A propósito da “Noiva Cadáver” do Pedro Norton, lembrei-me de um cadáver noivo: “Peter Ibbetson”, de Henry Hathaway.
Hathaway merece repouso próprio, e tê-lo-á. Hoje só queria invocar o ultra-romantismo do filme, raramente visto, raramente visível, de 1935. Mais do que gótico, romanesco ou devaneador, “Peter Ibbetson” é uma sonata de Inverno, uma folia surrealista que Breton idolatrava e Buñuel muito apreciou. Não admira: o filme, meio sonhado, meio cantado, é o triunfo do “amour fou”, do amor que não vai apenas para além da morte. Substitui-se a ela.
Gary Cooper, o arquitecto londrino do título, cambaleia pela vida até encontrar acidentalmente — “le destin, d´entre les morts” — a paixão de infância, agora duquesa de Towers (Ann Harding, de glórias breves). Descobrindo a inevitabilidade da atracção (é a lei cósmica do electromagnetismo), o marido dela tenta matar Ibbetson, ele defende-se, e é o traído a ir desta para pior.

Em prisão perpétua, o corpo de Ibbetson não resiste às agressões, e morre, mas o espírito ressuscita-o — Ibbetson disse que não abandonaria a duquesa, e a promessa conserva o corpo vivo, anos a fio, mesmo paralisado no soalho de uma cela. O resto é nevoeiro, flores imensas, montanhas que explodem, casas em ruínas que ganham cor, vestidos doentes que ganham dança, encadeados e transparências que desafiam tudo, num filme em que Cooper está mortinho da silva durante metade da acção, e a acção é “una cosa mentale”. É um filme louco, sobre loucos, para loucos. Para gente morta, portanto.


















E vão dois…
…Outro Euclydes da Cunha!?…
Que bela descrição do filme, Pedro. Nunca vi, e fiquei com vontade. E não apenas por ser gente morta.