No dia 18 de Julho de 1973, Marcello Caetano regressava de um catastrófica visita de estado a Londres. Na véspera do seu desembarque na “pérfida albion” o “Times” publicara, com uma intenção cirúrgica, uma reportagem sobre o massacre de Wiriamu, em Moçambique, perpetrado pela tropa portuguesa. Assim, o curto périplo de Marcello Caetano foi permanentemente acompanhado por enormes manifestações de protesto, numa das quais Mário Soares não pisou a bandeira portuguesa.
À chegada a Lisboa, o Primeiro Ministro foi a S. Bento, onde os poucos amigos que ainda lhe restavam haviam organizado uma demonstração “espontânea” de desagravo. As escadarias e as ruas em redor do palácio estavam povoadas de uma gente tisnada, desconhecida de Lisboa. Por volta das 4 da tarde Marcello Caetano assomou à varanda e deu início ao discurso.
Ao princípio da tarde do dia 18 de Julho de 1973 eu subia a Rua Garrett em direcção à Bertrand. No bolso levava o primeiro salário da minha vida. Durante a quinzena inicial de Julho tinha trabalhado na célebre oficina de automóveis de Jaime Rodrigues, onde em vez de ter estado de volta dos carros de corrida, andei duas semanas a mudar pneus e a ser gozado pelos coriáceos mecânicos.
Por volta das 15 horas desse dia 18 de Julho de 1973, saí da Bertrand com o troféu mais ambicionado: um cartapácio de encadernação branca, que recolhia um semestre da revista “Pilote”.
Não sei porquê, subi ao Camões e fui descendo a Calçada do Combro (porque terei seguido tal percurso?) até S. Bento. A polícia e a multidão encaminharam-me para o Jardim das Francesinhas.
Quando Marcello Caetano começou a discursar, estava eu mergulhado na contemplação das aventuras de Lone Sloane. Desde então nunca mais consegui dissociar a voz aflautada do triste professor do delirante e rebuscado traço de Druillet.
PS — whip me, beat me, talk me hard…

















E depois de Marcello, outros luso-líderes, associaram outras coisas na luso-memória, formando a soalheira lusa-história que regressará num dia de nevoeiro. bfds