
Quando era pequena, muito pequena, pensava em quando fosse crescida. Quando eu era crescida nesses dias de ainda tão pequena, era crescida sempre de saltos altos e vestido, nunca saia, às vezes calças, dezoito anos, ou mesmo vinte, bem cuidada, obviamente casada, a viver numa casa onde as janelas da sala abriam para um pequenino jardim: uma árvore à sombra da qual, uma mesa, duas cadeiras e eu sentada, de saltos altos, bem cuidada, obviamente casada. Quando eu era pequena era sempre casada, os maridos mudavam, o Pedro Bala, o Duque Próspero, o Che Guevara, mesmo já no tempo do Eça, Eça só dos Maias, no tempo do outro Eça, não, a mesma mesa, duas cadeiras. Escrevia no jardim, logo que não chovesse, à sombra da árvore grande, duas cadeiras, eu sentada numa delas, ao lado a cadeira vazia, a cadeira de quando o marido em casa, escrevia, quando era pequena, histórias na minha Hermes Baby, com papel químico para o caso de o cão comer algumas folhas, de eu perder a pasta que as guardava originais, as dos leitores, à solta, perdiam-se sempre, quando fosse grande também teria um cão e papel químico de dedos azuis, mas ao pé da máquina, um cinzeiro, porque quando eu fosse grande havia de fumar como a minha avó, um movimento longo, ascendentemente lento, elegante na ponta de entre os dedos de bailarina, o cigarro a queimar-se no cinzeiro em equilíbrio incadescente, acompanhada pela ausência dele marido, porque a presença do amor é muito forte na cadeira vazia. E quando os meus maridos chegavam, ouvia o que eles tinham para contar de tudo lá fora e, depois do jantar, eu contava de tudo cá dentro, o cão connosco. Ao chá, depois do jantar. Na sala. E o cão dormitava. Com alguns maridos a vida era mais movimentada do que com outros, o Michel Strogoff, porque fora e dentro era de dois juntos, também gostava disso, além do que, a Hermes Baby era portátil, tinha uma alça, era leve e cor de laranja. Uma malinha, se a casa era viagem, quando íamos juntos para fora, uma mesa, duas cadeiras em qualquer lado do mundo há, contar de tudo, ouvir de tudo, em qualquer lado do mundo se pode, eu escrevia histórias para dentro porque o estrangeiro era muito longe e Portugal, decerto, haveria de querer saber de fora. A casa não tem um pequenino jardim, uma árvore grande à sombra da qual. Uso ténis vezes de mais, penteio-me vezes de menos. Não uso saias. Mas a verdade é que também não fumo. Tenho um portátil Toshiba cor de laranja e à noite, depois do jantar, enquanto tomo chá, o cão dormita.

















Sabe, Eugénia, que o Picasso tinha um cão que lhe comia os desenhos, tal e qual como o seu cão literário? E olhe que o Picasso também maridou muito, em período azul, rosa e com cubistas demoiselles.
Mesmo se um Toshiba cor de laranja não tem a poética de uma Hermes Baby (nada voltará a ter a poética de uma Hermas Baby) não pode dispensar a árvore grande e a sombra, cenário certo para cabelos que recusam escova. Escreva mais memórias destas “explica maridos”.
Eugénia de Vasconcellos,
A sua era mesmo, mesmo, como a da foto, tão linda e mignonne? Peça de exposição, só lhe digo.
Está explicado o mistério dos seus vícios: São laranja (como jindungo), chamam-se “Toshiba”, e são portáteis…
Eugénia, que bárbaro!!! Eu nunca parei para pensar no que eu quis ser quando crescesse. Quebrando a caixola e tentando voltar no tempo percebo que eu não tinha sonhos de me casar. Nas minhas projeções para o futuro eu viajava pelo mundo que eu via na televisão e nas páginas coloridas da National Geographic. Eu pensava em garotos e tinha ídolos, mas sem muito comprometimento.Acabei de realizar que muito menos pensava em ter casa e filhos. No máximo, um terreno bem grande cheio de animais vivendo livres.Eu inventava que escrevia livros e revistas.Eu criava “bonecos” com colagens e canetinhas coloridas.
O tempo passou e eu me casei. Não sou de usar vestidos, nem saia.Uso muito tênis e calças confortáveis.Viajei só à passeio.Fotografo por puro prazer.Fumei, mas parei.Cães, gatos e passarinhos me fazem companhia nas raras vezes que fico em casa, mas todos livres de gaiolas, cercados e correntes.Escrevi muito e até em revistas, mas nunca escrevi um livro, embora tenha uns 3 começados.Faltam-me ainda uns anos de bagagem, quem sabe quando eu chegar aos 45 ou 50.Ainda tenho um tempinho…
O cão dormita pensando como a vida dele é exactamente como a sonhou. Mas claro que ele não sabe como teria sido divertido comer papel químico.
Revi a tua avó com o seu azul profundo olhar, a cabeleira farta e o cigarro na ponta dos dedos. Vi-te de novo naquele tempo em que tu pequena apesar de tão crescida saltavas à corda e jogavas ao elástico no recreio do colégio. O mini azul (seria azul?) da tua mãe a ir-te buscar. A bata branca, aberta à frente, com os botões do lado esquerdo, o último por abotoar. Eugénia, gostei tanto, mas tanto, deste post. Comovi-me nesta viagem ao passado, tão longínquo quanto próximo.
Um dia quando formos grandes…
Os meus maridos eram cosa mentale, Manuel Fonseca, e o Picasso era um devasso! Só lhe perdoo porque desgosta de verde, escreveu belos textos com a sua HB e já me fez rir com o “explica maridos” — na Mátria fiz posts para cada um dos meus maridos, a começar pelo Che e pelo Fantasma.
Orcama, olá. A minha HB foi presente do meu avô pelo exame da quarta classe. É igual a esta e parece novinha. Gostei tanto de a receber que, quando lhe tirei a tampa, e ainda antes de a estrear, lhe dei um beijinho no teclado.
Turmalina, em casa rodeada de cães, gatos, passarinhos… então tem jardim ou quintal. Que bom!
jaa, o meu cão deixa de ter vida que sonhou assim que entra no cesto da bicicleta! Mas eu ofereço-lhe escolha, digo-lhe sempre: podes ficar em casa, Cão.
Maria João, merci. Esse carro da minha mãe, foi o que mais gostei. E era verde! Tinha uma risquinha preta, o tablier em madeira e um volante pequenino.
Um dia, quando formos grandes…
Eugénia de Vasconcellos,
Mas que menina precoce!!! Na idade em que era ainda normal as bonecas, o ringue, a corda…
A mim calhou-me uma Parker 21, daquelas que em Las Palmas à chegada do barco custavam 100$00 e, à largada, vinham cinco pelo mesmo preço!…
Deixe lá, naquelas idades e tempos, todos tivemos, cada qual à sua maneira, um fraquinho pelo “Che”.
A sua amiga Maria João, não lhe agradeceu ainda pelo bonito e elegante apelido que lhe arranjou — Cayenne. Está no top dos que, de brincadeira, já apareceram neste blog.
Orcama, realmente tem razão, não agradeci à Eugénia o ter-me re-baptizado. Agradeço-lhe a si a lembrança, agradeço-lhe a ela agora:
Eugénia, como o Orcama diz Cayenne é bonito e elegante. Além disso picante. Não o recuso, adopto-o.
Nesse caso, não posso mesmo recusar. Serei o padrinho.