THIS MORTAL COIL. Uma expressão shakespeariana e um nome perfeito para Gente Morta. Nome e não só. Hino e banda sonora também. Talvez a melhor alternativa à beleza do silêncio. Um defunto projecto musical, criado nos malditos anos 80 a partir da nata da mítica editora 4AD, também já dada como morta e recentemente ressuscitada. Uma voz feminina, Elizabeth Fraser, por alguns já considerada a maior de gente viva do planeta, naqueles tempos com morada permanente nos Cocteau Twins (também editados pela 4AD) e que, a espaços, podemos ainda ouvir nos Massive Attack. Uma canção extraordinária, Song to the Siren, que, na versão dos This Mortail Coil, consegue ser – coisa rara — incomparavelmente superior ao original do desaparecido Tim Buckley (ao ponto de, para muitos, este dever a sua notoriedade, não só ao seu malogrado e hipervalorizado filho Jeff, mas a esta versão também).
Esqueçam a pouca sofisticação do clip e o visual, hoje em dia aberrante, de Liz e de Robin Guthrie, seu companheiro nos This Mortal Coil e nos Cocteau Twins: estávamos em 1983, e os vídeo-clips ainda não tinham sido elevados à categoria de arte. Deixem a voz de Liz fluir e a guitarra de Robin tocar e os mortos ressuscitarão durante 3 minutos.

















conhece o recente projecto ‘this imortal coil’, constituído por covers de composições deste grupo interpretada por gente como yael naim e yann tiersen?
Não conheço e agradeço-lhe a informação. O respeito que tenho pelo Yann Tiersen alimenta-me a curiosidade. Na certeza, porém, que os covers dos This Mortail Coil serão sempre superiores aos originais que os precederam e aos covers que se lhes seguiram…
Estávamos em 1983, é verdade, reouvindo isto regresso lá, uma janela sobre um pomar, noite dentro a ler uma sebenta (como é que se permitia o ensino daquele desamor aos livros que era só existirem sebentas, impressas em stencil com as letras cada vez mais gastas, como o vestido da mulher da canção do Chico Buarque que esperava sentada na pedra do porto com o seu único e velho vestido cada dia mais roto). Coimbra 1983, uma chávena da chocolate quente, Castanheira Neves e This Mortal Coil, all night long e que longas eram essas noites.
Como eu te percebo, Tiago. Eu também, alguns anos depois, passei muitas noites com essas sebentas na mão na companhia dos This Mortail Coil, dos Cocteau Twins e dos Dead Can Dance (para só falar da gente ilustre da 4AD)…
E os mortos ressuscitaram por 3 minutos…
Ainda guardo dois dos três álbuns, “It´ll End in Tears” e “Filigree & Shadow”, do Rolo Mortal em vinil. Era b.o. exemplar para a suave morbidez da adolescência, mas convinha não a ouvir no Walkman quando nos acercávamos de ravinas, falésias ou escadarias… Elizabeth Fraser continua a ser uma favorita voz além-túmulo.
palavras acertadas…
e no que toca a covers de «song to the sirene», ainda assim, prefiro a versão dos czars: http://www.youtube.com/watch?v=s25qNGu8F_Y.
(o vídeo tem por protagonista uma escultura de antony gormley: http://www.antonygormley.com/)
Não sei se os mortos ressuscitaram… Mas sem dúvida ressuscitou em mim memórias quase perdidas… As coisas que acontecem quando se têm um irmão 7 anos mais velho: nesta altura encerrava precocemente a minha infância com estas (e outras) doces notas. Obrigada, Diogo.