Não tenho bem a certeza de que este senhor esteja de facto morto. Penso que sim pois pelos meus cálculos teria hoje cerca de 120 anos. Penso também, que nos seus últimos anos de vida e devido às doses do áspero “Loch Lomond” que consumia em quantidades imoderadas, o fígado o tenha traído e alguma loucura tenha tomado conta da sua velha alma marinheira. Estou no entanto firmemente convicto de que passou as suas últimas horas recolhido no majestoso Castelo de Moulinsart, no conforto da companhia de amigos, mas sobretudo servido por um já frágil mas sempre fiel Nestor, que, de patins, continuou certamente a trazer-lhe em bandeja de prata, o gelo e o monóculo, que de forma tão garbosa, o nosso defunto de hoje, usou sempre em grandes quantidades.
Este senhor é, claro está, o audaz, o colérico, o vernáculo e bem-bebido, o meu querido amigo, o Capitão Haddock.
Desde que me lembro de ser gente que existiam duas certezas insofismáveis na minha vida. A primeira, era a de que aos domingos se almoçava no grande apartamento que a minha avó materna tinha na Praça do Areeiro em Lisboa. A segunda, era a de que na estante do antigo quarto da minha mãe, lá estava, fascinante, a colecção quase completa de “Les Aventures de Tintin”, em dezasseis pesados álbuns de capa dura e lombada de tecido encarnada — ou parda -, editados pela Casterman e que o meu avô tinha trazido de Bruxelas ao longo dos anos 50. Nesses fins de manhã de domingo, enquanto esperava que o almoço viesse para a mesa, mergulhava eu pois no mundo de Hergé e das suas impagáveis figuras: Tintin, o electrostático Tournesol, os superlativos Dupond et Dupont, o vira-casacas Alcazar, o viscoso Rastapopoulos, a “vanitosa” Castafiore (o Rouxinol Milanês), o impositivo Séraphin Lampion, o nosso lusitaníssimo Oliveira da Figueira e naturalmente esse cérebro em forma de cão que é Milou. No entanto, hoje, já grande, estou convencido que antes de completar 10 anos, foi graças ao flibusteiro Capitão Haddock e a essas sessões de leitura, que aprendi tudo o que precisava para sobreviver no mundo que lá fora me esperava.
Primeiro, aprendi a evidência de que uma imagem vale mil palavras e que uma história bem contada podia encher uma manhã de domingo ou toda uma vida. Que o mundo não era exclusivamente uma extensão do meu próprio mundo, mas que existiam aventuras para lá do meu quarto. E apercebi-me que nesse mundo existiam coisas maravilhosas. Que se faziam expedições científicas e descobertas surpreendentes. Que se podia ir ao fundo do mar em busca de tesouros perdidos e que a África era perigosa mas o mais fascinante dos continentes. Aprendi onde eram a India, o Amazonas, o Sahara e a China e que existia uma coisa chamada Islão. Que a lua tinha um lado onde era sempre de noite e que em imponderabilidade os líquidos se transformavam em flutuantes bolas coloridas. Aprendi a nunca olhar fixamente um Lama, que um eclipse solar pode salvar uma vida – ou três — e que uma voz estridente pode partir o mais resistente dos espelhos – “Ah! Je ris de me voir si belle en ce mirroir!”. Aprendi que os monstros podiam ser bons amigos, vivessem eles no alto de uma montanha coberta de neve ou num castelo numa negra ilha da Escócia. Apercebi-me que os índios afinal eram nobres e valentes. Aprendi através do exemplo, os valores da amizade, da generosidade, da honra e da lealdade. Aprendi que vale a pena fazer amigos independentemente da cor da pele, da raça ou das convicções políticas que tenham os outros. Aprendi que se ataca o que não é justo e se dá a vida pelo que o é verdadeiramente.
Mas nestas leituras encontrei também um lado escuro e assustador do mundo, que por vezes me silenciava durante todo o almoço. Se bem que protegido por Haddock, pela sua coragem e pelo seu humanismo, deixei de poder ignorar que à minha volta existiam homens capazes de tudo e lugares onde a esperança não chegava. Um mundo que se revelava rico de traficantes de droga, de arte e de armas. De seitas secretas e raptores de crianças. De assassinos, cientistas loucos e índios redutores de cabeças. Compreendi que no mundo se faziam revoluções, que os terroristas punham bombas e que na América o crime quase pagava. Aprendi o que é a guerra, o poder político, a energia atómica e a importância do petróleo na nossa civilização. Aprendi também que o ópio, a pólvora e os desertos matam os mais audazes. Fui exposto ao alcoolismo, ao totalitarismo e aos males do desenvolvimento desenfreado. Apercebi-me pela primeira vez que o mundo poderia acabar se um meteorito chocasse com a terra.
Tenho no entanto que confessar, que uma das maiores dádivas que me deixou Haddock, foi o de me ter ensinado uma grande parte do que sei desse quase extinto linguajar europeu que é a língua Francesa. Certo é, que um Capitão de Alto Mar não será o melhor dos professores, mas ele tentou e eu esforcei-me. Coleccionei assim, directamente do seu léxico fantasioso e feroz, graciosos exemplos de invectiva, ideais para usar a qualquer hora contra os maus e os medíocres. São para mim poesias os elaborados epítetos — nunca vulgares ou sórdidos –, “Bachi-bouzouke!”, “Coleoptere!”, “Buveuse d´eau minerale!” e “Espèce d´ectoplasme!”. Haddock, para além de marinheiro, era um poeta á altura de Céline, Rabelais ou de um dadaista mais radical.
E Tintin? Afinal de contas eram as suas aventuras. Aqui, confesso que o seu heroísmo e idealismo, se bem que louváveis e exemplares, sempre se revelaram para mim um pouco redutores e aborrecidos, quando comparados com o sarcasmo, a intemperança e o realismo do Capitão. Com Tintin, tenho a certeza que acabaríamos a falar de jardinagem e do clima dos trópicos. Com Haddock vejo-me mais a beber uma garrafa de rum ao pequeno-almoço no meio de uma tempestade no Pacífico. Com Haddock, se a censura dos anos cinquenta permitisse e à falta de melhor, apreciaríamos juntos as coxas da Castafiore.
Se pudesse, tinha-o feito padrinho do meu filho.
Com ele, eu iria até ao fim do mundo.
Vasco Grilo
Disclaimer: Admito que esta é uma traição fantasiosa do espírito deste cemitério. Fica por isso aqui prometido, um merecido enterro de honra ao pai de Haddock, George Remi (aka G.R., aka R.G., aka Hergé). Embora responsável por imagens decididamente racistas, frequentemente acusado de ter sido um germanófilo e um colaboracionista, e tendo criado um mundo predominantemente masculino de onde excluiu quase completamente o amor e as mulheres (a já mencionada Bianca Castafiore é uma isolada excepção), Hergé foi uma figura do seu tempo, em que o colonialismo Belga fazia parte do dia-a-dia, o politicamente correcto não era obrigatório e em que o conceito de aventura era de facto um quase exclusivo do mundo masculino. Por tudo isto ou apesar disso mesmo, aqui fica a minha promessa de voltar a ele.

















Belo texto Vasco. As coxas da Castafiore não são o meu forte mas reconheço que são melhores do que o Oliveira da Figueira em cuecas e de chapéu alto.
Obrigado! E reforço a ideia de que apreciar as coxas da Castafiore só se pode fazer depois do tal pequeno almoço à base de rum, claro!
Mille milliards de mille sabords! Que excelente escolha de morto e que delicioso texto, Vasco Grilo!
Também eu me iniciei nos Tintins em casa da minha avó materna — eram do meu tio mais novo, então solteiro e ainda por lá residente. Também eu, ao lê-los, comecei a suspeitar que talvez o francês tivesse afinal alguma utilidade, bem dissimulada, convenhamos, nos insuportáveis dictées e cahiers de verbes.
E, confesso, do que eu gostava mesmo era das cenaças do Capitão Haddock. Só quem não tenha quite a temper e não tenha crescido a ouvir que quem grita perde a razão, que há palavras e expressões que, em circunstância alguma, são apropriadas (sobretudo se se não é rapaz…), etc., etc., etc., não sente um absoluto deleite ao vê-lo esbracejar, bradar aos céus, borrifar rancorosamente o focinho de um lama que por acaso estava ali no fim do livro e, sobretudo, proferir em rajada aqueles impropérios, tão delirantes quanto, afinal, inofensivos. O meu preferido continua a ser o ectoplasme, com todas as suas adjectivações. E ainda hoje estou para saber o que são tonerres de Brest …
Lamento, mas estou em greve!!!
Nesta torrente de BD que inundou o blog, nem uma, uma só referência para o meu delicioso Astérix e para o meu filial Yakari… Razão para estas palavrinhas dirigida aos Romanos… E nem as Castafiorianas coxas são de molde a retirar-me da minha depressão…
É um texto muito interessante que me recorda a mim o primeiro TINTIN que eu tive. Foi talvez em 1952 e o livro era o “OBJECTIF LUNE” que eu li ficando imediatamente à espera da continuação da história que se completava no “ON A MARCHÈ SUR LA LUNE”.
Estava longe de imaginar que mais de 50 anos depois pudesse vir a ler um texto de um filho meu sobre a figura do CAPITÃO HADDOCK onde de uma forma tão clara e brilhante se faz a defesa e a apologia do livro e do efeito quase encantatório que a leitura pode ter mesmo quado, como hoje, se vive num mundo em que a imagem parece valer tudo.
Quanto ao escrito a única discordância reside exactamente na frase em que se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. É verdade, mas só às vezes porque para um verdadeiro leitor as palavras podem quase sempre valer mil imagens.
Desculpem os leitores do blogue mas deixem-me dar os parabéns ao Vasco apesar de ser pai dele. Este é um excelente texto que me trás à memória não mil mas um milhão de imagens, dele e de tudo o que ele representa para mim em afecto, em amizade em solidariedade e em cumplicidade.
Pai. Eduardo
Não me posso referir a mim mesmo como morto (de orgulho) pois dar-te-ia um desgosto muito grande, mas muito obrigado pelas “excessively kind words”. Ficam no ar alguns milhões de imagens também.
Forte abraço!
Vasco
Não sei se me emociono mais com seu texto, Vasco, ou com o belo comentário de seu pai — que, de uma certa forma, lembra os comentários de meu próprio pai. Concordo com ele no quesito “imagens e palavras”: sobre isso, vale lembrar que, às vezes, os desenhos dos quadrinhos perdiam espaço para longos textos. Estou bem distante de Portugal (no Brasil) e, ainda assim, faço muitas de suas palavras as minhas também. Cresci lendo Tintin e, acredito, imagens ou palavras não conseguiriam expressar a importância que essa leitura teve em minha vida.
Um grande abraço a todos,
Aline
Grande texto, até dá gosto, rita ferro