
Eu sei que ainda faltam uns dias para louvar o Morto da semana. E que não me cabe a mim sequer essa tarefa. Mas o momento é de grande solenidade e justifica uma excepção: morreu António Sérgio, a voz mais carismática da rádio portuguesa, o grande educador musical de sucessivas gerações que se habituaram a tê-lo como referência desde o início dos anos 80. Não me lembro de nenhuma outra figura que tenha influenciado mais a minha sensibilidade e gosto musical, que me tenha acompanhado com tanta constância desde que o meu ouvido despertou para a música. Começou a fazê-lo ainda eu era um adolescente imberbe com o inesquecível Rolls Rock, que me levou a perder horas de sono, eu já enfiado na cama às escuras, com um rádio minúsculo agarrado ao ouvido. Seguiram-se anos do não menos marcante Som da Frente, através do qual prosseguiram descobertas musicais que ficaram para toda a minha vida. Devo-lhe o prazer da intimidade com dezenas e dezenas de bandas e projectos musicais que me deu a conhecer, a mim e a muitos milhares de portugueses, ainda na era do vinil, e quando muitos meses tinham de decorrer antes de os discos – importados quase sempre – ficarem disponíveis no nosso país. Com aquela sua voz única, que parecia sair das profundezas das trevas, introduziu-me ao universo fascinante e sombrio dos Joy Division, dos The Cure, dos Echo and The Bunnymen e outros, e a pérolas que continuam coladas ao meu ouvido como I´m in love with a german film star dos Passions e Party Fears Two dos Associates. Já na desaparecida XFM e nos anos 90, apresentou-me ao som negro do sound system de Bristol, dos Massive Attack, Tricky e Portishead, dignos continuadores da herança plena de melancolia dos Division, e contribuiu para reforçar em mim o sentimento de pertença a uma comunidade especial, ligada por laços de grande empatia e cumplicidade, que era a de todos aqueles que tinham o privilégio ou a graça de o ouvirem, de seguirem as suas recomendações, a horas certas da noite. Como todos eles, indignei-me com a sua saída forçada da Radio Comercial, ficando-me o consolo de rapidamente ter percebido que ele, que ia buscar a música sabe-se lá onde, merecia melhor do que uma estação que vivia de play-lists.
Trinta anos depois do meu primeiro encontro com a sua voz, lá continuava eu a não passar sem ela, agora no Viriato 25 da Radar. E, apesar dos anos e as responsabilidades me aconselharem outra postura, lá continuava eu também com aquele meu hábito irritante e mal-educado de mandar calar os outros sempre que a sua voz se fazia ouvir. Tudo para não perder a oportunidade de mais uma descoberta que me poderia ficar para toda a vida, como muitas outras.
Lamento não lhe ter chegado a agradecer pessoalmente tanta dádiva. Estive várias vezes para o fazer, eu, que durante anos o vi quase todos os dias almoçar perto da minha mesa, com o seu estilo inconfundível entre o rocker e o cow-boy. Mas, talvez porque o confundia com os meus mitos musicais, e o considerava tão intocável quanto eles, a vergonha acabou por prevalecer e nunca me permitir passar do leve aceno de cabeça.
O mínimo que posso fazer, agora que já é tarde para esse agradecimento, é, para além de exprimir a minha gratidão através destas modestas palavras, devolver-lhe a maior dádiva de todas, um dos mais soberbos epitáfios musicais jamais compostos. O de Ian Curtis e da sua obra-prima intemporal, Atmosphere, editada já depois da sua morte. Tal como os programas do Viriato 25 que, antes de a morte lhe bater à porta inopinadamente, António Sérgio deixou gravados para esta semana que aí vem.
















Obrigado Diogo pela lembrança do Rools Rock. Estou a ver perfeitamente a cena do almoço, conheço essa hesitação e com ela a confirmação da frase mais fdd. da nossa profissão: só me arrependo do que deixei por fazer.
Obrigado Diogo pela lembrança do Rools Rock. Estou a ver perfeitamente a cena do almoço, conheço essa hesitação e com ela a confirmação da frase mais fdd. da nossa profissão de vivos: só me arrependo do que deixei por fazer.
Tiago, e antes do Rolls Rock, foi o Rotação, que eu não cheguei a ouvir por ainda não ter despertado para a música nessa altura. E depois, o Som da Frente, o Grande Delta, a Hora do Lobo e, agora, o Viriato 25, que eu ouvirei hoje pela última vez.
Era a melhor voz da rádio para aquilo com que trabalhava: a música. O voz dele e o que dizia aconchegavam as peças com a perfeição do amor. Deixa mossa.
Caro António Eça, a militância do António Sérgio pela divulgação do “som da frente” (nome de um dos seus míticos programas e que passou, desde então, a designar todas as sonoridades da vanguarda) é uma questão de Amor e de Fé pela música. Pela música e pela rádio, onde ele se manteve sempre, longe da ribalta dos holofotes e a pugnar, sempre, por uma “imensa minoria” (outra expressão que ele celebrizou) que educou o seu ouvido por sua obra e graça exclusiva.
E obrigada Diogo Leote. Pelo belíssimo e sentido texto. E pela música.
Não é a mim que tem de agradecer, Bellatrix, mas ao António Sérgio. E se o texto foi tão sentido foi porque estou certo que mais ninguém (no mundo da rádio e fora dele) me poderá levar a sentir a música com aquela magia que ele incutia aos seus ouvintes…
“I’m in love with a german film star”, canção deliciosa. Há uma versão longa na compilação de 12″ “Electric 80’s” (aceitam-se trocas).
Obrigado a todos pela partilha de lembranças.
Obrigado ao António Sérgio por esta e por tantas outras mais:
http://www.youtube.com/watch?v=QvBy0z4PD8c
:)