Malvadeza, malvadeza, Manuel «Mad Hatter» Fonseca, era perguntar quem é que, neste blog, está em condições de jurar (mas de jurar mesmo, mesmo) que hoje NÃO vai à festa de desaniversário que você está aqui a organizar. Eu estou, por uma vez, de consciência tranquila.
Arquivo | Novembro de 2009
Parece que hoje há festa na Sardenha.

A música, como é dos usos e costumes, precede a aparição da Santa.

Santa que é como quem diz: quando inventaria, e inventaria bastante, a santa da Sardenha é de ataques fulminantes.

Mas porque é que haverá hoje festa e bolo na Sardenha?
ps — fotos do livro SAGRE riti e feste popolari DI SARDEGNA.
A referência de Pedro Norton ao próximo lollipop de Tim Burton, “Alice no País das Maravilhas”, e a imagem da Rainha Vermelha, Helena Bonham Carter (também soberana nos sonhos terrenos de Burton), fez-me lembrar isto

“The Red Shoes”, Michael Powell e Emeric Pressburger, 1948
E isto

“The Wizard of Oz”, Victor Fleming (e Cukor, e Le Roy, e Vidor), 1939
Mas pode ser apenas um gosto suspeito por sapatos cor de cereja ao sol.
Mas já é insuspeita — pelo menos para mim — a filiação de Burton, criança grande, na milenar alquimia do conto de fadas, num caminho de pedrinhas que começa, pelo menos, em Ésopo (e não será o “Épico de Gilgamesh” um fairy-tale patriarcal?)
Ao lume dessa alquimia, e no teatro de sombras que do seu fumo deriva, não se devem esquecer os dotes encantatórios de Lotte Reiniger, que fugia aos nazis no seu país natal quando um certo Walt Disney os elogiava do outro lado do Atlântico.
Dois anos antes de Disney (e do seu alter-ego benigno, Ub Iwerks), Charlotte Reiniger, de Berlim-Charlottenburg, já lançava uma obra-prima, “Die Abenteur des Prinzen Achmed”, baseada na história da carochinha para adultos, “As Mil e Uma Noites”, cujo manto Scheherazade soltou sob o sheik Shahriar.

“As Aventuras do Príncipe Achmed”, 1926
Antes e depois, Lotte aplicou as técnicas de luz e sombra, inventadas pelos chineses no século XI, aos textos (i)morais de Hans-Christian Andersen (de onde Pressburger adaptou o “Red Shoes” de Powell, e onde L. Frank Baum e Arthur Freed foram buscar os sapatinhos encarnados de “The Wizard of Oz”), Hugh Lofting (pelas diatribes do Dr. Doollitle), Perrault (“A Bela Adormecida”, que Lotte reinventou duas vezes, em 1922 e 1954) e, por fim, dos Irmãos Grimm.
No percurso de Burton, não é difícil encontrar pistas, reais ou imaginadas, de “O Príncipe Sapo”, “O Pequeno Alfaiate” e, sobretudo “Hansel e Gretel” — tanto Frankenweenie como Eduardo Mãos de Tesoura se perderam na floresta, e não há caminho de retorno a casa.
No lugar dos pés, encantados, Lotte ousou as mãos, mais adultas, deliciadas.
Mas no entendimento da perversidade, e na compreensão plena do impacto da infância nas acções dos homens, Burton e Lotte viam com os mesmos olhos, à sombra da mesma árvore.

A love story.
Um original de Jacques Brel, La Mort, deu lugar a este My Death de David Bowie, versão rara e de importante valor simbólico. Rara porque não existe qualquer registo seu em estúdio mas apenas em dois álbuns ao vivo de Bowie, Ziggy Stardust Motion Picture e Santa Monica Live ´72. E muito importante, do ponto de vista afectivo e simbólico para Bowie, porque marcou a morte da sua incarnação Ziggy Stardust. Segundo se conta, o vídeo é o da última apresentação ao vivo de Ziggy em 1973, e My Death foi mesmo o tema derradeiro desse espectáculo. Não custa acreditar, por isso, que a lágrima que lhe corre do olho direito, enquanto a voz se vai apagando, representa o seu estertor final.
My Death
David Bowie
(original de Jacques Brel)
My death waits like an old roué
so confident I’ll go his way
whistle to him and the passing time…
My death waits like a bible truth
at the funeral of my youth
weep loud for that -
and the passing time…
My death waits like
a witch at night
as surely as our love is bright
let’s not think about the passing time
But whatever lies behind the door
there is nothing much to do…
angel or devil, I don’t care
for in front of that door…
there is you.
My death waits like a beggar blind
who sees the world through an unlit mind
throw him a dime
for the passing time…
My death waits there between your thighs
your cool fingers will close my eyes
lets think of that and the passing time
My death waits to allow my friends
a few good times before it ends
so let’s drink to that and the passing time
But what ever lies behind the door,
there is nothing much to do
angel or devil I don’t care
for in front of that door… there is you
My death waits there among the leaves
in magicians mysterious sleeves
rabbits and dogs and the passing time
my death waits there among the flowers
where the blackest shadow, blackest shadow cowers
let’s pick lilacs for the passing time
My death waits there, in a double bed
sails of oblivion at my head
so pull up the sheets
against the passing time
But whatever lies behind the door
there is nothing much to do
angel or devil…i dont care
for in front of that door
there is… Me.
Não sei se diga rouca se diga transgressora. Por muito que goste dela, e gosto, Chavela não é a minha cantora de boleros favorita, mas é a que tem a biografia mais excitante. Muito mais homem do que mulher, Chavela vestia calças, poncho vermelho e pistola à cinta. Charuto na boca, saía, num tempo em que as mulheres não conjugavam o verbo, com o alcalde de su ciudad y otros amigos pelas mais nocturnas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e disparava, antes ou depois, sobre o que eles disparassem. Terá dormido com mais mulheres do que eles todos juntos o que, mesmo que não seja verdade, também não é uma rematada mentira. Womanizer sem desculpa, foi o que foi.
Fez um tremendo sucesso com as suas rancheras, mas o que a ela me faz voltar e tantas vezes, é a sensibilidade dos boleros. O êxito fê-la saltar da ciudad para o mundo, Europas e Hollywood. Não deixou, por isso, de ser o homem que era, mulher portanto, roubando dos outros homens belas mulheres que nunca quiseram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brincado com bonecas. Dizem que beijou a boca fresca de Ava Gardner que a ela (ou ele?) se terá rendido de tiro e queda. Boa pontaria, digo eu. Agora, apareceu uma carta de Frida Kahlo a confessar tremores e olhar nublado: “…es erótica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escreveu a pintora em carta acabadinha de descobrir e que acusam de apócrifa.
Será, mas apócrifa é tudo o que não é a estarrecedora interpretação da canção que a Frida sempre La Chabela dedicou. La llorona que se pode ver e ouvir abaixo
Chavela tem agora 90 anos. Continua a gostar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira.
Um dos museus de que mais gosto no Mundo é o Museum of Fine Arts de Boston. «Petit nom»: MFA. Mas só para «bostonians». Dir-me-ão que é uma escolha bizarra. Que se encontra muito melhor, no Novo e no Velho Mundos. E eu digo-vos que sim, que têm toda a razão. Mas sabem que mais? Nesta matéria quero que se lixem todas as opiniões mais cultas do que a minha. Porque há uma coisa que toda a erudição do Mundo não chega para saber: muitos Sábados depois daquele Sábado em que, pela primeira vez na vida, visitei um Museu guiado pela mão do meu pai, jura-me a minha memória que foi em Boston que voltei a visitar um Museu de mão dada. As mãos, bem entendido, eram outras. A que dava e a que se dava. A felicidade pendurada nas paredes de Boston não era já, como na Lisboa de outros tempos, um óleo de orgulho infantil. Mas que era felicidade da mais pura, isso posso garantir-vos de ciência certa.
PS: Tenho também bons amigos feitos dessa memória de felicidade bostoniana. Um deles está pendurado neste Blog.
Se há alguém que merece entrada directa na nossa galeria de notáveis de Gente (bem) Morta, é Quincas Berro d´Água. Na vida, com a honrosa excepção de grande bebedor de cachaça que lhe trouxe a alcunha, não se distinguiu especialmente. Mas na morte, sim, foi um recordista absoluto: três vezes — três – Quincas se finou para o mundo. E só na última das mortes se deixou ficar bem morto porque só então morreu como queria, longe de todas as convenções sociais que ele repudiara naquele dia em que saíra de casa para comprar fósforos e não mais voltara, deixando para trás uma vida pacata e cinzenta — onde o formalismo e a aparência imperavam — dedicada à família e ao emprego de funcionário público.
Depois da partida sem aviso prévio, foi tal a entrega de Quincas a uma vida indecorosa, feita de devassidão e ressacas em tabernas e prostíbulos, que a sua família abandonada e temente a Deus, para evitar falatório, o declarou oficialmente morto. Para ele Quincas, foi essa primeira morte – a morte moral – que, paradoxalmente, o fez nascer para a vida. Para a vida e em especial para a cachaça, que passou a merecer-lhe um amor que foi crescendo na exacta proporção em que aumentava a repulsa pelo mais sensaborão dos líquidos, a água claro está. Uma tarde, depois de uma caminhada bem íngreme, Quincas levou à boca um trago de água, julgando tratar-se da sua muito querida cachaça, soltando o tal “berro d´água” que, por se ter ouvido em toda a cidade de Salvador da Bahia, ficou para a história.
Muitos litros de cachaça depois, Quincas acabou por ser encontrado sem vida, no quarto imundo para onde a sua morte moral o empurrara. A família, para quem ele já não existia como ser vivo, tratou de resgatar o cadáver assim que o viu morto de verdade, não fosse Deus lembrar-se de a punir pela falta de um enterro decente a quem era sangue do seu sangue.
Mas ainda faltava uma morte à contabilidade oficial. Os seus companheiros de boémia nunca poderiam permitir que Quincas morresse segundo as convenções. O mínimo era oferecer-lhe uma última noite de farra, nos “bas-fonds” de Salvador que constituíam o seu ambiente natural, partilhando mais uma bebedeira com as prostitutas e os meliantes que se tinham tornado na sua família adoptiva. E assim foi: esses seus companheiros, que já não distinguiam um morto de um vivo de tão afogados pela bebida estavam, lá levaram Quincas, uma vez mais, para perto dos seus, transportando-o da solenidade e rigores do levório para onde ele se sentia verdadeiramente livre e autêntico. Depois das rondas habituais, lá acabaram todos num barco, com as companhias que Quincas tanto apreciava. Para a intensidade do momento ser perfeita, não poderia faltar a natureza, que ajudou à festa com uma violenta tempestade e que satisfez a Quincas o seu desejo de sempre, o de ser enterrado no mar, onde morreu, agora sim, de vez e como ele queria.
Pouco importa que Quincas, ou Joaquim Soares de Cunha que era o seu nome de baptismo, nunca tivesse existido de verdade. E, pouco importa que, segundo a ciência médica, duas das mortes fossem um tudo ou nada adulteradas pela pena de Jorge Amado, que o imortalizou na novela A Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água (a que, em rigor, se deveria ter chamado A Morte e a Morte e a Morte de Quincas Berro d´Água), que, com As Aventuras e Desventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso (uma das outras histórias que a minha memória guardará para sempre, e a que talvez aqui volte um dia), formou um dos seus livros míticos, Os Velhos Marinheiros. Quincas não era adepto de regras e rigores, como vimos, e não ficaria bem ao seu pai amarrá-lo a cânone algum — médico, teológico, literário ou qualquer outro. Afinal de contas, era da Liberdade (contra o preconceito) que Jorge Amado nos estava a falar.

Cinema sobre cinema sobre cinema sobre cinema sobre cinema.….

Itay Talgam
Nas estantes do meu escritório, têm-se vindo a acumular nos últimos anos, dezenas de livros e dossiers, que uma vez lidos atentamente deveriam fazer de mim o “Ultimate high impact leader”. Excitantes e fantasiosos títulos como “Standards of Leadership”, “Personal Effectiveness and Impact”, “Performance Management” e “Effective Delegation” são só alguns exemplos dessa disciplina, Organizational Behaviour, que no entretanto, se transformou numa quase ciência e que é hoje ensinada nas melhores escolas de gestão de todo o mundo. Atrás dela, descobriu-se também todo um filão “literário” que rápidamente invadiu o mercado e que é hoje, na minha opinião, umas das razões para a enorme confusão que reina dentro da cabeça de uma grande parte dos gestores, no que se refere à sua capacidade de estabelecer um equilíbrio minimamente produtivo entre autoridade e delegação, direcção e motivação ou à sua capacidade de efectivamente conduzir os outros para onde quer que seja que têm de ir.
Itay Talgam, um famoso maestro Israelita dotado de um infinito talento musical e de um finíssimo humor, decidiu especializar-se (ganhando seguramente muito dinheiro com isso) nesta obscura disciplina de Organizational Behaviour, e recorre nos seus “talks” à metáfora de uma orquestra e da sua dinâmica para dissecar e explicar aquilo que se passa quando alguém pretende comandar ou dirigir projectos, negócios, organizações ou até quem sabe, o governo do mundo.
Estou a pensar queimar numa grande fogueira todos os meus dossiers e livros e comprar um bilhete de avião para Tel aviv.
Gabrielle d’Estrées, era a favorita do rei e o rei era Henrique IV, convertido ao catolicismo para que pudesse ser o primeiro dos Bourbons a reinar em França. Gabrielle é a figura feminina que vemos na pintura, à direita. E quem, no banho, lhe aperta a tumescente doçura não é a mão do rei, mas só os inócuos dedos (indicador e polegar) da duquesa de Villars, sua irmã.
A beleza das duas mulheres, a intimidade sáfica que emana do quadro, faz dele uma obra-prima. Sabemos, para quem se preocupe com autorias, que pertence à escola de Fontainebleau e deverá ter sido pintado em 1594.
O gesto da duquesa requer, dir-se-ia, explicações. A interpretação triunfante é de natureza simbólica: a insólita carícia que o quadro retrata seria a celebração da maternidade de Gabrielle. Os dedos da duquesa apertam o mamilo de uma grávida, o que a doméstica ao fundo, a costurar roupa de bebé, vem confirmar. Rendo-me: a delicadeza dos movimentos e dos olhares convida-nos, com gravidez ou sem ela, a só tocarmos neste quadro com gravidade e pinças.
Olhando, com vagares que o turista do Louvre não tem, vemos que o artifício das teatrais cortinas contrasta com o realismo da iluminação, luz natural que entra pela esquerda – mas como é que chega tão límpida e exterior a esta recôndita câmara em que duas mulheres se banham?! Seja como for, aceites todas as convenções de trompe l’oeil em que o quadro é pródigo, há um pormenor deslocado que me provoca inexplicável sobressalto – não, não é o anel que, não no dedo que é deles se enfiarem, Gabrielle exibe na mão esquerda parecendo sossegar-nos quanto às futuras intenções de um rei que, por falar em mãos, morreria às de um fanático católico numa rua de Paris. O deslocado pormenor a que me refiro é o quadro que está em “arrière-arrière plan”, por trás da modesta costureira, sobre a lareira, e no qual uma cortesã exibe o potencial dos seus favores em propícia abertura de coxas.
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Audácia da mão esquerda do pintor a sublinhar a ilicitude que a mão direita não podia em primeiro plano pintar: Gabrielle d’Estrées prometida rainha, influenciou a corte e comportou-se nela como soberana, sem que nunca o tivesse chegado a ser. Morreria, com o feto, no parto prematuro. Teve funeral de lapidar majestade: Henrique IV, que a amava em público e em privado, ajoelhou-se e a corte com ele num sentido Requiem na Basílica de Saint-Dennis.
O quadro do banho de Gabrielle e sua irmã foi objecto de cópias e pastiches:
Este que se expõe no Museu de Belas Artes de Lyon
Ou o que Alain Jaquet, “pop artist” francês que em NY andou pelos lados da Warhol e Lichenstein, pintou, dando-nos moderna e desencantada Gabrielle d’Estrées que, com a original, tem agudas dissemelhanças.
Paródica embora, a liberdade fotográfica deste extremo exemplo oriental saúda também a grandeza inatingível dos mestres de Fontainebleau
























