medo das feras? Correr de um modo anatomicamente improvável?
O Ferrolho viveu entre 1964 e 1981, filho do Temporal e da Zagaia, montadas de insigne curriculum taurino. Quem o adestrou e educou foi João Núncio, talvez o mais notável cavaleiro tauromáquico de todos os tempos e, ao mesmo tempo, latifundiário sem muita compaixão; amava os cavalos, respeitava os touros, mas não tinha grande interesse pelos homens.
Mas foi numa tarde no Verão de 1976, na Monumental de Las Ventas de Madrid, o vortex da tauromaquia mundial, que Ferrolho teve o seu momento de eternidade. Em cima dele, estreava-se naquele palco um rapaz de 16 anos de nome João Moura. E durante os minutos que demorou a faena, tamanha foi a simbiose entre o homem e o animal, de tal forma ambos se entenderam e formaram uma só inteligência, tão comum aos dois foi o instinto que os percorreu, que a Natureza foi derrotada pela Arte como nunca antes se vira em Madrid.
O que então ninguém sabia, nem soube prever, é que esse momento constituiu o zénite do toureio em Portugal e que daí em diante esperava-o um irreversível esmorecimento. O Ferrolho foi o auge da graça e da inteligência de uma percepção do mundo cada vez mais extravagante e solipsista, cada vez mais repugnante à maioria das pessoas.
A maior parte de nós já vive na cidade há muito tempo – gerações – e isto infiltra-se no nosso espírito e cria um olhar sobre as coisas que tomamos como universal, mas não deixa de ser específico. Não há nisto novidade, é sempre assim.
A Natureza que nos é vizinha tem a forma de jardim e a fauna, ou é doméstica, ou encontramo-la no supermercado, numa configuração abstracta e funcional. O que outrora era uma fronteira próxima e ameaçadora, é hoje um lugar distante pelo qual nutrimos sentimentos de benevolência e atenção. Ainda admiramos a Selva e receamos as Feras, mas tudo isto está lá longe, na televisão.
Ora as touradas, o que fazem é mostrar que essa inquietante interface entre o que é da ordem do humano e o que é Natureza em estado semi-selvagem, está mais perto de nós do que supúnhamos, e que a nossa weltanshauung é muito mais contingente e frágil do que gostaríamos de admitir.
À maior parte das pessoas as touradas apresentam-se como um espectáculo bárbaro, praticado por gente cruel que retira prazer do sofrimento dos animais. Como de costume, só aceitamos a diferença se ela couber nos nossos próprios limites.
Já perdemos a reminiscência daquilo que uma tourada pretende afirmar: entre o homem e a natureza há um combate em que vence o mais forte; o homem é o mais forte porque é um ser racional; o homem engana a natureza porque lhe conquistou aliados (o cavalo); a racionalidade manifesta-se por uma série de gestos codificados e medidos, o que forma uma espécie de ritual; ao recorte e à precisão desses movimentos, designamos, arcaicamente, como Arte; a possibilidade da morte é parte da vida e provocá-la, enfrentá-la, não é um acto de coragem gratuito, não é um heroísmo, mas uma necessidade destas afirmações; e, por fim, o sangue não é abjecto.
Mas todos estes argumentos são inúteis. Só os entende – e logo estará disposto a discuti-los – quem estiver determinado a recuar os princípios morais da vida urbana até um ponto em que a ética estremece. Mas é isto que verdadeiramente se chama tolerância.
Também não deixa de ser patente que as touradas, tendo toda esta grandeza dentro de si, decaíram numa actividade assaz aborrecida, quase sempre bastante condescendente e pouco íntegra. Além disso, o que é pior, praticada por gente que é profundamente detestável.
Não é só o facto de o mundilho tauromáquico palpitar de intrigas ignóbeis e disputas sórdidas. É sobretudo o facto de o “povo tauromáquico” se ter fechado numa ideologia rústica, que reitera os piores costumes do Portugal Antigo, ultramontano, onde predominam os fados e as patilhas, à moda do Conde de Marialva, para o qual os desplantes de fidalgote se confundiam com boas-maneiras e a destreza física com elegância.
Tinha que ser assim? Não, não tinha, como provam Picasso, Orson Wells, Hemingway, Bizet, etc. Mas agora é demasiado tarde para suster o declínio, nem há sinais de reconciliação entre o sofisticado imaginário tauromáquico e a sua desmazelada prática.
Resta-nos a memória do soberbo e elástico Ferrolho, o cavalo que dominava as arenas pelo intelecto.
José Navarro de Andrade


















Teremos que abrir uma campa maior que as outras para este muy ilustre morto.
JNA, vivi sempre em Lisboa, relativamente perto do Campo Pequeno e às quintas feiras em miúdo ia para a cama ouvindo os Olés vindos da Praça. Fiquei com isso alérgico a touradas e toureiros. Não podemos todos pensar da mesma maneira. No entanto, este ano, num fim de semana de Novembro, meti os miúdos num avião e fui até Portugal e à feira da Golegã onde em miúdo ia todos os anos. Apesar das patilhas, dos capotes ribatejanos de boutique, das tias incomodadas pelo cheiro da bosta cavalar e de uma certa deturpação do espírito que a feira antes tinha, gostei de os poder de alguma forma aproximar a esse mundo semi-natural e primordial que brilhantemente aqui descreves.
Abraço.
Alguns olés que o Vasco ouvia eram, devo confessá-lo, meus. Até aos meus 10/12 anos frequentava religiosamente, às quintas feiras, o camarote 33 da Praça do Campo Pequeno. Conheço bem o Portugal ultramontano de que fala o Zé. E também o abomino. Mas também não alinho na rejeição politicamente correcta das corridas de touros. É verdade que agora se passam muitos anos sem que vá assistir a uma. Mas isso é porque, também eu, me lembro bem de ver tourear o Ferrolho, o João Moura, o Álvaro Domecq e até (uma vez só) o João Branco Núncio. Fiquei mal habituado.
Eu bem me parecia, que já conhecia a tua voz de algum lado quando em 98 te conheci em Boston. Está explicado o mistério. Olé!
JNA, que boa lembrança teve: vir aqui enterrar o Ferrolho. Gostei muito que o fizesse.