
“Where´s the wall ? The wall is everywhere!”, respondia, num misto de incredulidade e gozo, o transeunte que, envergonhadamente, acabáramos de questionar sobre a localização do Muro. Estávamos no verão de 1986, Gorbachov subira ao poder na União Soviética no ano anterior e, apesar dos sopros de mudança que de lá vinham, o Muro parecia estar para durar, como diria Honecker mais tarde, “mais 50 ou 100 anos”.
Curioso desígnio este de quem, com a maioridade e a carta de condução finalmente na mão, escolhe como primeiro destino da liberdade adquirida o local onde o Homem colocou um obstáculo — feito de pedra, cimento, arame farpado e armas — à liberdade.
Berlim era na altura um enclave, bem no coração da RDA, para onde acorriam aos milhares, nesse e noutros meses de Agosto, os alemães ocidentais que procuravam uma espécie de réplica europeia do american way of life. Procuravam-na nos estritos limites da parte ocidental da cidade, claro está. Aí abundavam os yeahs, folks e buddies, os uniformes e as divisas americanas, os nomes dos founding fathers e de outras personagens marcantes de terras de Uncle Sam nas placas de ruas e avenidas. E também marcas, lojas e consumismo a rodos, com muito néon a anunciá-los em cada esquina. E nem os casinos faltavam.
Mas, nessa noite, nós só queríamos saber do Muro. E rapidamente percebemos quão ingénua fora a nossa pergunta. Porque ele estava mesmo em toda a parte, apesar de todos, do lado de cá, parecerem ou fingirem ignorá-lo. E aí nos deixámos ficar, duas a três horas, bem à sua frente. A olhar para ele apenas, sem trocar uma palavra. Ou a tentar espreitar para o outro lado, à procura de um sinal de vida de um outro mundo que se dizia existir ali. Já sabíamos da “zona de ninguém”, daqueles que nela tinham deixado as suas vidas, mas, naquele tempo em que Wenders ainda não se lembrara de convocar os anjos para a cidade, ignorávamos como o silêncio e a escuridão poderiam ser tão opressivos e perturbadores. Enquanto do lado de cá a luz e o ruído se excediam, do lado de lá nada mais do que escuridão e silêncio. Nenhum manual de história ou tratado de sociologia seria tão impressivo, nem antes nem depois daquela noite, sobre os excessos ou ausências dos dois mundos que então avistávamos do alto de uma escadaria, vigiados por holofotes ameaçadores.
Depois do embate e das horas de silêncio, nada mais nos restava senão regressar. Regressar rapidamente para a nossa periferia. Fugir dali e dar graças aos nossos brandos costumes.
















Diogo, fui lá, primeira vez, em 1984. Entrevistar uma cineasta. Poucos dias, de visita guiada, com o muro sempre a atravessar-se. Até descobrir o amok. Acontecia, em geral, ao fim de semana. Um tipo, um qualquer tipo passava-se e desatava a conduzir como um louco por cima dos passeios, contra os sinais e com pessoas a voar para dentro de protectoras portas. Pensei que era lenda. Até ver, à frente destes olhos que gostava que este nosso cemitério comesse. Malhas que o Muro tece. Era insuportável tanta insularidade murada.