Em minha casa vive um coelho. Chama-se “Silf” e não, não é um coelho que por lá se passeia sempre atrasado, de cartola e relógio na mão, nem tão pouco um “killer rabbit” de dentes afiados, que se atira ao pescoço de quem nos visita (venha vestido de cavaleiro da corte do Rei Artur ou não). É simplesmente um anónimo e discreto coelho cinzento, que dorme, come alface e fruta madura e que deixa, por onde pode e para desespero de alguns, as suas ocasionais marcas territoriais em locais apropriados como o sofá da sala, a cama da “baby-sitter” ou o sopé da porta de entrada de casa. É no entanto um coelho honesto que faz relativamente bem o seu pet work, entretêm as crianças q.b., e confesso que ao fim do dia é uma quase-humana e tranquilizante presença para quem chega a casa cansado de mais um dia no cruel, e esse sim, animalesco, mundo dos humanos.
No entanto, e embora seja ainda um coelho jovem (na realidade é uma coelha mas tinha já passado quase um ano quando o descobrimos, por isso macho ficou, a pobre “Silfy”), sei que chegará inexoravelmente o dia do seu decesso e a necessidade de comunicar aos seus pequenos donos o que isso significa. Não que perca o sono com isso mas será uma conversa para a qual me deverei preparar, e escolher muito bem, as palavras e a resposta, a uma reacção que será seguramente confusa e emocional.
Mas porque escrevo sobre este banal e irrisório evento que não deverá interessar nem ao próprio coelho? Porque o que eu quero mesmo, é contar a única história que conheço, que envolve coelhos e morte e que, juro, verdade, verdadinha, se passou comigo, quando no ano de 2001 vivia em ´s-Hertogenbosch na desolada região do Noord Brabant no sul da Holanda.
Era uma noite de Sábado, tétrica, húmida e chuvosa, como só nos países baixos se pode ter o prazer de encontrar. Estava eu, sentado confortavelmente no sofá da sala de minha casa a ouvir música, quando a certa altura ouvi um estranho rumor vindo lá de fora. Fui ver o que se passava. No meio do pequeno relvado do meu jardim, Karl, o enorme e pacífico Grand-danois, que o meu amigo Rutger por vezes me deixava ao fim-de-semana, olhava para mim com um daqueles olhares dóceis de quem carrega pesadas culpas e tenta passar despercebido. Efectivamente, sangrento e muito morto, apertado entre as duas poderosas mandíbulas do meu mastim de aluguer, consegui distinguir nitidamente, o coelho dos meus vizinhos. O coelho, animal de estimação das crianças do lado, era uma deliciosa criatura de pêlo castanho a quem os miúdos chamavam carinhosamente “Cookjie”. — Godverdomme! — gritei no meu melhor Holandês. Maldito Karl. Tinha ido à coelheira e tinha conseguido pescar o coelho lá de dentro. Pobres crianças, pensei, como farei a levar-lhes o coelho morto e explicar-lhe que foi o meu cão a trucidar-lhes o pobre do bicho?
A situação requeria nervos de aço, e assim, pronto de reflexos, engendrei um plano. — Karl, Karl, larga o coelho, ó vai-te embora ó Karl! — Agarrei no coelho, levei-o para a cozinha e lavei-lhe o pêlo com um muito delicado shampoo, assegurando-me de eliminar completamente todos os vestígios de sangue e de lama. Procurei dar ao corpo do pobre bicho uma forma de alguma maneira natural visto que tinha sido verdadeiramente maltratado pelo hórrido Karl, e termino a intervenção secando-o muito bem com um secador de cabelo. Coloquei-o sobre a mesa da sala debaixo da luz do candeeiro para um toque final. Lembro-me que na altura me pareceu de peluche. Estava, digamos, como novo.
Lá fora continuava uma noite de verdadeira intempérie. A segunda parte do plano estava para ter início. Vesti uma gabardine, calcei umas galochas, meti o corpo do coelho num saco de plástico, saí para o jardim e certificando-me de não ser visto, saltei a cerca e entrei no jardim dos vizinhos. Passei em frente da porta da garagem, e virando à direita, descobri por fim a pequena coelheira de madeira branca em que sabia que vivia o coelho. Por sorte, não vi quaisquer aparentes sinais de luta. Karl devia ter apanhado a porta aberta e ter-se-á limitado a abocanhar a assustada criatura. Abri a porta sem fazer barulho e cuidadosamente introduzi o coelho lá dentro, cobrindo-o delicadamente com algumas das suas palhinhas e metendo-lhe uma folhinha de alface na boca para dar algum dramatismo à cena. Dir-se-ia que tinha morrido durante o sono, pensei na altura.
Sempre debaixo de chuva, regressei a casa e ao conforto de ter escovado dos meus ombros a responsabilidade de tão terrível episódio. Nessa noite, lembro-me que dormi como um santo.
No dia seguinte, domingo de manhã, acordei com o som da campainha. Levantei-me de sobressalto e desci as escadas, sonolento. Era a minha vizinha, Ilse, a mãe das criancinhas. Desesperada. — Não podes imaginar o que aconteceu — disse-me, no seu inglês perfeito, de Holandesa. — Os miúdos encontraram o coelho deles, morto na coelheira do jardim. Estão confusos, não percebem o que está a acontecer. Terei de os sentar e ter uma conversa sobre algo que nem eu própria sei como lhes explicar. — Ilse – disse-lhe estremunhado mas já vigilante – este é um daqueles momentos de que deves tirar partido. Este é o momento de explicares aos teus filhos o que é a vida e a morte, que Deus dá e que Deus tira (tinha que inventar qualquer coisa), que a vida continua e que o coelho teve uma vida longa e feliz. E que tudo valeu a pena -.
Mas Ilse olhou-me impaciente e naquele momento percebi que a coisa não ia ser tão simples como tinha imaginado. — Tu tens razão, meu caro Vasco — disse — Mas então ajuda-me lá a explicar aos meus filhos como é que o coelho, que morreu ontem de manhã, que pela primeira vez nos uniu como uma verdadeira família em torno aos valores da vida e da morte de que tão eloquentemente falas e que por acaso enterramos com grande cerimonial no jardim ontem à tarde, apareceu de novo na coelheira, a cheirar a maçãs silvestres com uma folhinha de alface na boca? Eu digo-te, os miúdos estão a precisar não de uma mãe mas sim de um psicólogo!».
Ao meu lado, Karl, que me tinha seguido curioso até à porta de entrada largou um profundo “Woof” de consentimento. Olhei-o com vontade de o envenenar com arsénico mas achei que eram animais mortos a mais, para um só fim-de-semana. Convidei a pobre da Ilse a entrar e beber um café. Percebi que ia ser uma manhã, no mínimo, interessante. *
* Disclamer: No animals were harmed in the making of this tale.


















Caro Vasco, devias treinar com peixes…percebem logo que estão mortos quando olham para o aquário e assim é mais fácil. Claro que o João Pedro durante dois ou três dias ainda lhe vêem umas lágrimas aos olhas por causa dos que ficam a boiar sem destino, mas depois de ter enterrado o primeiro, ou outros atira-os directamente para, enfim, tu sabes.
um abraço
PS — a história que contas, além de hilariante, só podia ter acontecido contigo!
Vasco, que mortuário nos saiu! A história é hilariante, de facto. Fiquei, no entanto, com uma dúvida: porque é que o seu amigo Rutger tinha Karl, o cão do Pedro Norton?