59 Correspondência

Pintura de Marlene Dumas

Poderia esconder-me atrás do Camera Lucida, de Roland Barthes, já que nele a fotografia e a morte andam de mãos dadas. Mas não. Uma nota breve, apenas. Andres Serrano fotografa cadáveres. Sem abrigo. Casais que têm sexo em lugares públicos, furtivamente. Objectos de culto religioso imersos em urina. Usa sangue menstrual, saliva, sémen. Fezes. Próprias ou de outrém. Chama-lhe arte. Concedo que arte exista, em sentido muito lato: a arte de se fazer passar por aquilo que não é, um artista. Degas, que estudou cadáveres, esfumou a morte em erotismo, mesmo em auto erotismo,  os mesmos  erotismo e morte que Marlene Dumas explicita até à fronteira. Antes de Andres Serrano, outro artista, Kohei Yoshiyuki fotografou, também, casais em parques, com infravermelhos. E escusado será dizer que as crianças encontram no cocó, lápis de cor, e nos azulejos da casa de banho, tela. Ou que os adolescentes espreitam, pelo menos, todos os odores do próprio corpo. A arte visa a transformação, não a reciclagem. José Navarro de Andrade, olhe que o rei, Andres Serrano, vai nu.

Comentários a “59 Correspondência” (5)

  1. António Eça diz:

    Dramaticamente de acordo — em tudo, e daí o dramatismo. Particularmente na questão da reciclagem, e também porque roubar (ponha-se-lhe aspas) não é o mesmo que produzir — embora exista muita gente de números que ache que sim. Mas confesso o meu conservadorismo nessa matéria: se nem das serigrafias do Warhol gosto…

  2. António Eça diz:

    (Chamam-se ‘múltiplos’, não é?)

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Dois conservadores, então, caro António Eça…

  4. Orcama diz:

    Posso juntar-me ao grupo? Então aqui vou, com licença. Não obstante a serena e inocente candura da 1º foto do “Finados 01″. Tocou-me.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Welcome.

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