A Noiva do Vento

A-Noiva-do-Vento-Oskar-Kokoschka[1]


Que a euforia e a ansiedade da paixão, a harmonia e a serenidade do amor, ou a angústia e o vazio da perda, são fontes inesgotáveis de inspiração para a criação artística, todos o reconhecem, tomando como testemunho tantos e tantos exemplos que a Arte nos foi deixando ao longo dos tempos. Mas dificilmente se encontrará outra mulher com mais vocação para musa em domínios tão diversos como a música, a pintura, a arquitectura e a literatura. Ela, Alma Mahler, começou com Gustav Klimt (que lhe terá roubado o primeiro beijo) e depois não mais parou de consumir a vida de grandes vultos culturais da primeira metade do século XX: contraiu matrimónio com Gustav Mahler mas, até à morte deste em 1911, não se cansou de o trair com Walter Gropius e Oscar Kokoschka; e, depois, casou ainda, sucessivamente, com o mesmo Gropius e com o poeta Franz Werfel.

O caso de Kokoschka foi, talvez, o mais perturbador de todos. Para atenuar as dores da perda da sua amante e amada, mandou fabricar uma boneca que reproduzia os mais ínfimos detalhes da anatomia de Alma. E, assim, durante um certo período, até ao teatro a boneca passou a acompanhá-lo e, quando por alguma razão tal não era possível, confiava-a aos cuidados de uma empregada que contratou expressamente para o efeito.

Do relacionamento conturbado de Kokoschka com Alma – que a própria, nas suas memórias, definiu como “uma única e violenta batalha amorosa” – ficou para a posteridade, entre outras, esta obra-prima, A Noiva do Vento (que, na expressão alemã original, significa também “remoinho de vento” ou “furacão”), pintada em 1914. Nela, a angústia e descontrolo de Kokoschka são bem visíveis: no traço febril do pincel, no corpo quase transformado em esqueleto, no olhar resignado das órbitas cavadas, nas mãos encarquilhadas e tolhidas pelo medo de não já não saber ou conseguir agarrar aquele corpo amado, e no tal “remoinho” ou “furacão”a que a sua lucidez e equilíbrio sucumbem. Em contraste com a derrota que se anuncia na expressão do homem, a mulher, que não pode ser outra senão Alma, dorme, imperturbável, com a serenidade da “femme fatale” que acabou de fazer mais uma vítima, de subjugar mais um exemplar da espécie masculina. Há quem diga, mesmo, que este óleo e a “única e violenta batalha amorosa” que ele retrata mais não é do que o símbolo da guerra dos sexos, que Kokoschka dizia estar predeterminada pelo destino.

Comentários a “A Noiva do Vento” (5)

  1. Baoudoin diz:

    Eis algo para mim, até agora, absolutamente desconhecido e relacionado com o meu distinto Mahler. Contemplará isso uma parte da explicação para o subjacente pessimismo da sua música?

    Afinal, Alma era cá de uma alma… Também o Gustav passava o tempo todo nos ensaios… E quem lhe mandou levar o Klimt para aprimorar os cenários do Don Giovanni, Tristão e outras Wagnerianas óperas, em Viena?

    Fiquei muito curioso acerca desta personagem. Acho que merecia um post com a, imagino que longa, lista. E os anos Nova-Yorkinos?

  2. BELLATRIX diz:

    Fantásticos, Diogo, o Kokoschka e este seu texto.

    Li há anos uma biografia de Alma Mahler, cujo título, “Retrato de uma Sedutora”, vim a descobrir ser uma tradução pouco feliz do original francês “L’art d’être aimée”.

    Fascinou-me esta mulher tão pouco convencional. E impressionaram-me dois episódios que marcaram fortemente a sua vida. A renúncia que Mahler impôs às suas aspirações de talentosa compositora, decretando, marital, que “a tua única profissão é fazer-me feliz”. E a morte prematura de três dos seus quatro filhos, como uma maldição.

    Alma viveu muito. Muito mais do que lhe estaria destinado e muito para lá do que lhe seria permitido. A sua história é a dos homens que a amaram e aos quais inspirou. Mas ser-se musa, quando se tem o talento e a ambição do criador, é pouco. Por isso viveu inquieta, atraída pelo brilho desses homens e atormentada pela constatação de que jamais este lhe traria a plenitude que, sentia, lhe fora negada. E por isso, dizem, os largava, um a um, e os trocava por outro, sempre genial, talentoso, admirável.

    Neste round da eterna guerra dos sexos, Alma fez indiscutivelmente grandes estragos. Mas foi também, e antes de mais, vítima.

  3. Orcama diz:

    Caro Diogo Leote,

    O belo post aguçou-me a curiosidade, ainda aumentada pelo comentário de Bellatrix.

    Aqui deixo dois links que ajudam a complementar o seu texto:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Alma_Mahler-Werfel

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Alma_Mahler-Werfel

    De realçar que ela passou por Lisboa na sua fuga para a América, ao que parece com vistos de Aristides de Souza Mendes.

  4. Diogo Leote diz:

    Bellatrix, Baoudoin e Orcama: agradeço-vos, e os nossos/vossos leitores ainda mais, os preciosos “inputs” que deixaram sobre a fascinante personagem que foi Alma Mahler. Voltaremos ao tema certamente, porque muito ficou ainda por dizer.

  5. João M. diz:

    Na minha opinião este Oskar Kokoschka é um indivíduo totalmente maluco. Não sabe o que pintar, e fica um tanto de pessoas sem saber o que fazer, tentando dar uma interpretação para suas artes de tipo primitivo!

Comentar