Deixámos de viajar…

columbus sighting landHá quem pretenda que conhecer é ver a realidade tal como ela é. Sem preconceitos, provindos da ignorância religiosa ou ideológica. Apesar de ser uma simplificação grosseira (que pressupõe que a realidade é de tal maneira que aí se encontra, diante de nós, para ser apropriada e conhecida), esta é hoje uma opinião amplamente difundida ao nível do senso comum. Sendo ela mesma religiosa e ideológica, proclama o fim das religiões e das ideologias, totalitariamente escondida na construção de uma ilusão democrática. A actual crise é o anúncio do fim desta ilusão, o prenúncio de uma escolha que, no século XXI, terá de ser feita: totalitarismo ou democracia.
Deixando agora de lado esta conversa, que seria — e será — longa, o ponto é este: conhecer não é ver a realidade tal como ela é, na medida em que esse conhecer e esse ver são já, também eles, reais. Conhecer, de um ponto de vista filosófico (falo aqui de sabedoria, e não de ciência), é ver a realidade no seu vir-a-ser, na inocente brutalidade do seu brotar. Implica, por isso, da nossa parte, um constante nascer e morrer, um acordar e adormecer, um ir e vir, um caminhar, no qual nos refazemos a nós mesmos e ao caminho.
Tudo isto vem a propósito de uma breve descrição da vida dos marinheiros a bordo dos navios que descobriram o novo mundo, os quais, construídos a partir do imaginário mediterrânico do mundo greco-romano, não se adequavam à realidade das travessias atlânticas. Diz assim: «Todos os navios de madeira, em certas condições, metem água; e os de Colombo confirmavam copiosamente a regra — de modo que uma bomba fixa, de madeira, accionada pelos grumetes do quarto da manhã, devia teoricamente obstar a esse dano. A bomba, porém, não chegava nunca a enxugar completamente o navio, e com os balanços do barco a água podre do porão espadanava entre os fardos e os tonéis. Como o homens se aliviavam da tripa no porão, o excremento acumulado tornava-se, com o fedor nauseabundo, alfobre de carochas, piolhos e percevejos, companheiros inseparáveis da marinhagem de então.» (Samuel Eliot Morison, Cristóvão Colombo, Almirante do Mar-Oceano, Ed. Notícias, 1993, pág. 55).
Se compararmos esta descrição das primeiras viagens para o novo mundo com a sua representação na litografia que acima se mostra, veremos imediatamente que elas são evidentemente desconformes. E, no entanto, são ambas verdadeiras. Não de uma verdade relativa, potenciadora de infinitos mundos paralelos, mas de uma verdade em construção, em mostração, a fazer. Para isso, porém, é preciso partir… e, ao voltar, partilhar. Em comunidade, que espiritualmente se alarga, interessada em expôr-se e em dar — não em impôr-se e em conquistar. É disto que andamos esquecidos em apática e acrítica existência. Deixámos de viajar: nós, que vivemos no apologético mundo da experiência!

Comentários a “Deixámos de viajar…” (8)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo, vou fazer-te sugestão absolutamente ultrajante. Acabei de publicar na Guerra e Paz (o que eu me tenho contido para não vir aqui promover os livros da dita), uma antologia com os textos de Pessoa e os seus heterónimos viajantes, intitulado: LIVRO DE VIAGEM. A minha teoria é que Pessoa ele mesmo e os seus heterónimos constítuiam uma “associação secreta de viajantes” que tinha um lema: “Para que Precisa de Viajar com o Corpo quem tão bem Viaja com a Alma”. O lema é, evidentemente, pessoano. Ou, como também ele mesmo disse, afinal a melhor maneira de viajar é sentir!

  2. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Meu caro Manuel, agradeço a sugestão. Ultrajante ainda melhor. Para não estarmos totalmente de acordo (porque me parece que estamos) acrescentaria apenas que viajamos sempre com o corpo e com a alma. Ou então não viajamos. Mesmo que vá ora um ora outro à frente, como é próprio da nossa desconcertada condição (que belo é vê-lo nas crianças!), o segundo acaba sempre por ir atrás. Hoje, porém, não se viaja, apesar de cada vez mais se deslocarem freneticamente os corpos. Não é mais que movimento mecânico, porém, que não provém nem se destina à liberdade. Daí que dele não resulte verdadeira transformação, da qual não se acrescenta a alma ao mundo nem o mundo à alma. Viajar é sentir. Concordo. Mas sentir enraizado, que cresce e se propõe à razão. Por isso o verbo sentire, em latim, tanto quer dizer perceber pelos sentidos como perceber pela inteligência. Para se sentir, porém, é preciso, primeiro, experimentar, sair de si, vir para fora, pôr-se à prova, arriscar (cfr. também o latim ex + perior, de onde provém também periculum). Mas quem arrisca hoje a sua segurança? Quem vai atrás do que pressentiu? Não é para aí que nos empurra a crise? E não essa mesma decisão (krisis) que ninguém parece querer tomar? (estou neura, já tinha avisado)

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Boa neura, Gonçalo. Neura de Álvaro de Campos e Pessoa ele mesmo. Experimenta Caeiro e Reis: num só se sente pelos sentidos, no outro pela inteligência — sem a neura.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Bom Manuel, pastor de ovelhas, que as desgarra se estão juntas e as reúne, se desgarradas. Não sei o que escondes nesse mostrares-te todo como se não fosses nada. Mas nesse tudo e nesse nada perpassa um Manuel em que acredito: lobo de ovelhas reunidas, pastor de ovelhas desgarradas. Fui ler Caeiro, bom pastor, e ele sabia o que eu dizia:

    «O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E, por isso, porque pertence a menos gente,
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

    Pelo Tejo vai-se para o mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
    Quem está ao pé dele só está ao pé dele.»

  5. Turmalina diz:

    Nos tempos idos, dentro daqueles porões nauseantes dos navios iam homens cheios de esperança ou talvez cansados do convívio em sociedade, em busca de aventuras pessoais ou até mesmo coletivas. O mundo moderno nos tornou tão condicionados que muitos de nós precisamos por vezes de uma aventura assim. Por mais incômodo que seja dividir um assento num avião, espremido entre uma fileira e outra e ainda desconfiando de um sujeito estranho na fileira da frente, seguimos em frente.Mesmo com o desconforto de sermos questionados e revistados, da cabeça aos pés, nas alfândegas espalhadas pelo planeta, seguimos adiante. Pelo simples prazer de ver, de conhecer e de sentir. Não é preciso ir longe para experimentar-se em viagem.Pode ser num passeio à pé, numa volta maior ou menor de carro ou ônibus. Conhecer pressupõe desconfiar da realidade como ela se apresenta. E existindo a vontade não há limites e os perigos são relativos.Perigo maior é ficarmos em casa, principalmente em frente à uma televisão, vendo passar os dias. E são muitas as pessoas que assim vivem…ou pelo menos pensam que vivem…

  6. António Eça diz:

    Pergunta desassombrada e quase despropositada: já alguém aqui tomou LSD?. É que para viajar sem sair do sítio não há melhor (segundo ouvi dizer…)

  7. Turmalina diz:

    …kkkkk…eu tenho um problema sério de viajar mesmo sem drogas e sem sair do lugar…

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