Arquivo | Novembro de 2009
Para temperar a mortal tristeza das escolhas anteriores, aqui deixo três Avé Marias e um Pai Nosso, a ouvir de manhã cedo:

The Smiths
Asleep (1985)
Sing me to sleep
Sing me to sleep
I’m tired and I
I want to go to bed
Sing me to sleep
Sing me to sleep
And then leave me alone
Don’t try to wake me in the morning
’Cause I will be gone
Don’t feel bad for me
I want you to know
Deep in the cell of my heart
I will feel so glad to go
Sing me to sleep
Sing me to sleep
I don’t want to wake up
On my own anymore
Sing to me
Sing to me
I don’t want to wake up
On my own anymore
Don’t feel bad for me
I want you to know
Deep in the cell of my heart
I really want to go
There is another world
There is a better world
Well, there must be
Well, there must be
Bye bye.
C’est juste une image, como diria o mais protestante dos cineastas. Não sei se é uma imagem justa.
ps– obrigado António Eça pela sugestão.
Há um romance em que pelas leis de hospitalidade o marido, rendendo-se à literal acepção do termo anfitrião, oferece aos convidados os favores da sua mulher. Tudo acontece em 94 páginas que oscilam entre teologia e pornografia.
“Roberte-Nessa-Noite”, esse romance, começava eu a gatinhar, foi escrito, por Pierre Klossowski. Entra naquela categoria de livros que pelo seu anacronismo intrínseco, e pela perda de prestígio da cultura francesa, “hoje ninguém se dá ao trabalho de ler” e que só recomendo por ter aderido à ONG de acolhimento a escritores franceses em vias de extinção fundada pela Teresa Loureiro neste impertinente comentário. Roberte, que suponho assim

conheci-a, tarde e más horas, anos 80, quando a outrora Senhora de encantos e louvores já teria idade de só tomar arrastado chá. Gostei dela. Quando gosto, gosto, e às vezes gosto tanto, que continua, cinco lustros depois, a fazer parte dos meus livros de culto. Igual ou ainda mais do que “A Idade de Homem”, de Michel Leiris, falada antes, ou dos “Cantos de Maldoror”, de Lautréamont, a falar depois, quem sabe.
A biografia de Klossowski compete com o “amontoado de desejos carnais e espirituais” que atravessa “Roberte”, o romance em apreço. Parisiense, filho de pais de origem polaca e irmão do pintor Balthus, este Pedro francês teve como mentores o místico e iluminado Rainer Maria Rilke, putativo amante de sua mãe, e o imoralista André Gide, que frequentou é é tudo o que disso biograficamente para o caso interessa. Depois deles ou por causa deles, recolheu-se durante alguns anos no seio de um mosteiro dominicano, com a firme disposição de tomar ordens.
Em 1947, no pós-Guerra, a vocação sofre um vil abalo e Klossowski abandona a vida monástica, casando-se com Denise Marie Roberte Morin-Sinclair, jovem viúva do conflito que devastara as certezas da velha Europa. É ela a heroína de “Roberte-Nessa-Noite”, o primeiro romance de uma trilogia erótica, com o título genérico “As Leis da Hospitalidade”. A Roberte do romance, membro do Comité de Censura do Parlamento, é tão inspirada na sua mulher, quanto Octave, o protagonista, escritor de livros obscenos, será o alter-ego do próprio autor.
Singular no romance é a fraternidade entre o deboche sexual (“Com uma joelhada violenta entre as nádegas, ele obriga-a a abrir amplamente as coxas; os dedos de Roberte deixam soltar todas as volutas do seu utrumsit à cara do corcunda…”) e o debate teológico (“Querendo colocar a vida do espírito ao abrigo da morte espiritual, o nosso autor criou a dupla substância na qual o espírito se torna solidário de um lugar obscuro, esta carne, imagem do segredo que toda a vontade criada partilha com ele”).
Essência e existência, corpos e puros espíritos, heresias gnósticas e Santo Agostinho, a vida da carne e os caminhos de Deus cruzam-se, em “Roberte”, com experiências sexuais limite que aproximam Klossowski da leitura que ele mesmo fez do divino e perverso marquês, num outro livro seu, o ensaio “Sade, Meu Próximo”.
O romance de Klossowski é um romance de risco, de uma exposição pessoal que busca a transgressão e o escândalo, formas pelas quais o autor queria aceder à comunhão com o sagrado – romance, Roberte e anfitrião impossíveis de imaginar, ou degustar, sem a merveille de catolicíssima escolástica, tudo servido, entenda-se, pela sintaxe clássica e soberba de quem traduzira, do alemão, Nietzsche e Heidegger e, do latim, Suetónio ou Virgilio.
Para evitar a censura francesa, “Roberte” foi publicado em edição de luxo com ilustrações do próprio Klossowski (não gostou das que Balthus, o irmão e incompetente pintor, lhe propôs). Vendeu-se, o livro, por subscrição. Em Portugal, cinco séculos depois, morto e enterrado o doutor Salazar, foi editado pela “Livros do Brasil”, com magnífica tradução de José Carlos Gonzalez.
Klossowski converteu-se num dos nossos Queridos Mortos em Agosto de 2001. Os livros que deixou pouco mais valem do que o desespero de contestáveis genuflexões como esta. Mas ficou, com a sua assinatura, vasta obra pictórica, como é o caso desta que integra a colecção Berardo.
Gosto mais dos livros:
“Largue-me, senão grito!” “Se gritar lanço-a ao cascalho!” e levara a mão ao colarinho da minha blusa desabotoando-o brutalmente. “Aqui não! Aqui não! Estão a observar-nos!” Mas a minha blusa rasgara-se e a sua mão penetrava no meu corpete: “Espiazinha!” segredou ele, metendo-me os dedos pelas axilas…
27 de Novembro de 2009
“Gloomy Sunday” (um original de Billy Holiday)
Diamanda Galas
Antony Hegarty´s favourite singer
A pop killer
Caro Leitor:
Venho por este meio pedir-lhe desculpa pelas sugestões musicais dos meus camaradas de blog.
Sabe como são estas coisas, é preciso ser ligeiro, blasé, com uns pós de irreverência e sobretudo despretensioso, que é a palavra-chave do actual politicamente correto da blogosfera. Ai dos pesadões, chatos, afectados, que têm gostos complicados e aborrecidos, tipo Liszt, Debussy ou Copland e outros presunçosos assim.
Mas não se deixe iludir, caro leitor. Estou em condições de lhe afiançar que os meus camaradas de blog frequentam S. Carlos, são clientes da Deutsche Grammophon e conseguem dissertar com ardor e propósito acerca de Mozart. Têm é acanhamento em exporem-se, pelo que seleccionaram este lote de fadistas com voz de pneumónica e sentimentos de caixão à cova; cantores franceses assopeirados; um italiano do tempo dos telefones brancos; conçonetistas pop lívidos de pó-de-arroz e com violinos e músicos negros americanos dos distantes anos em que o jazz era uma curiosidade etnológica de Nova Orleans, boa para adornar postíbulos e funerais. Vá lá que ninguém se lembrou de um daqueles grupos de rapazes suburbanos britânicos dos anos 80 e 90, raquíticos de tanto fish and chips, com melancolias chuvosas.
Eu, desgraçadamente, não sou melhorzinho. Tolhido pelo medo de parecer mal e pela vastidão da minha ignorância também me abaixo e proponho à vossa consideração esta cançoneta interpretada por Miles Davis. Miles já não era o que fora (cool, anos 50), nem o que tinha sido (electro–funk, anos 70), mas ainda deu para siderar Porto e Lisboa meses antes de morrer, e gravar esta peça ao vivo semanas antes de nos abandonar.
16 & 17 de Março de 1991
28 de Setembro de 1991
“Where The Wild Roses Grow”
Kylie Minogue & Nick Cave
Diogo, the floor is now yours…
“Intervention” — The Arcade Fire 2006
The king’s taken back the throne
The useless seed is sown
When they say they’re cutting off the phone
I’ll tell ‘em you’re not home
No place to hide
You were fighting as a soldier on their side
You’re still a soldier in your mind
Though nothing’s on the line
You say it’s money that we need
As if we’re only mouths to feed
I know no matter what you say
There are some debts you’ll never pay
Working for the church
While your family dies
You take what they give you
And you keep it inside
Every spark of friendship and love
Will die without a home
Hear the soldier groan, “We’ll go at it alone”
I can taste the fear
Gonna lift me up and take me out of here
Don’t wanna fight, don’t wanna die
Just wanna hear you cry
Who’s gonna throw the very first stone?
Oh! Who’s gonna reset the bone?
Walking with your head in a sling
Wanna hear the soldier sing
Working for the Church
While my family dies
Your little baby sister’s
Gonna lose her mind
Every spark of friendship and love
Will die without a home
Hear the soldier groan, “We’ll go at it alone”
I can taste your fear
It’s gonna lift you up and take you out of here
And the bone shall never heal
I care not if you kneel
We can’t find you now
But they’re gonna get their money back somehow
And when you finally disappear
We’ll just say that you were never here
Been working for the church
While your life falls apart
Singing hallelujah with the fear in your heart
Every spark of friendship and love
Will die without a home
Hear the soldier groan, “We’ll go at it alone“
Hear the soldier groan, “We’ll go at it alone”
“Verra’ La Morte e Avra’ i Tuoi Occhi”
Poesia di Cesare Pavese
Recitata da Vittorio Gassman
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi–
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Così li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.

























