Que las hay, hay
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Jacob Cornelisz Van Oostsanen, Saul e a feiticeira de Endor


1 — Os exercícios de auto-citação têm sempre um quê de balofa presunção. Seja. Mas, na sequência das notícias publicadas no Correio da Manhã do passado sábado, que davam conta de conversas entre José Sócrates e Armando Vara sobre os destinos de vários dos grupos de comunicação social portuguesa, não resisto a lembrar o que escrevi, ainda há bem pouco tempo, aqui na Visão: «só por manifesta cegueira político-partidária não se entende que, ao longo dos últimos anos, aumentaram, e muito, a quantidade e a natureza das relações perigosas entre os interesses político, empresarial e mediático. A promiscuidade dessas relações não toma, necessariamente, a forma de microfones em Belém nem de assessores de gabardine e óculos escuros, infiltrados em viagens de Estado. Mas lança empresários e políticos numa dança macabra (em que não chega a perceber-se quem marca o passo e quem volteja graciosamente conduzido), domestica boa parte de uma comunicação social que – para ajudar à festa – vive uma das maiores crises da sua existência, condiciona o debate, marca – muitas vezes por omissão – a agenda política e, por conseguinte, atrofia a democracia».

2 – O Primeiro-Ministro fala do que bem entender, com quem bem entender. E pode bem ser que, devidamente contextualizada, a história relatada pelo CM nada tenha de escabroso. Mas depois do folhetim que envolveu a venda da TVI, depois da novela Moniz/Manuela, depois de toda a polémica em torno da tese da «asfixia democrática», o Eng.º Sócrates não pode, convenientemente, remeter-se a um institucional silêncio. O que está em causa é, do ponto de vista democrático, grave demais. E este é um daqueles casos em que o silêncio corre o risco de se tornar ensurdecedor.

3 – Quem também não pode limitar-se a assobiar para o lado em toda esta história é o Procurador-Geral da República. Mais uma vez, trata-se de um silêncio absolutamente insuportável. O país tem o direito de perceber por que raio, se é verdade o que noticia o Público do passado domingo, estiveram as certidões do Face Oculta quatro meses paradas na PGR. É que, é bom lembrá-lo, não se tratam de quaisquer quatro meses. Durante esse período ocorreram em Portugal, nada mais, nada menos, do que dois actos eleitorais.

4 – Não foi por acaso que acima me referi a uma «cegueira político-partidária». Fi-lo porque entendo que esta é, antes de mais, uma matéria de regime. O cerne da questão não é saber se eventuais manobras de condicionamento do sistema mediático foram conduzidas por um governo socialista ou social-democrata, de esquerda ou de direita. O que é essencial perceber é que uma estratégia bem sucedida de domesticação da comunicação social serve sempre o poder executivo, qualquer que seja a sua cor (e consequentemente fragiliza sempre a democracia). Desenganem-se portanto os que acham que não existe um certo PSD «mortinho» por tirar partido, quando chegar a sua hora, de qualquer sucesso que um executivo socialista possa conseguir nesta matéria. Nestas coisas, diz a experiência, nenhum governo tem incentivo ou coragem para corrigir as asneiras dos executivos anteriores. Estes feitiços sobrevivem a quaisquer feiticeiros.


Publicado na Visão. 12.11.2009

Comentários a “Que las hay, hay” (6)

  1. António Eça diz:

    É claro, e não foi por acaso que os três partidos mais governamentais (PS, PSD e CDS) votaram a lei que sustenta a actual polémica da imunidade (ou será inimputabilidade?) de certos cargos públicos (e não são poucos se incluirmos a fatia da justiça) em escutas feitas a eventuais suspeitos. Seja o que for dito nessas conversas, nem que por abusrdo se fale dum plano de assassínio físico, nunca será condiderado testemunho válido porque o segundo escutado legalmente não o pode ser…
    Coitado do Sócrates, que não pode ser escutado como qualquer pessoa de bem… Uma verdadeira injustiça!
    Sabe, Pedro: eu acho que ele não fala por modéstia. É o novo paradigma do PS, afinal de contas, e previamente anunciado…
    Não é uma coisa parecida que o Berlusconi quer agora?

  2. Vasco diz:

    António de facto, como resultado de um acordo feito terça feira entre Berlusconi e Fini (seu aleado da Casa della Libertá e Presidente do Parlamento), é apresentada hoje ao parlamento uma Proposta de Lei que tem como objectivo reduzir o tempo dos processos judiciais a um máximo de 6 anos. Com isto, e na realidade, Berlusconi vê dois dos seus processos mais críticos atirados ao mar. O caso de corrupção ao Advogado Mills e o da compra e venda de direitos televisivos.

    Em Portugal, parece-me que o silêncio que tanto choca o Pedro resulta de uns restos de sentido de pudor e vergonha, que aqui em Itália já se perdeu à muito.

    PS:pensando melhor, pudor e vergonha talvez não se apliquem a JS.……

  3. Pedro Norton diz:

    Caros Antonio e Vasco, estou plenamente de acordo. Estive para chamar ao texto «A Berlusconização do Regime». Mas era, convenhamos, um palavrão.

  4. António Eça diz:

    Burlescização talvez fosse menos agreste, embora a concomitante «conização» ligue razoavelmente bem com a imagem de «macho latino» que o pândego Berlus vende por ai a rodos…
    E Vasco, o Socas até é um rapaz modesto, sendo a sua única extravagância conhecida ser cliente da ‘Rodeo Collection’, em Beverly Hills (com direito a dístico demonstrativo no vidro da loja, ao lado de Putin, de Reagan e do sheik do aff-Caganistão, acho eu.…)

  5. Orcama diz:

    Não seria de reconsiderar a mudança da sigla JS para PS… Não será só isso que estão a pensar, contemplava também um apelido mais formal e ficaria 2 em 1, como em diversos de limpeza, direi.

  6. Orcama diz:

    queria dizer: como em diversos produtos de limpeza, direi.

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