Arquivo | Dezembro de 2009


Para Acabar com 2009: +1
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Pierre Huyghe, Streamside Day, 2003

Não me tenho dado mal com o método de medir os anos pelos livros que leio.
2009 foi de “The Rest Is Noise” e terminei-o com a sensação de ter descoberto um continente.
extraordinário: o título português é mais eufónico que o original: “O Resto é Ruído”
É uma simples história da música “clássica” do séc. XX, ou seja, da música que é conhecida como contemporânea. Alex Ross faz bom uso de todas as virtudes dos típicos livros de divulgação anglo-saxónicos: com parcimónia de adjectivos, descreve acontecimentos, correntes, obras e compositores; inteligentíssimo no modo como trata com clareza questões complexas, não propõe teses peripatéticas pour épater, é sereno na exposição dos conflitos e não atira com vaticínios negros ou luminosos sobre o futuro do género. A prosa é ágil, calorosa e informada. Por vezes deixa-se levar pelo entusiasmo da beleza, noutras não resiste a um reparo de humor.
É tudo muito interessante até ao capítulo 13; as duas partes finais são fulminantes.
Na minha ignorância, costumava reagir de um modo behaviourista à expressão “música contemporânea” imaginando logo penhascos harmónicos, a paixão pela dissonância, a melodia escorraçada, só com licença para meia dúzia de compassos, se tanto. Este apocalipse tonal, determinado nos encontros de Darmstad em 1949, teve quatro cavaleiros: Boulez, Stockhausen, Berio e Xenakis, progénitos de Schonberg, abençoados pelo titânico Adorno e com a obra prospectivamente romanceada no “Dr. Fausto” de Thomas Mann.
Pérfido Adorno
Pobre de mim que achava aquela música infrequentável, embora me calasse por vergonha, não fossem os senhores da Gulbenkian juntarem o desdém à sobranceria com que já me toleram em seus claustros.
Ora o que “The Rest Is Noise” revela é uma evidência que já me deveria ter assaltado, tivesse eu os ouvidos e o entendimento abertos: este modernidade é velha de meio século e entretanto muita outra água correu. E de repente eis que Alex Ross me apresenta uma miríade de nomes desconhecidos cujos trabalhos fui picando e downlowdando do iTunes, qual deles o mais cativante, o mais belo o mais intenso ou sublime. E, oh espanto!, o mais emocional.
Thomas Adès, Arvo Pärt, David Lang, Tan Dun, John Adams, Osvaldo Golijov, Nico Muhly, e a lista seguiria por aí fora, nada os une a não ser o frágil fil rouge de terem superado ou ignorado a “impossibilidade da música” que tanto atormentou (atormenta?) os descontrutores de Darmstad e seus pupilos.
E tudo isto me tinha passado ao lado, até 2009. Obrigado, Alex Ross.

Nico Muhly, Clear Music

David Lang, How to Pray

Osvaldo Golijov, Oceana (frag.)



Esta manhã sonhei que morria

Façam o favor de descontar o sempre ingrato papel de entrevistador reverente e as correspondentes intervenções e ouçam só esta declaração de Jorge Luis Borges que deveria estar inscrita no frontão deste nosso cemitério.


Adeus década

O Pedro N queixou-se aqui, patrioticamente e com razão, da década portuguesa. Perdida, estragada, sem ilusões, nem ideais. Só nós, pergunto? E o resto do mundo que é quase do tamanho de Portugal? Duas bolhas, a da internet em 2001, a do imobiliário agora, a quebra de confiança no sistema financeiro (banca, bolsas, verdade dos princípios contabilísticos empresariais), aumento do desemprego, retórica política como solução (que nem os ventos que o eólico Obama sopra podem disfarçar). Krugman chama-lhe, à década, a do Grande Zero. Resta-nos a fantasia de cantar baixinho e em coro.  Mumbling? Ou de assobiarmos para o céu. Melhor, cantarmos a plenos pulmões e desafinarmos


Para acabar com 2009: 0 (zero)

O acontecimento mais notável de 2009, no que respeita ao jazz, foi a celebração do 50º aniversário do melhor ano de sempre: 1959.
Tudo o que jazz passou a ser até hoje, dobrou-se em 1959. É raro haver uma data assim tão decisiva, mas peço encarecidamente que alguém encontre outro ano em que foram publicadas cinco obras tão fulminantes como as que vos exponho.

miles-davis-kind-of-blue Miles Davis, “Kind of Blue”
Para muitos é O disco de jazz. Para outros é O disco de Miles Davis. Exagerar não é mentir, ou seja, estão ambos perto da verdade e nunca deixam de ser deliciosas as discussões amantes acerca dos méritos comparativos das várias gravações de Miles. Sobretudo a polémica entre os apaniguados de “Birth of the Cool” (1949) e os apoiantes deste “Kind of Blue”, como o momento decisivo que transportou o jazz dos frenesins do be bop dos anos 40 e 50, para horizontes mais cultos, mais magoados e mais maduros. Se Miles Davis já era grande, em 1959 deixou de haver sombra que lhe batesse.


coltraneJohn Coltrane, “Giant Steps”
Cada tiro um melro; quer dizer: cada tema um standard (há quanto tempo não aparece um clássico instantâneo no jazz?). Com este disco Coltrane deu, se não o primeiro, decerto o mais seguro passo para o seu modelo de improvisação, quer dizer, o modelo para toda a improvisação do jazz, daí em diante. Aqui ficou arquitectada a famosa progressão harmónica que o sentou na história da música. Efeito secundário: “Giant Steps” foi um involuntário piparote nas imposturas teóricas de Adorno. Há quem prefira outras obras: “Blue Train” (1957), “Soultrane” (1958), “My Favorite Things (1960), “Olé” (1961), “A Love Supreme” (1964), ou o derradeiro “Expression” (1967). Mas porquê escolher?


mingus-ah-umCharles Mingus – “Mingus Ah Um”
Por alguma razão Charles Mingus é o menos popular dos feiticeiros do jazz. Talvez por não ser de bom trato e por ter epitomizado o jazzman politizado e zangado. Mas se o jazz ficasse reduzido a cinco dedos Mingus teria que ser um deles. Do Soul a Lester Young, passando pelo boogie, por Duke Elligton (levantem-se, por favor!), por Jelly Roll Morton e por Charlie Parker, em “Mingus Ah Um” o contrabaixista homenageia a história do jazz até ao seu momento. A declaração é simples: o novo nascerá do vetusto; é na memória que podemos encontrar as linhas de fuga para o futuro. E assim foi.


brubeckDave Brubeck Quartet , “Time Out”
Um pianista e um saxofonista com duas características de espantar: 1) eram da Califórnia, um lugar tão perto do jazz como a lua; 2) eram – pasme-se – brancos, caras-pálidas, pó-de-arroz. Os sobrolhos franziram-se ainda mais quando do disco se retirou um single que vendeu 1 milhão de exemplares. E assim nasceram duas lendas: 1) o tema “Take Five” que mesmo sem usar cremes ainda não tem uma ruga (mas se não gostar dele ainda lá ficou “Blue Rondo a la Turk”) ; 2) o “cool jazz” da Costa Oeste, um estilo que ganharia alicerces com Gerry Mulligan.



the-shape-of-jazz-to-comeOrnette Coleman – “The Shape of Jazz to Come”
De modo que foi assim que nasceu o que viria a chamar-se “free jazz”. Pode ter acabado (muito) mal, mas começou maravilhosamente bem. Sob o título profético de “The Shape of Jazz to Come”; Ornette Coleman pôr de lado o saxofone de plástico cujo som era tão peculiar e propôs o conceito de “harmolody”, que tinha como finalidade política “remover os sistema de castas do som” e como objectivo musical fundir a melodia com a harmonia através da interacção entre os músicos. Os cúmplices (é mesmo esta a palavra) de Ornette Coleman nesta gravação foram: Don Cherry (trompete), Charlie Haden (contrabaixo) e Billy Higgins (bateria) – à época uns putos, depois uns monstros sagrados. Não, não me esqueci do piano, eles é que passaram muito bem sem ele. No ano seguinte a revolução consolidou-se com “This Is Our Music” e com “The World of Cecil Taylor”. Gente que não era do jazz mas da música maior, como Leonard Bernstein ou Virgil Thomson, deu-se ao trabalho de vir a terreiro despoletar as críticas que desconsideravam a música de Ornette, declarando-o um génio.

Para acabar com 2009: –1

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2009 foi tão pródigo como qualquer outro ano em patifarias políticas e aposto que daqui a 6 meses já ninguém se recordará dos acontecimentos que abriram os noticiários, dias, semanas, seguidas.
Mas houve um lance que me parece decisivo, embora tenha sido qualificado como um fait divers de grau 7 na escala de Mercalli, ou seja, um episódio com alguma importância, mas incapaz de abater estruturas. Foi o arrebatado par de cornos que o Ministro Manuel Pinho apontou na sua cabeça na direcção do Deputado Bernardino Soares.
Uma afronta! Uma deseducação! Um alarme para a democracia! Tal foi como jorraram comentadores, especialistas e periodistas, gente paga para encher o ar de estrondo. Mas as vestes de vestal, ninguém as vestiu melhor que os deputados bloquistas, delatando com minúcia o episódio a todas as autoridades competentes, não fossem elas subestimar a altíssima gravidade parlamentar do trejeito de Pinho.
No fim, rolou a cabeça do Ministro, ficou incólume a do Deputado.
Foi minúsculo o acontecimento, mas bem pode ter sido o tal suave bater de asas da borboleta que adiante resultará numa calamidade.
É notório que o sr. Manuel Pinho tinha uma vida no mínimo desafogada antes de se dedicar à actividade política, pode ter sido a vaidade ou qualquer outra razão menos elevada, mas também – porque não, oh cínicos? – pode ter sido o gosto de Fazer, para evitar aludir ao já tão depauperado “sentido cívico”, ou a vontade de trepidação, aquilo que levou o sr. Manuel Pinho a resolver-se por uma pasta ministerial que toda a gente sabe ser mais espinhosa que contemplativa e onde os dissabores sobrelevam largamente as alegrias.
Para as contrariedades e lentidões ia ele preparado, suponho, até mesmo para os incómodos da publicidade e para a rispidez dos adversários. Mas o que não aguentou foram as chufas acintosas e contumazes daquele Bernardino da vida.
Ora, qualquer pessoa de bem, ao ver o estalo na paciência do sr. Manuel Pinho imagina-se a si próprio naquelas figuras, caso lhe passasse pela cabeça a tentação pueril de calçar os sapatos de Ministro.
E é nisto que o triste episódio chifrudo se faz crucial. A partir daquele instante horrível, os comprovadamente competentes, rigorosos, honestos, os que poderiam acrescentar em vez de parasitar, fugirão da política a sete pés, tendo visto o que ela lhes poderá fazer ao ânimo e ao ego.
Haverá pior sensação que a de pressentir a política, daqui para a frente, entregue aos Bernardinos?

Nelson Rodrigues

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O Anjo Pornográfico

   “Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.”

Estava no meio de um almoço e entre generalizações disse que gostava de ser um escritor. “Batata!” reagiram os amigos com comiseração. Não é um escritor quem quer. Só é um escritor quem a biografia ajuda.

Dou o exemplo do pernambucano Nelson Rodrigues. Biograficamente ele vai ser sempre carioca, prova escarrada de que só depois de vivermos muito é que devíamos decidir onde nascer. Para o que conta, para ser um escritor, Nelson nasceu no Rio, viveu carioca e carioca morreu.

É só o começo. Um escritor inventa. Nelson inventou o moderno teatro brasileiro ao escrever Vestido de Noiva e ainda teve tempo para inventar, com seu irmão, jornalista desportivo, o derby do Rio, o Fla-Flu que ainda hoje, da campa onde se enerva, ele deve ver com muito distorcida paixão pó de arroz, já que, bem entendido, “a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos”.

Mas não é isto o que quero dizer. A biografia tem de dar certo muito cedo. Nelson tinha catorze irmãos. Esta sim, é já uma asserção bíblica, um arranque literário. No Rio foram morar na Rua Alegre, facto biográfico de indisfarçável volúpia. Nelson era menino, poucos anos. A vizinha do lado, dona Caridade, entrou sem bons-dias pela casa de Nelsinho e declarou à mãe de catorze descendentes: “Todos os seus filhos podem frequentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson.” O que Dona Caridade disse a seguir é dito por quem sabe que está já a subsidiar uma vocação literária: vira Nelson aos beijos em cima dos três aninhos de sua filha Odélia. Não em pé ou de lado; em cima, sublinhou, e em movimento. Qualquer um dirá: sem nunca se ter posto em cima, e só duas letras à frente no alfabeto, Fernando Pessoa é quem é.

Prenúncio da tragédia carioca de que Nelson faria a sua dramaturgia foi a redacção com que assombrou a professora e uma escola inteira. O menino escreveu uma história de adultério. Contou como um marido, com pressa de chamar “meu anjo” à esposa amada, a surpreende nua, estendida de oferecida na cama, enquanto um vulto, insolente mas só um vulto, saltava virilmente pela janela para a madrugada indiferente e cálida. Sem perder um milímetro de tanto amor, faca cega na mão, o marido mata a mulher e tomba ajoelhado aos pés da cama, a pedir-lhe “perdoa-me por me traíres”. Estava em jogo uma biografia: a escola não deixou que ninguém lesse mas concedeu-lhe prémio prevenindo glória futura. 

Aos 13 anos, Nelson começou a escrever reportagens policiais no jornal de que seu pai era director. Num dia de Natal, final dos anos 20 do século que passou, com falta de assunto para primeira página, o pai e outros três irmãos mais velhos, todos jornalistas, decidiram que a matéria de abertura seria o desquite de um casal de pública celebridade. No dia seguinte, a dama visada avançou com toda a sua ofensa pela redacção. Não encontrando o patriarca, viu Roberto, o irmão mais velho, e puxou o gatilho do revólver novinho da compra dessa manhã. Não sei se terá dito: “Tome o seu presente de Natal!” À frente dos olhos de Nelson, a tragédia carioca consumou-se: o irmão morreu e o pai agonizaria 67 dias depois, consumido pela dor e trombose cerebral. Nesse dia, Nelson só queria uma coisa: morrer. Ferida biográfica, nunca mais sarou.

Mesmo sabendo que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, Nelson Rodrigues amou. No começo, com a maturidade dos 14 anos e numa lógica inatacável, apaixonava-se por actrizes e dormia com prostitutas. Amores de beijos e soluços. A bailarina argentina de olhos azuis, a estudante de Copacabana, a professora de Ipanema. Dividiu com o irmão Joffre a paixão por outra bailarina, Eros Volúsia – vejam: com factos biográficos destes é fácil ser-se escritor.

Já a Rua Alegre lhe tinha dado ajuda em matéria sentimental. Nelson sempre lembrava o sujeito de bigodinho (pode ser que não tivesse) que a mulher xingava à vista do bairro todo. Uma humilhação multiplicada, de anos. Um dia o sujeitinho débil desamarrou a culpa e, também na rua, bem no meio dela, bateu. De cinto, até. A vizinhança correu para o espectáculo: “bate mais, bate mais” pediam as mulheres. E ele bateu com a euforia de um anjo, até se cansar. Não foi só o mulherio que aplaudiu. Ela, sofrida e orgulhosa, atirou-se-lhe aos pés e desatou a beijá-lo. “Toda mulher gosta de apanhar” filosofou o adolescente Nelson.

Sexo e morte, sublime e sórdido – que outra coisa é que pode ser uma biografia? Casou. Um dia, regressando ao jornal o Globo, depois de cura no sanatório, disseram-lhe: “Tem uma mulher na redacção, 19 anos, moradora do Estácio e dura na queda”. “Pode deixar, está no papo” disse logo o desleixado e indolente Nelson. Era Elza, meia-siciliana, com uma família que a Nelson nem vê-lo, numa rejeição que põe logo uma mancha de honra numa biografia. Casaram-se clandestinos, no horário de trabalho, comemorando a café com leite e torradas, e jurando que noite de núpcias só com o casamento religioso. Cumpriram. Descasariam muito mais tarde. Depois de outros dois casamentos dele, voltaram a casar. Quando Nelson morreu, Elza, ainda em vida, colocou como lhe prometera, o nome na lápide ao lado do nome dele, logo debaixo da inscrição: “Unidos para além da vida e da morte. É só.” Porque, como toda a sua obra reclama, amor que acaba não era amor.

Podia continuar: a biografia de Nelson Rodrigues é inultrapassável de copiosa. Angustia-me uma pequena dúvida:

foi mesmo a biografia que o obrigou a ser o escritor que é, criando um imaginário de sexo punido e punitivo, traição, incesto, crueza, sentimentos torturados,

ou é por ser o escritor que é que Nelson Rodrigues teve esta biografia excessiva, auto-paródica, isenta de tédio e tão terrivelmente cheia de quotidiano?!

Manuel S. Fonseca

O Futuro #1

Talvez o que nos falte, a Oriente e Ocidente, de Norte para Sul, seja uma nova Ética Humanista.

As grandes religiões dos Livros parecem ter falhado, e o caminho talvez esteja numa renovada ética universal. É o que concluem, em resumo, tanto Christopher Hitchens em “Deus Não é Grande” como Sam Harris em “O Fim da Fé”.

Ambos os autores subestimam, porém (presumo que deliberadamente), o facto de Judaísmo, Cristianismo e Islamismo pressuporem uma dimensão espiritual que é anterior e exterior a essas doutrinas, e que é tão importante para o Homem (e tão ancestral nele) como as ligações neuronais que possibilitaram a consciência.

Ou, de uma forma muito simplificada: o Homem é religioso porque é espiritual, não é espiritual porque é religioso (de Dawkins, a este respeito, muito específico,  não vale a pena falar: a inteligência e agilidade da argumentação acabam sempre por embater na furiosa virulência do ateísmo do autor).

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Uma nova Ética Humanista Universal implica, antes de mais, a resolução de inúmeros problemas, milenares e/ou contemporâneos.

Um dos menores não é, certamente, o eterno adiamento de uma Renascença islâmica, nas suas componentes filosófica, cultural e social, que dissolva as bases integristas do Estado e segregue as interpretações fundamentalistas do Islão.

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A Ocidente, deveria refundar-se o incentivo à responsabilidade cívica — que, no limite, adquire uma dimensão moral, no sentido mais amplo (e humanista…) -  quanto à utilização da tecnologia e à gestão dos bens materiais, enquanto se repensaria todo o — falido — sistema educacional do Oeste.

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Ignoro como isso se faz (se soubesse, além de rico, estaria num êxtase místico permanente).

Talvez se possa começar por seguir o conselho de um grande poeta sírio, Ali Ahmad Said Esber (celebrizado como Adónis), educado no Corão: ao logos deve acrescentar-se o mythos. Poesia, amor, amizade, relações pessoais.

Mas como é que se cria uma Ética Humanista Universal, com logos e mythos, apego ao concreto e aspiração cósmica, de base laica mas em equilíbrio espiritual, preparada para os filhos da Geração Playstation?

 

Como se faz do velho homem um Homem Novo?

 

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Feliz Ano Novo.

SSSSSSS BUM!


Por fim enterrada, neste extraordinário cemitério, sinto-me tão jubilosa que só me apetecem foguetes. Daqueles grandes e barulhentos. Morteiros, que do nascer ao pôr-do-sol estouram e ecoam por todo o vale onde fica a nossa casa, lá no meio do Minho. Por ser Natal, Ano Novo ou Páscoa. Para festejar nascimentos, baptizados, casamentos, procissões, romarias e golos. Ou simplesmente por alguém estar mortalmente satisfeito. Como eu, hoje. Por isso me lembrei de chamar aqui o Alírio. 

 O Alírio é o coveiro e também o fogueteiro lá da freguesia.  

Como coveiro, dizem-me, não é dos melhores. Quando lá estive na Páscoa, tinha acabado de ser destituído, “pelo povo”. Por alegada incompetência. Soube, entretanto, que foi readmitido. Fiquei contente, por ele e pela família. A vida não está fácil e trabalho é trabalho, mesmo que de caixão à cova.

Como fogueteiro, o Alírio é um artista – digo eu. Trata-se, em todo o caso, de uma opinião isolada. A minha mãe, tias e primos acham que um dia havemos de ir todos pelo ar (o meu pai e tios também, mas disfarçam, para não deslustrar os minhotos costados). Por culpa minha, acusam, pela quantidade desmedida de foguetes que ajusto com ele sempre que lá vou. Mas, sobretudo, por culpa do próprio Alírio e da sua técnica absolutamente única. Eu explico. Muito embora surja sempre munido da clássica mecha, a verdade é que nunca, em anos e anos de piromania (minha) e de pirotecnia (dele), o vi acender um rastilho que fosse com a dita. Prova-o a foto abaixo em que, orgulhoso, posa com a mecha, novinha e por estrear. Para o Alírio, bom, bom, é o cigarro… Tira-o da boca, acende o rastilho… E é aí que a coisa se torna realmente delirante… Porque, consumada a ignição do foguete e enquanto segura o dito com uma mão, o Alírio vai usando a outra para dar mais umas passas no cigarrito, acenar a conhecidos que passam ou estão por ali a ver e explicar às estupefactas crianças citadinas como é que aquilo vai subir e fazer bum! Aparentemente alheado do foguete que continua a empunhar — o qual silva, fumega e estremece todo, com o rastilho cada vez mais curto… — faz comentários para o lado e solta umas piadas, sempre afável e risonho. Há quem fuja portas-adentro, quem se vire de costas e/ou tape a cara, quem fique, simplesmente petrificado… Quando a tragédia, mais que iminente, se afigura certa, o Alírio, todo ele souplesse, lá solta o foguete, que sobe, veloz, e explode por cima de nós, num fabuloso estertor que, desde que me lembro, me delicia! A cena repete-se, tantas vezes quantos os foguetes contratados (nunca menos de uma dúzia). Quando tudo termina, o céu está branco de fumo e o ar impregnado daquele cheiro. Então, o estrondo dos foguetes dá lugar à algazarra — é a vez da minha enorme família explodir em gargalhadas e efusões de alegria, suspeito que ante a constatação de estarem todos, não obstante, vivos e inteiros. Não os percebo. Mas adiante.

 Queridos Gente Morta e caríssimos visitantes, desta vez encomendei 13. Um número tenebrosamente adequado. De morteiros, bem fortes. Os menos aficionados de vós, que se fechem nas campas ou se escondam atrás das lápides. Não digam depois que eu não avisei! Quanto aos outros, gozem bem, que não é todos os dias que há SSSSSSS BUM! no cemitério…

 Vamos a isto, Alírio, fogo neles!!!



Deixámos de viajar…

columbus sighting landHá quem pretenda que conhecer é ver a realidade tal como ela é. Sem preconceitos, provindos da ignorância religiosa ou ideológica. Apesar de ser uma simplificação grosseira (que pressupõe que a realidade é de tal maneira que aí se encontra, diante de nós, para ser apropriada e conhecida), esta é hoje uma opinião amplamente difundida ao nível do senso comum. Sendo ela mesma religiosa e ideológica, proclama o fim das religiões e das ideologias, totalitariamente escondida na construção de uma ilusão democrática. A actual crise é o anúncio do fim desta ilusão, o prenúncio de uma escolha que, no século XXI, terá de ser feita: totalitarismo ou democracia.
Deixando agora de lado esta conversa, que seria — e será — longa, o ponto é este: conhecer não é ver a realidade tal como ela é, na medida em que esse conhecer e esse ver são já, também eles, reais. Conhecer, de um ponto de vista filosófico (falo aqui de sabedoria, e não de ciência), é ver a realidade no seu vir-a-ser, na inocente brutalidade do seu brotar. Implica, por isso, da nossa parte, um constante nascer e morrer, um acordar e adormecer, um ir e vir, um caminhar, no qual nos refazemos a nós mesmos e ao caminho.
Tudo isto vem a propósito de uma breve descrição da vida dos marinheiros a bordo dos navios que descobriram o novo mundo, os quais, construídos a partir do imaginário mediterrânico do mundo greco-romano, não se adequavam à realidade das travessias atlânticas. Diz assim: «Todos os navios de madeira, em certas condições, metem água; e os de Colombo confirmavam copiosamente a regra — de modo que uma bomba fixa, de madeira, accionada pelos grumetes do quarto da manhã, devia teoricamente obstar a esse dano. A bomba, porém, não chegava nunca a enxugar completamente o navio, e com os balanços do barco a água podre do porão espadanava entre os fardos e os tonéis. Como o homens se aliviavam da tripa no porão, o excremento acumulado tornava-se, com o fedor nauseabundo, alfobre de carochas, piolhos e percevejos, companheiros inseparáveis da marinhagem de então.» (Samuel Eliot Morison, Cristóvão Colombo, Almirante do Mar-Oceano, Ed. Notícias, 1993, pág. 55).
Se compararmos esta descrição das primeiras viagens para o novo mundo com a sua representação na litografia que acima se mostra, veremos imediatamente que elas são evidentemente desconformes. E, no entanto, são ambas verdadeiras. Não de uma verdade relativa, potenciadora de infinitos mundos paralelos, mas de uma verdade em construção, em mostração, a fazer. Para isso, porém, é preciso partir… e, ao voltar, partilhar. Em comunidade, que espiritualmente se alarga, interessada em expôr-se e em dar — não em impôr-se e em conquistar. É disto que andamos esquecidos em apática e acrítica existência. Deixámos de viajar: nós, que vivemos no apologético mundo da experiência!

La tendre guerre

Se há a melhor canção de Jacques Brel…

Todos os anos, todos os dias, a toda a hora

Todos os anos. No mesmo dia, o primeiro. Na mesma cidade, Viena de Áustria. Na mesmo concerto, o de Ano Novo. Com a mesma orquestra, a Wiener Philharmoniker. Com as mesmas palmas. As mesmas mãos?
Poderá haver maior prazer do que o da repetição? Poderá haver maior prazer do que o de ser a ínfima parte de uma harmonia incorruptível e exuberante? Todos os anos, todos os dias, a toda a hora?

 

Uma Resposta, Uma Pergunta

Aos bem-aventurados MSF e Eugénia, uma resposta: doce engano.

Doce porque, sendo ambos almas açucaradas, parecem encontrar-me fascínio estético nas idades jovens, essas que crescem ao sol, ruborizadas, num esplendor viçoso que só pela aparência se mostrará fecundo.

Não há nada de erótico na água fresca da adolescência, só esboços vagos e indecisos de futuro. Não há nada de carnalmente apelativo na primeira juventude, só a tristeza de frequentes tempestades em copos de água benta, o género de trovões que se dissolvem aos primeiros raios da madrugada.

Dos 12 aos 17 anos, vivemos fechados numa abertura de íris infinita, logo difusa: nada sabemos, e como tudo julgamos saber, a frustração é o caminho de pedras que, em inconsciência, escolhemos, apesar do fogo de artíficio, vermelho-pânico, que soltamos em todas as direcções.

Hoje, prorrogam-se as mulheres-criança que, surgidas dos desertos do Velho Testamento, das promessas hindús, aquelas encerradas nas armaduras de casta, dos nubientes egípcios, das torres medievais, dos vértices do Barroco, são exaltadas como cumes prósperos do Desejo, pós-apocalípticas e sempre disponíveis para o entrelaçamento. É o mundo ninfático de Kate Moss, naqueles traços, ângulos e arcos em redor dos limites da pubescência

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Moss, or Olympia after the fact

E é um mundo belo, talvez, mas um mundo de olhares (e de mercados) em indisfarçável declínio.

Nastassja, por exemplo. Viveu muito tempo de promessas, interrogações, parêntesis, palavras esdrúxulas, morangos em lábios intocados, com os dedos grossos dos fazendeiros a tremer, endurecidos pelo tacto que desliza em fios de veludo escarlate ou negros como os tais poços sussurrados antes das primeiras cheias.

Mas Kinski, defunta a menina, só é inteira — logo, disponível para a incompletude — em “Maria’s Lovers”, de Konchalovsky (alguém que leu Tchekov e percebe a importância dos tempos e das estações) ou na maioridade que arranha os animais eriçados, (lobis)omens que dela tentam, por ela buscam e nela se consomem , em “Cat People” (outra vez), de Schrader, o Novo, calvinista obsessivo, preso a pecados mais antigos e impronunciáveis.

Já agora, à Eugénia, perdoe-me, uma pergunta, for purely epistemological purposes:

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Ou

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?

Porque é que as boas prosadoras tão raramente se pronunciam sobre a beleza dos homens, e sobre os critérios de luz, voz ou sombra que nessa beleza infundem?