Já dizia eu e corria como o Mantorras, essa nostálgica gazela de Catete. Corria entre a Fernando Pessoa, a Alberto Correia e a Almeida Garrett. Às vezes, a perder o fôlego, até ao Largo Cesário Verde. A toponímia é mais mentirosa do que a lua e tudo isto se passava em Luanda, São Paulo da Assunção de Loanda, cidade africana que a esquadra brasileira de Salvador Corrêa de Sá e Benevides retirou à mão pirata e holandesa para a devolver à restaurada nacionalidade portuguesa, quando Angola não tinha, ou se julgava que não tinha, nenhuma.
Quando o eu que já era eu corria, eram também outros os fumos do tempo, mas ainda não eram esses os que me faziam correr. Não obstante, o eu já meu pequenino eu era mesmo pelo fumo que corria. Por nuvens dele como vão ver.
Este mês, descobriram-se 750 novos insectos em todo o mundo. Julgo que, naqueles alegres dias dos anos 60, se imaginava existirem alguns 4 milhões de espécies. É, para qualquer espírito decente, uma obscena e múltipla ameaça. Moscas e mosquitos eram sinónimo de doenças, febres altas e palúdicas, malária, tifo, o diabo e delírios a quatro. 4 milhões de espécies é muitíssima espécie e, se não se podiam exterminar todas, era legítimo exterminar algumas. Em Luanda, para epifânica alegria do meu tão pequenino eu, fazíamo-lo com DDT, o napalm dos insectos, o cheiro a vitória das manhãs da minha infância.
Vinha num carro que entrava pelos dias de sol incandescente sem Valquírias imperiais nos altifalantes. Um carro só, com bizarro depósito atrás, anunciado pelos gritos das sentinelas do bairro que nós éramos: “Carro do fumo, carro do fumo!” E o DDT, indiscutido pesticida, saía espesso, em nuvens gloriosas, imaculadas. Enquanto as mães, já classe média, corriam a fechar as cheirosas casas de alecrim e alfazema, nós, mais lumpen do que pequenino burgueses, tirávamos as camisas e mergulhávamos naquele algodão doce. Bebíamos DDT, respirávamos DDT. O Dicloro-Difenil-Tricloroetano entrava-nos pelos poros, enquanto à nossa volta os inimigos, não sei quantas espécies de insectos, tombavam sem remissão. Morriam. Massacre.
A vitória era certa. Se não tivessem, claro, proibido o DDT, o clorobenzeno que valeu o Prémio Nobel da Medicina ao suiço que lhe descobriu as letais qualidades.
Para o mês que vem, vão inventariar (ups!) mais 750 novos insectos. Calcula-se que daqui a 445 anos esteja fechada e rigorosamente selada a catalogação de todos as espécies inventadas ou por inventar. Proibido o DDT, nada pode deter o triunfo sibilino dos artrópodes. Mas nem o que a convenção de Estocolmo proibiu, nem tão pouco 445 anos de insensata catalogação não insecticida, me podem negar ou roubar o que o eu que já era eu experimentou na Luanda de guerras pesticidas: eu inalei, eu cheirei! E tinha o suave e doce cheiro da vitória.
Quando o eu que já era eu corria, eram também outros os fumos do tempo, mas ainda não eram esses os que me faziam correr. Não obstante, o eu já meu pequenino eu era mesmo pelo fumo que corria. Por nuvens dele como vão ver.
Este mês, descobriram-se 750 novos insectos em todo o mundo. Julgo que, naqueles alegres dias dos anos 60, se imaginava existirem alguns 4 milhões de espécies. É, para qualquer espírito decente, uma obscena e múltipla ameaça. Moscas e mosquitos eram sinónimo de doenças, febres altas e palúdicas, malária, tifo, o diabo e delírios a quatro. 4 milhões de espécies é muitíssima espécie e, se não se podiam exterminar todas, era legítimo exterminar algumas. Em Luanda, para epifânica alegria do meu tão pequenino eu, fazíamo-lo com DDT, o napalm dos insectos, o cheiro a vitória das manhãs da minha infância.
Vinha num carro que entrava pelos dias de sol incandescente sem Valquírias imperiais nos altifalantes. Um carro só, com bizarro depósito atrás, anunciado pelos gritos das sentinelas do bairro que nós éramos: “Carro do fumo, carro do fumo!” E o DDT, indiscutido pesticida, saía espesso, em nuvens gloriosas, imaculadas. Enquanto as mães, já classe média, corriam a fechar as cheirosas casas de alecrim e alfazema, nós, mais lumpen do que pequenino burgueses, tirávamos as camisas e mergulhávamos naquele algodão doce. Bebíamos DDT, respirávamos DDT. O Dicloro-Difenil-Tricloroetano entrava-nos pelos poros, enquanto à nossa volta os inimigos, não sei quantas espécies de insectos, tombavam sem remissão. Morriam. Massacre.
A vitória era certa. Se não tivessem, claro, proibido o DDT, o clorobenzeno que valeu o Prémio Nobel da Medicina ao suiço que lhe descobriu as letais qualidades.
Para o mês que vem, vão inventariar (ups!) mais 750 novos insectos. Calcula-se que daqui a 445 anos esteja fechada e rigorosamente selada a catalogação de todos as espécies inventadas ou por inventar. Proibido o DDT, nada pode deter o triunfo sibilino dos artrópodes. Mas nem o que a convenção de Estocolmo proibiu, nem tão pouco 445 anos de insensata catalogação não insecticida, me podem negar ou roubar o que o eu que já era eu experimentou na Luanda de guerras pesticidas: eu inalei, eu cheirei! E tinha o suave e doce cheiro da vitória.


















Isso é o ‘Apocalypse Now’ da mosquitada, e tu, qual comandante cowboy, também gostavas do cheirinho a napalm logo pela manhã… Imagino bem! Essa foto mata-me, acho que sei quem a fez, um fotógrafo que viveu em Angola até 75 e que depois conheci no jornalismo. O nome é igual, pelo menos, e a datação visual coincide. Um dia empresto-te o livro do meu pai sobre Angola, cheio de fotos, mapas e visões de séculos de império. Tenho a certeza que gostarás de o ver.
Grande abraço (e parabéns pela fritada de bifes!).
Ó meu bélico dragão, grato pelos futebolísticos elogios (aleluia), fico já a imaginar o livro paterno. Foi publicado? E existirá como preciosidade nos bons alfarrábios? Diz-me e vou à procura. Um kandando rijo!
Se Loanda é, de Assumpção se trata, desculpe-me a imodéstia da correcção…
E os F1 de rolamentos a descerem, ali mesmo, rampa da Robert Hudson abaixo, joelhos esfolados e saltos das frescas sandálias em semanal recauchutagem, para desespero das nossas mães e em doce traição aos nossos pais? mas vocês eram lá mais de cima…não tinham descidas à Monte Carlo.
Orcama, era mesmo Assumpção e não foi matumbice, foi só aligeiramento para não assustar os pulas.
Agora, as minhas provas oficiais de carrinhos de rolamentos foram prestadas tanto na cidade lá de cima, da Eugénia de Almeida à Avenida do Brasil, como na cidade cá de baixo, na perígosíssima rampa do Liceu, onde esfolei joelhos e, depois, os olhos até à miopia, quando vi, em couché, a primeira Playboy americana.
Existirá, porventura, algum inusitado alemão dentro de si que começa a revelar-se? O Alzheimer… Abaixo com ele? Abaixo!!! Ou esquecimento que o distanciamento provoca…
Eugénio de Castro, s.f.f.! Reconhecerá que as minhas fontes são credibilíssimas, para além dos meus consabidos estudos no próprio terreno.
Eugénio de Almeida? Também, sim senhor, mas em dionísica disputa! Acredite que vale a pena.
E, porque hoje é sábado… prometo regressar que o tema alicia-me. Mas agora, ir-me-ei alimentar kaluandamente, para a seguir giboiar. Depois, cá me terá de novo se aceitar o repto.
Afinal, apesar de não termos o nosso desejado correspondente de Angola, temos correspondente de uma Angola, a do Manuel Fonseca, que é numa Loanda que não é a mesma de Orcama.
Gostei do texto e da Luanda de si pessoano, Manuel Fonseca.
Kaluandamente, matumbice, pulas… diga lá o que significam, só sei de caxinguelé.
Eugénia, ainda bem que gostou: agradeço com vénia a sua bondade sem esquecer, um bocadinho ressentido, que já me mandou matar num post seu de inventários atrozes.
O meu léxico kimbundo é lamentavelmente escasso, mas para o que pede esclarecimento os meus préstimos ainda chegam — quando sofisticar vai ter de ser o Orcama a exercer a magistral autoridade que decorre da sua muito mais do que matura idade.
Assim: matumbice é burrice; Kalu dizia-se de um natural de Luanda; pulas eram, na gíiria lumpen de Luanda, os europeus.
A despropósito: já gastou os inventários todos? E eu a pensar que a sua malvadez era infinita!
E giboiar, sabe o que quer dizer?
Suspeito aqui de cirúrgica fuga de informação privilegiada, um cazumbi segredou-me…
Isenta Eugénia de Vasconcellos, em verdade, em verdade lhe digo: não se deixe levar pelo mavioso canto do nosso muito considerado Manuel “Sangangu” Fonseca.
Kaluanda e bairristicamente falando, ele não tem nada de Pessoano. Disse!
Antes que Orca-ma, pantagruélico, volte, penitencio-me por ter querido transformar poesia simbolista em vinho. Para já não falar do lapsus mani a escorregar de Eugénio para Eugénia. A rua era mesmo Eugénio de Castro, ainda que o poeta se chame Eugénio de Castro e Almeida, o que é pormenor tão preciosista como irrelevante para as corridas de carrinhos de rolamento em apreço.
Não é que o pitéu começou com um ajindungado muzongué de fazer constipar (com licença do poeta Arnaldo Santos), seguido de um funge de pungo, tudo ingredientes trazidos lá da terra no voo de ontem, servido em mesa comprida, no quintal das trazeiras, com muitos kandandos pelo meio de kambas, também chegados de fresquinho, tudo para total surpresa minha? Só faltava a mangueira.
Veja só, MSF, acelerado pelas frescas Wuiwas, dei por mim, devotamente, à procura da Eugénio de Almeida… já não sei onde fui, nem me recordo por onde vim… Bom, aterrei agora, mas deixe que lhe segrede, aqui onde ninguém nos lê: vou mesmo giboiar, vogar brandamente nas asas de morfeu, inspirar-me, inventar uma inominada rua, melhor ainda, Avenida, para lhe colocarmos lapidar onomástico: EUGÉNIA DE VASCONCELLOS Av.!!! em São Paolo da Assumpção de Loanda, de bom clima e memórias mil.
E “…se acaso viste-me chorando
Kikata, mano kikata
acredita aiué em teus olhos“
(in recado para António Jacinto / j-m villanova)
Ps. o nome do autor, por si só, merece uma boa pesquisa no google. Recomendo.
Manuel S. Fonseca! Só lhe perdoo o despropósito penitencial porque uma linha de modéstica assenta bem, muito bem, aos rapazes: não fora a poesia convenientemente canibalizada e mais valia que não tivesse sido escrita. Ou não sabia que as palavras amadas são coisa de comer até ser carne nossa? Tenho de explicar tudo, eu?! Ou tenho de chamar o Ramos Rosa?
O poeta pode chamar-se o que for, mas à rua ficava-lhe bem o lapso de ser Eugénia. Mais bem só se fosse Eugénia de Vasconcellos. Enfim, guarde-se para um mundo perfeito…
Giboiar, eu sei, eu faço quando como doces, ou o que não devo, e fico enjoada e quieta como uma gibóia depois de comer uma baleia. Até já escrevi esse verbo e, porque sou pretenciosa, pensando que estava a inaugurá-lo, num post da Mátria.
Aquilino adversário e amigo: o livro chama-se ‘Seara dos Tempos’ e, tanto quanto sei, é obra rara mesmo junto dos alfarrabistas. É de 1968, e se procurares no Google por esse nome encontras-lhe a capa (meti-a lá há 3 dias).
Quanto ao ‘aleluia!’: até parece que…
Estou toda deslexicada… Já só cá volto com um diccionário de lailailailai-português. É para que saibam!
Saiu de caxinguelé (de mansinho). Mas volte que MSF deve estar quase a chegar, e, então, a coisa, ou muito me engano ou promete mesmo.
Orcama, muadié, não vou ficar aqui a sunguilar o dia todo. Nem pense nisso o estimado avilo. Nem mesmo que os parentes tenham trazido, lá da Lua2, paracuca para fazer boca doce. Desculpa, mas tenho que ir beber o marufo noutro kimbo.
Antes, aprovo o plano da Av. Eugénia. Aí se juntariam em curibotice todas as vítimas das bungulas que a dama inventariou aqui neste arimo de palavras. kandando, meu kota.
Só para dar nota que no outro dia “caxinguelé” era astuto…
Podem ser mudiés à vontade e sunguilar até cansar e todas as coisas paracucas, marufas, kimbas, mais ou menos curiboticeadas e bunguladas, à vontade. Não quero saber de uma língua cujos significados são móveis como as areias!
MSF, de total acordo. Um blog não é um chat. Eu próprio só agora voltei. Mas, essa para mim desconhecida, vertente cachacista… onde tem marufo, onde, onde?
Eugénia de Vasconcellos: neste campo, que é de terra batida, não me finta com a limpeza do outro jogo. É como no xadrez e até no futebol: quem joga em casa leva vantagem.
Será que quem sai de mansinho não é astuto? Além do mais, para caxinguelé, o significado astuto é figurado segundo vários dicionários, pois, para Houaiss, o sentido próprio primeiro, sendo um substantivo, refere-se a um rato de palmeira e a um esquilo da amazónia, ambos animais naturalmente muito ladinos, esquivos, irrequietos, sagazes, numa palavra: astutos. Mas repare: velhaco, também é significado legítimo, e ambos são bem diferentes entre si.
Naquelas aconchegantes latitudes, as línguas autóctones são assaz polissémicas, onomatopaicas, muito vivas, em constante evolução, sobretudo face a tudo que durante milénios foi desconhecido, como ocorre connosco hoje, de resto, nas áreas tecnológicas.
Veja agora o muito nosso vulpino (do lat. vulpe), da raposa que lhe dá origem, tanto pode querer dizer astuto como traiçoeiro.
Daí que, outro dia, quando lhe dei o significado, e porque brincava com quem muito prezo, sabendo que muita gente nos pode ler (presunção?), preocupei-me determinar até o sentido de ambos. Adiante, reparei, agradado, que já está deveras fluente em kimbundices! Manuelino assessoramento? Que tal um estágio lá na banda, agora que abriu a estação balnear, com água a 27º?
Por ter comutado a pena ao MSF, é só acenar e tratarei de tudo.
Caro Orcama,
Crê possível assessoria de quem, novo Pilatos, lavou as mãos quando lhe pedi socorro? Faço estágio em e sou assessorada por: Luandino Vieira.
Considero que fechou os comentários a este post com chave de ouro:
De facto! Quando se tem acesso a e se é assessorada por nada menos que… o papa!