“(…) guarda as aves, suspende a evaporação das gotas e queima o ar, veículo onde, da boca ao ouvido, viajam as palavras.” *

Edward Hopper, Evening Wind

Às vezes, acontece isto de um texto ser coisa falante, mais do que ser coisa macia e falada, lida como se fora ouvida e já está: a dormir dentro de nós as palavras até o sono macio delas macias faladas acordar pensamentos outros, nossos agora também. Às vezes, quando é coisa falante, diz logo, conversa-me contigo. Eu gosto de Hopper. Muito. Não gosto só da pintura dele. Gosto dele. Do pensamento dele, é bem pensado, diferentemente pensado — em volta, o mundo todo em cubismo, mais suave no hemisfério sul, as linhas angulosas do norte mais naturalmente arestado, agudas, mais fechadas, de sentir para dentro em racionais linhas puras, as curvas mornas do corpo. Hopper não. Falso fácil de banda desenhada por fora os anti heróis de por dentro. Ou falso fácil de cartazes coloridos publicitários. Degas fê-los para as Folies Bergères, não fez? As biografias faltam-me sempre nas alturas em que deveriam sair-me cronológicas informações na ponta da língua como nas sabatinas da quarta classe, onde nasce o rio Minho? Nos montes Cantábricos enquanto Degas desfolha os saiotes até à ponta das botinas, em Espanha, o can can sempre em redondez de corpete decotado a desalinho, as Folies Bergères de Degas são nos montes Cantábricos em Espanha, se forem dele os cartazes, já as bailarinas em saias de tule com clássicos laços meninos, elas meninas, na Cantábria, não, Paris. Hopper não pintou a solidão, ainda que todos os super heróis sejam solitários, mesmo os anti heróis, dizem que pintou a solidão, e é verdade que se ouve o eco quando o eu bate nas altas paredes vazias. Pintou o que Larkin escreveu: a condição de ser, ser sem remédio para ser outro, ou para ser si mesmo, ser tudo o que, de não ser amor, não se liga ao mundo. O espaço entre — desligamento. Ou porque o amor não chegou, ou porque não sabemos o que fazer com ele, ou porque nem sabemos o que fizemos dele, desexistindo em cada dia para mais bem abraçar a morte que cresce de dentro para fora.

*in Paraíso Reverso


Comentários a ““(…) guarda as aves, suspende a evaporação das gotas e queima o ar, veículo onde, da boca ao ouvido, viajam as palavras.” *” (2)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei muito deste seu post, Eugénia. E fiquei com vontade de saber mais do que pensa ser, e do que vale, alguém pintar como Hopper pintou num mundo todo em paisagem cubista. Ou de como, assim sendo, alguém pode parecer falso fácil de bd.
    Não sei se a solidão dele, já agora, é igual à de Larkin. O larkin tem uma solidão europeia, de estar em casa, de dores de barriga, de olhar lascivo. A do Hopper é mais asséptica, digo eu.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá Manuel Fonseca. Obrigada.

    Essa questão que apontou, a da norma e da diferença, é interessante.

    Não sei se a solidão dele é igual à de Larkin — formalmente não será. Mas na impossibilidade de se ir além daquilo que se é, no pior dos sentidos, o do emparedamento pelas nossas frquezas, parecem-me o avesso e o direito da mesma coisa: Larkin, o avesso quente e obsceno, Hopper, o direito asséptico e desligado. O que em Hopper é desespero organizado em rotina, em Larkin é a resignação ao quotidiano.

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