“Não posso rir que fique feie”

Tudo começou com o Contra-Informação. Quase tão importante como aquela notícia transmitida por telefone que era o sonho de uma vida – “pai, sou ministro!” – e que antecipava já os tachos que aí viriam na qualidade de ex-ministro, era ter um boneco no Contra. Não nos espanta, pois, que, todos aqueles que queiram ter um estatuto na vida política portuguesa (não interessa qual, o que interessa mesmo é o “estatuto”) se desunhem para servir de bombo da festa dos Gato Fedorento. Para esses, não há certamente maior desonra do que não ser suficientemente importante para merecer o favor de ser gozado na praça pública.

Mas tempos houve em que os senhores que (não) nos governavam não fingiam ter sentido de humor, como agora. Em que a capacidade de se rirem de si próprios ainda não era um trunfo precioso para beneficiar das graças dos eleitores. Antes do “Soares é Fish”, do “Fenómeno” Santana e do Sócrates “Porreiro, pá!”, vivíamos na era do inesquecível (pelas melhores e piores razões) “não posso rir que fique feie” que a inspiração de (Augusto) Cid pôs na boca de Eanes (ou melhor, de Eanito), o homem de que nunca ninguém, em tempo algum, viu os dentes. Antes de ser de bom tom os visados prefaciarem os livros de cartoons em que eram oferecidos à chacota geral, a moda era mesmo a de requererem a sua apreensão pelos tribunais, contando com a visão tacanha que estes ainda revelavam, nos anos subsequentes ao fim da ditadura, sobre a liberdade de imprensa e de expressão.

Nesses tempos não muito distantes, em que até de desafios para duelos se falou, o traço e os balões de Cid já eram, para além de muito divertidos, uma das mais lúcidas expressões sobre as idiossincrasias da cena política portuguesa. Quem sabe mesmo se, num futuro também não muito distante, quando os professores tiverem de ensinar aos alunos o que se passou no nosso país do 25 de Abril para cá, os manuais de História não serão substituídos, e com vantagem, pelas caricaturas de Cid. Pelo menos se a sisuda Fenprof, que manda na educação, aprender com ele a ter sentido de humor.

 

Comentários a ““Não posso rir que fique feie”” (3)

  1. António Eça diz:

    Totalmente de acordo. E até o Eanes já foi aos «gatos»…

  2. Orcama diz:

    É, é. “Desta já nos safámos” e “quem se meter connosco leva”…

    • Diogo Leote diz:

      Atentíssimos António Eça e Orcama, é claro que ainda andam por aí uns espécimes que, por defeito congénito, recusam o humor como arma retórica (Pacheco Pereira à cabeça), têm dele uma concepção muito rasteira (Augusto Santos Silva, claro) ou o esquecem, como um menino mimado, à mais leve contrariedade (o colérico Sócrates)…

Comentar