Por pintar ficaram memórias amarelecidas e pontas de cigarros caídas um pouco por todo o lado. Vasos de plantas murchas numa desordem macabra. Velhos discos sem capa e um par de peúgas coçadas, plantado ao acaso por baixo da cama. O ar pesado e incrivelmente triste. Lá fora era Agosto e Lisboa sufocava. Por todo o lado cheirava a sopa.
O tempo corria desordenado no relógio da lareira. Devagar umas vezes. Quase parado. Acordava aqui e ali sem razão e, num repente angustiado, galgava minutos no espaço de segundos. Seis, sete, por vezes vinte.
Do outro lado do quarto tinham ficado por arrumar uma dúzia de cartas escritas num papel melancólico. Abertas ao acaso, pareciam querer soltar de um jorro as histórias sem tempo que tinham para contar. As viagens, as doenças, as ridículas declarações de amor e as linhas tristes em que o azul da caneta se tornava mais escuro. Mas no ar pesado da tarde os seus gritinhos de letras antigas perdiam-se, abafados pelo calor.
Conhecia-as tão bem que poderia recitá-las. Assim houvesse alguém no Mundo que quisesse ouvi-las. E entre todas, preferia a que recebera no fim daquele outro Verão sem data. As histórias de umas férias no mar. A banhos em S. João do Estoril. O cheiro da areia. As bolas e as incríveis caixas de tabuleiros sobrepostos onde se escondiam. As noites sem lua, o farol do Bugio e aquele velhíssimo rafeiro de três patas que o Rapaz jurara ter ouvido falar numa madrugada de Inverno. E acima de tudo aquela revelação silenciosa, mais cá para o fundo da página. Tímida, quase escondida. «Hoje na praia deixei-me dormir e sonhei contigo».
*Fiz batota. Reciclei um texto antigo que estava à espera deste quadro para ganhar sentido. A maldição do Manuel já não quer nada comigo.


















A maldição do nosso Manuel Fonseca há-de querer alguma coisa consigo, sim, caro Pedro Norton: a quem, dentro ou fora deste cemitério, é que propôs o Hopper?
Acho que vou propô-lo ao Diogo, ao Vasco e ao Francisco que andam a ver se passam desapercebidos.