
Pintura de Carlo Crivelli
Porque Ele viria, primeiro, e porque veio, depois, encheu-se a iconografia dos pássaros que debicavam a sua própria carne para alimentar as crias, come feast on my body, ou, solenemente, este é o meu corpo entregue por vós e o sangue da nova e eterna aliança. Tudo isto Ele fazia porque o reino Dele não era deste mundo — quando o disse, nos mapas imprimiram-se, entre o artifício dos fogos, impossíveis jerusálens celestes. Mas o meu reino, toma-o, é só deste mundo, pequeno, nem florestas, apenas matas. Os frutos não exalam perfumes: nos pomares, só aroma. Da maresia, o odor. Assim, dou-te a boca para a beijares e a mão para me dares a mão.

















O aroma é, cara Eu-génia, de Cântico dos Cânticos. Crivelli saberá porquê, lembrei-me de Salomão e de a Sulamite o ouvir sussurrar:
“Como és bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeceira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas sempre juntas.”
Não admira que quisesse Sulamite que ele a beijasse com os beijos da sua boca, amor melhor do que o vinho.
Não tendo a erudição do sussurrante Manuel “Salomão” Fonseca e, sendo quiçá um espírito mais prático, apetece-me cometer o supremo sacrilégio de alterar a última frase, por uma questão de decorosa precedência. Ficaria deste modo:
“Assim, dou-te a mão para me dares a mão e dou-te a boca para a beijares”
Desculpe-me a Autora, mas o mal já está feito.
Sabe, Manuel Fonseca, que tenho uma linda edição do meu Cântico dos Cânticos? Com tradução de José Tolentino Mendonça e desenhos de Ilda David.
Estimado Orcama, não soube, verifico, expressar adequadamente o que pretendia: o amor, a boca para ser beijada e a vida comum de dois que se amam, dar a mão.