Vestida, de Costas

Hopper_Edward_Night_Windows

Quando pintou “Night Windows”, em 1928, Hopper ainda não era “o” Edward Hopper. Estava casado com Jo Nivision — a sua Joy Division — há quatro anos, e ela era modelo, mealheiro e manager ( o primeiro quadro que ela vendeu dele foi apenas o segundo trabalho de Hopper vendido numa década). É improvável que Jo tenha sido a modelo para este “Night Shadows”: era pequena — embora Hopper a tenha pintado de pernas compridas e ossos longos em nus, e no “Jo Painting” de 1936 — enquanto a dama aqui sugerida não parece ser mignone; era morena, e a minha pífia misoginia sugere-me que a senhora em questão é loira; pelas fotos de época, não exuberava carnalidade, e esta é a mais concupiscente de todas as mulheres de (por) Hopper.

E, no entanto, este portentoso rabo, oferecendo-se-nos, não vem oferecer nada de maldoso. A proprietária está demasiado erguida para o “fellatio” (a não ser que, em pura indecência, imaginemos ser Natal, e o amante esteja no segundo degrau de uma escada em pleno acto de decoração da árvore).  Virada para a janela dos vizinhos da frente, na suave transparência encarnada — e o vento que agita a cortina sugere um futuro de vestidos erguidos pela brisa — esta girl next door (esta girl next life) mais parece estar a dar um beijo na avó que acabou de adormecer no maple gasto da sala.

Mas o que faz ela, afinal? Observada de um metro de superfície, de um comboio que passa em trecho urbano (alto, a altas horas),  sob a vista de um pássaro — ou de um homem em sonho alado? — a mulher de “Night Windows” é um hino voyeurista, e um mistério. Um dos maiores mistérios dos quadros de Edward Hopper.

Comentários a “Vestida, de Costas” (10)

  1. Pedro Norton diz:

    E se fosse Páscoa e o marido estivesse a cavalo no Coelho?

  2. adorei o seu texto sobre este quadro de Hopper :D

  3. Dulce Garcia diz:

    A mim parece-me que está a vasculhar a gaveta das meias e vai escolher umas de vidro, pretas, com costura.

  4. sem-se-ver diz:

    ‘fellatio’?

    :|

    o sr tem sempre assim tanta imaginaçao? dessa?

  5. Diogo Leote diz:

    O que um “portentoso rabo” faz à imaginação de um homem…

  6. Orcama diz:

    Com a vossa licença, eu acrescentaria: o que a imaginação de um homem faz de um rabo…

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, já podes deixar de tomar os comprimidos!!!
    Agora a sério, não queres elaborar nmais sobre a Jo/Ed relationship? Dava um bom post. Dos teus, sem a utilização de termos latinos, claro.

    • Orcama diz:

      Imaginativo Pedro Marta Santos,
      O que seria da criação artística sem a liberdade imaginativa e a sua expressão?
      Todavia seria de pedir que o corrector automático de textos contemplasse estrangeirismos. Ficaria tudo resolvido.
      Penso que o incomodativo termo se grafa “fellah”, que em português de traduz por felá.

  8. Pedro Marta Santos diz:

    Orcama, “fellah” tem origem árabe, e refere-se ao camponês do Médio Oriente. “Fellatio” — o acto da felação, se preferir — vem do latim “fellatus”, particípio passado de “fellare”. Mas obrigado pela atenção.

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