A propósito das primas tardias de MSF e da sua (dele, nossa, de Manet) “Olympia”, os teimados sapatos por tombar, faíscando, nos dorsos masculinos:
1. Como jaa bem comenta, será que o escândalo de “Olympia”, não provém, igualmente — sobretudo — da tenra idade da retratada, na púbis púbere por revelar, os seios de traço incompleto, de prados a percorrer, o olhar ainda preso aos últimos fios dos cabelos das bonecas, apesar de já tudo ter visto pelos mistérios vorazes da noite?

2. Porque será que as fitas de veludo escuro se mantêm como prendas simbólicas do aprisionamento juvenil, das infâncias perdidas nos corredores côncavos dos bordéis, ainda e sempre, cem anos depois?

Brooke Shields, “Pretty Baby”, Louis Malle

Elisabeth Shue, “Leaving Las Vegas”, Mike Figgis
3. Sendo poço sem fundo a obsessão dos pintores de todas as épocas pelas Damas Reclinadas, ora omissas, ora expectantes, numa filiação que ultrapassa Ticiano…

“La Maja Desnuda”, Francisco Goya, circa 1797

“Femme Nue Couchée”, Gustave Courbet, 1862

“Femme Nue au Collier”, Pablo Picasso, 1968
…que exacto desejo se encontra no fundo do poço? Contemplação, penetração, dúvida ou posse?

Sue Lyon, dejeuner sur l’ herbe

Brooke Shields, a flowered prison in New Orleans
4. E porque são os rostos dúbios da inocência enquadrados por grandes chapéus de palha, tão doces e tão adultos, como se a maioridade fosse dissimulada pela coroa que se transporta? Serão os homens mortalmente inseguros, os que transportam Lolitas nos seus caminhos secretos, tão inseguros assim?
5. Será que Rafael e Caravaggio pintavam e pintaram os seus “Majos Desnudos”? E em que caves do pensamento os esconderam?

















Também as pérolas que em Veronese são rainhas..
Este blog cada vez é mais interessante.
Eu diria imprescindível. Um post em que a sedução, a beleza, o erotismo e o “lolitismo” se misturam num cocktail explosivo de prazer.
Boas perguntas. Não o devia fazer porque as perguntas são sempre mais interessantes do que as respostas mas, ainda assim, por absoluta falta de senso e uma irritante tendência para pensar nas coisas de forma literal, atrevo-me a sugerir algumas respostas.
2: A fita funciona como uma coleira – permite uma ideia de subjugação da mulher, da possibilidade de a obrigar a todos os actos que o homem deseje – mas também (veja-se o lacinho na Olympia) como a fita de um presente, colocado à disposição do homem (e, mais genericamente, do espectador).
3: Todos os anteriores.
4: Interessante. Não tenho resposta para além de que sim, os homens são inseguros.
5: Não necessariamente. A mulher sempre foi mais fascinante: o homem pôde subjugá-la mas nunca dispensá-la ou compreendê-la totalmente.
E concordo com os comentários anteriores. Vocês são mais interessantes do que muita gente viva.
Maria, José Manuel e jaa, obrigado pela atenção que me dispensaram. Espero visitar-vos e ser visitado com irresponsável frequência.