Estive lá

cartazCascaisJazz71B Fazem hoje 38 anos sobre um dos mais formidáveis acontecimentos musicais do séc. XX em Portugal.
O fenómeno foi organizado por dois inconscientes, Luís Villas-Boas e João Braga (sim, esse mesmo) que por puro idealismo trouxeram a Portugal o Septeto de Miles Davis, o quarteto de Ornette Coleman; Phill Woods e a sua European Rythm Machine; Dexter Gordon + Joe Turner; e um grupo ad hoc chamado Giants of Jazz que era composto por Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Sonny Stitt; Art Blakey, Kay Winding e Al McKgibbon. Só…
só pode ter sido, já que ninguém em seu perfeito juízo se atreveria à empresa
Parece mentira, mas não é lenda, toda esta gente subiu ao palco, de facto, no 1º Cascais Jazz durante o fim-de-semana de 20 e 21 de Novembro de 1971.
Hoje é dificílimo imaginar como era descampado e pardo o Portugal de então. Mulher que saísse à rua sozinha era seguro que seria apalpada pelo enxame de homens de pastinha que calcorreavam a cidade; rapaz de calças vermelhas ou cabelos compridos era insultado abertamente de “panasca” e os polícias de trânsito enviavam cartas para a terra gabando-se que “sou eu quem manda nos automóveis de Lisboa”.
Cada vez mais tenho a ideia que o pior da ditadura que nos afligiu, não foram as malfeitorias da PIDE mas a opressiva atmosfera social que tolhia o quotidiano. A bisbilhotice dos vizinhos; a constante intriga nos cafés e nos gabinetes; a desconfiança sistemática que nutríamos uns pelos outros, revelada num trato em que prevalecia a má-educação e a falta de gentileza; os abusos dos pequenos poderes, dos continos aos guarda-freios da Carris, dos polícias de giro aos empregados de balcão das repartições públicas; a mesquinhez da vida pública, com os da situação sempre empertigados e os das oposições sempre ressabiados; um absoluto alheamento em relação ao que acontecia no resto do mundo civilizado, com a contrapartida de se mitificar tudo o que tinha a chancela de “estrangeiro” – assim era a vida no Portugal de 1971 que ainda senti de raspão.
E foi neste atoleiro que eclodiu o Cascais Jazz.
Outros dirão como foi, eu só conto o que vi.
Aos 12 anos e sem explicação plausível para tal queda, era um fã impenitente de jazz, embora muito inculto e pessimamente informado. Ouvia pouco e desordenadamente, mas aqueles eram os acordes que me encantavam. Não julguem que me estou a armar em talento precoce. Bem pelo contrário: no pátio Norte do Liceu Camões preferir o jazz aos Yes, aos Pink Floyd ou aos Emerson, Lake & Palmer era um bilhete só de ida para o desterro social. Salvava-me da infâmia por não ser caixa-d’óculos e por o jazz ser esquisito. Ora nesses tempo o “esquisito” o extravagante e o “difícil” infundiam alguma consideração.
Lá fui, então, ao 1º Cascais Jazz. Fui, não é bem assim, levaram-me os meus pais e impuseram a condição de eu sair à meia-noite. Eles ficariam à minha espera cá fora.
Trabalhando o meu pai na RTP foi fácil meter-me lá dentro. Acolheram-me no carro de exteriores da televisão, puseram-me uns cabos na mão para ir entregar aos câmaras e bastou a infalível nota de vinte para que os porteiros fizessem vista grossa. A entrada de serviço passava pelo corredor dos camarins e mal entrei vi um senhor negro sentado numa grade de cerveja a fazer uns trejeitos com a boca. Quando reparou em mim encheu as maiores bochechas que jamais me fora dado ver e piscou o olho à minha estupefacção. Era Dizzy Gillespie.
Dizzy No pavilhão, cerca de 12 mil almas compactas desopilavam uma vaia de assobios e “buuus”, com uma violência só possível naqueles dias         reprimidos. Tinha acabado de subir ao palco Villas-Boas. Sobre ele corriam rumores terríveis: havia indícios seguros que organizara o festival para ganhar dinheiro – intolerável. No ar pesadíssimo do Dramático flutuavam livremente vapores agri-doces que só mais tarde aprendi o que eram. A maior parte dos espectadores ostentavam o compromisso político das barbas hirsutas e todos tinham aquele cabelo dos anos 70 que tapava as orelhas como um capacete. Havia também, embora em minoria, uns senhores com ar de Gulbenkian, entre os quais ia jurar que vi Alexandre O’Neil.
E terei mesmo visto, tal como Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Amália Rodrigues, se os tivesse procurado
Depois entrou Miles Davis e começou a fazer-se História.
Eu, lá tive que me vir embora a meio do concerto para me apresentar aos meus pais à dita meia-noite. Vinha extático, mas era demasiado inocente para perceber que acabara de passar por um acontecimento que me ficaria gravado para o resto da vida.

Comentários a “Estive lá” (6)

  1. Vasco diz:

    JNA, este teu texto é um que gostaria de ter escrito eu por ter tido 13 anos em 71 e ter podido olhar Gillespie olhos nos olhos. Em vez disso e seguramente sem o teu talento escrevi este no Geração de 60 o ano passado.

    http://geracaode60.blogspot.com/2008/10/blue-memories.html

    Peace.

  2. José Luís Pacheco diz:

    JNA, eu também “frequentava ” o tal pátio Norte, gostava de Pink Floyd (menos de EL&P) e adorava os grandes músicos que estiveram em Cascais nesse dia (enfim, ainda não os conhecia todos…). Não creio que a discriminação fosse assim tão evidente…

    Dito isto, parabéns pelo excelente artigo! Apanhou em cheio a época e o que “aquilo” em Cascais significou…

    Infelizmente, ia fazer 15 anos e os meus pais não me deixaram ir a Cascais…mas ouvi na rádio…e dois anos depois já lá estava.…

    Vasco, por acaso não é o amante de jazz do Liceu Camões que eu estou a pensar ou é? Dave Holland? Conference of Birds?? JLP

  3. graça diz:

    Também lá estive (17 anitos) com pessoal do qual faziam parte elementos do Ephedra, mais tarde convidado para a 4ª edição do Festival. Foi soberbo. Mas o que me deixou um amor pela vida fora foi o Ornette Coleman: nunca mais desisti do “esquisito”.
    Quanto à sua apreciação do ambiente da época, gostaria de acrescentar que já por essa altura Lisboa e arredores andavam de rebeldia (rebaldaria).

  4. - É pena tão poucas pessoas gostarem de Jazz. E os gostos, discutem-se ou não?

  5. José Navarro de Andrade diz:

    Caríssimos:
    obrigado pelos vossos olhares. Claro que esta é uma visão parcial, truncada e pouco esclarecida. As 1001 histórias do CascJazz não as presenciei. No fundo, foi como descrever o 25 de Abril a partir da janela de casa. Mas podemos dizer que estivemos lá, não foi? (sorry, Diogo)

  6. Fernando Júdice diz:

    Eu estive lá também. Só no primeiro dia, o do Miles Davis, porque o jazz era uma música que não precisava de títulos, achava eu na altura. Porque é que uma música sem letra e quase só feita de improviso haveria de ter um nome? Mas depois lá percebi, mas só mais tarde… A verdade é que fui incondicional do jazz em cascais durante muitos anos ainda, mas nenhuma das edições me deixou uma memória tão forte como a primeira e nunca na vida voltei a ver nada tão marcante como Miles Davis e o seu grupo (onde pontuava entre outros o extraordinário Keith Jarrett no piano eléctrico) e a sua música que me trazia as ligações ao rock que eu conhecia mas que abria horizontes inimagináveis a um puto de 17 anos que aspirava a ser músico e queria sair do cinzentismo reinante.
    Obrigado pela memória!

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