Noutra encarnação já falei, a alguns dos companheiros do Gente Morta, deste meu fantasma de estimação. O homem da fotografia viveu entre a década de 70 do século XIX e a década de 30 do século XX. Barbeiro de profissão (outra versão da história fá-lo editor de um pasquim de escândalos chamado…Cricket), bêbedo muitíssimo competente, acabou os seus dias num hospital psiquiátrico do Estado do Louisianna. A foto, carcomida pela humidade, é o único registo que sobreviveu do homem e da sua obra. O que, convenhamos, é pena. «To say the least». Atendendo a que, reza a lenda, foi o primeiro a tocar uma música estranha, misto de blues, de gospel e de ragtime, a que anos mais tarde alguém chamaria … jazz.
A que soaria, exactamente, o som de Buddy «King» Bolden? A que soa o som dos mortos? Para onde vai a música quando não fica capturada para a eternidade em Purgatórios de vinil ou de bits e bytes? Existirá um Paraíso para a Música quando volta a ser pó? E um Inferno? Não consta que Virgílio ou Beatriz fossem melómanos mas custa a crer que o destino da Música seja nenhum. E se assim é, qual terá sido o destino da Música de Bolden? Ecoará no Paraíso ou o lugar é uma maçadora coutada para anjos, arcanjos e querubins e para a sua pueril música celestial? Prefiro, apesar de tudo, acreditar que a Música de Bolden continua a tocar, eterna, roufenha, crioula, embriagada e embriagante, numa sufocante cave do Inferno. E que, todas as noites, tem em Charles Buddy «King» Bolden o espectador especial que nunca pode ter em vida.
O mais provável é que um dia destes, também eu, vá morar para aqueles lados . Não tanto porque tenha tido dotes musicais em vida mas por culpa de muitas outras histórias que, se me dão licença, prefiro levar comigo. Se houver lugar na sala hei de pedir um Gumbo, uma cerveja fresca e hei de sentar-me ao lado de Buddy Bolden. Depois, com um olhar cúmplice, bato-lhe com o cotovelo e sussurro: «I thought I heard Buddy Bolden say, Funky-butt, funky-butt, take it away.»


















Gostava de ter conhecido os gestos e a música deste Buddy, Buddy.
Toda a música vai para as editoras, são elas o Ser de Parménides.
A questão, caro Taxi, é que Bolden nunca editou. Parece que se cruzou um dia com um cilindro fonográfico mas não quis nada com aquilo e esse seu único registo musical perdeu-se para sempre.
Azar das editoras, e nosso. Ah, e do Bolden, é claro, que o capitalismo tem destas coisas.
A inopinada reaparição do Ludovico fez-me pensar que este muito belo post é bom de ler hoje, domingo à tarde, de luz outonal, enquanto caem lá foras as silenciosa folhas de Novembro, tal e qual como o Philp Larkin dizia que ouvia jazz. E era do Bolden que ele deveria gostar se alguma vez o tivesse ouvido, antes do jazz, invadido pela modernidade (ó Miles, Miles…), deixar de ter “a familiar diatonic of all lullabies„ love songs, hymns, and national anthemns that lie at the base of every nation’s musical consciousness”.
Que bela ideia Manuel! Ouvir Jazz enquanto caem as folhas outonais. Estava aqui a pensar o que é que se pode fazer num Domingo de Outono quando o Benfica já jogou no Sábado.
Ò Pedro, importa-se de refazer o comentário anterior, limpando da fotografia o trostky de sábado à noite.
Bonito texto, PN. Gostei muito. Merci.
De rien, Eugénia.