Sobre a cegueira
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José Saramago
por Enric Vives-Rubio

O sr. José Saramago investiu-se da missão de nos libertar dos males do mundo. O método de que faz uso tem ressonâncias bíblicas, pois implica a revelação lúcida dos factos, num primeiro passo, a tomada de consciência da sua maldade, num segundo, e a denúncia activa desses horrores, num terceiro. Era mais ou menos assim que procediam os iluminados e profetas da Galileia, ao tempo de Augusto.

Houve tempos em que o sr. José Saramago nos propunha um quarto passo, e mais os outros todos que faltavam na vigorosa senda de um “Mundo Melhor”. Mas alguns milhões de mortos depois, a coisa não era bem assim e o Escritor já não fala muito disso.

Há quem ache que escritor & profeta fazem uma mistura perigosa. Sobretudo porque os vaticínios produzidos tendem para o dislate e os vocativos para a sobranceria. E a amalgama destas duas atitudes, essa sim, é de todo horrífica.

Quem passa o seu tempo encerrado numa ilha negra, a ler muito e a escrever ainda mais – e é assim que tem de ser, porque não é outro o trabalho de um escritor – não terá grande maneira de conhecer e participar nas coisas que vão decorrendo no mundo. Faltar-lhe-á muita praxis como se dizia nos tempos em que o Sr. Saramago ainda tinha esperança.

Talvez, então, por via do seu extremo isolamento, o sr. Saramago vem-se dedicando a actividades terrivelmente escolásticas, como ler aquele livro de histórias da Idade do Bronze a que se chama Bíblia. Nisso estacionou no mesmo comprimento de onda que os perigosos literalistas da extrema-direita americana, gente que deve ser combatida para fora da Cidade com os bons argumentos da ciência e da liberdade. Mas há nos Estados Unidos quem nos faça essa luta, com grande intelecto e sabedoria. E até têm levado a sua (nossa) avante, com belos resultados, mesmo que as cegueiras do sr. Saramago o distraiam destas vitórias.

Não é o Livro, são as Suas prescrições morais e, sobretudo, o que fazem aqueles que as seguem. Como se pode ser Bom se a Lei é má? Eis a questão que atormenta José. E para respondê-la elege como inimigo primeiro, mais perverso e mais perigoso, a Igreja, tanto a Católica como as outras da cristandade.

Curiosa escolha.

Pois não foi precisamente essa cristandade quem mais empurrou as religiões para fora do poder Temporal? Não é um facto histórico que aquilo que se chama Modernidade foi esse movimento de laicização do estado e da sociedade? E que tudo isso foi obra de uma civilização, a Ocidental?

Surpreende pois que o sr. Saramago, em vez de invectivar o monstruoso fundamentalismo islâmico, pelo modo como desumaniza as mulheres, proscreve as artes figurativas, censura o pensamento científico; em vez de denunciar com necessária lucidez as barbaridades sociais do hinduísmo, com a sua multidão de intocáveis; em vez de se encarniçar contra todas aquelas religiões não-Ocidentais ou anti-Ocidentais, nenhuma delas menos obscurantista que o cristianismo, qualquer uma bem mais repressiva do que a que nos coube em sorte; em vez disto, o sr. Saramago incomoda-se com as alegorias bíblicas, com os ditames daquele Deus dos desertos, esquecendo que essas gravuras rupestres já muita teologia as recobriu e ainda hoje se vai fazendo. Apesar de tudo, o nosso Deus é o menos mau dos deuses.

Eu sou um ateu medular. Mas tenho a graça de viver numa civilização em que a Igreja não incomoda salvo algumas questões – sim, a luta continua… Porque havia de morder a mão histórica que me ofereceu tamanha e inusitada liberdade? Não faria eu melhor defendê-la dos seus inimigos? Não seria acto de generosidade ajudar outros povos desse grande mundo a alcançá-la?

Deploremos o sr. José Saramago, ele vive isolado no meio do mar, rodeado dos fantasmas que criou, cercado pelo passado que ruiu. Lembra uma personagem de Tomaz de Figueiredo.

Comentários a “Sobre a cegueira” (8)

  1. António Eça diz:

    Acabei de ler ‘Zaratustra’ há umas semanas. A ver pelas inclinações mais ortodoxas de Saramago (ressalvando o facto de ter lido e gostado do ‘Memorial’ e da ‘Cegueira’, que são livros bem diferentes) não restam grandes dúvidas sobre o anacronismo do nosso escritor-profeta em função do tema bíblico. Vem com quase 200 anos de atraso. A excisão não o preocupa? Claro que não! Porque isso é de outro mundo — e com esse ele não se mete, não lhe vá acontecer o mesmo que a Salman Rushdie…
    No entanto tudo tem o seu quê de perverso — chamemos-lhe: embora tenha apreciado os fundamentos da sua crítica apriorística (suponho que não leu ‘Caim’), o facto é que fiquei curioso da manobra ‘espiritual’ de Saramago. Fatalmente irei ler.

  2. O caso deste escritor que nestes dias acaba por preconizar o fim da sua própria pátria de nascimento, parece intencional, decorrendo normalmente de um percurso de vida pautado pelo endurecimento da convicção num destino de predestinado e ao encontro daquele que afinal foi o verdadeiro Mito do Século XX. Pouco lhe importam as histórias, os contos, as experiências e desejos individuais ou colectivos — estes stricto sensu, há que frisar — dos homens que fizeram a pequena e a grande História. O devir de uma supersticiosa certeza, numa constante e maniqueísta liquidação de “inimigos de classe” — descurando assumida e completamente as realidades da inter-permeabilidade entre algumas ou todas -, conduz ao dogma que impõe a destruição do outro. Um dos derrotados do século — e aqui já o alçamos a um muito contestável estatuto que pouco interessa reconhecer ou não -, Saramago finge não ter compreendido a vastidão imensurável de um legado que antes de tudo tenta impor regras onde o conceito de Bem pode ir-se adaptando aos novos tempos e realidades que a sucessão de gerações infalivelmente estabelece.

    Para Saramago, a Bíblia parece ser um …manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana… Curiosa conclusão que não atende à realidade de outras épocas e á própria necessidade de afirmação da certeza de pertença a um determinado grupo. Apesar disto, não existe vivalma sobre este planeta, que jamais tenha escutado uma só palavra do escritor, acerca dos manuais de brutalidades, das cartilhas que impõem pela mais iconoclasta violência, a “construção científica” de um outro homem, tão desumano como Moloch ou tão escravizado a uma quimera como os ilotas. Saramago nem sequer dá conta da clara cópia do preceituado necessário à construção do seu Novo Templo, de uma religião tão tingida de vermelho como as escadarias sacrificais dos aztecas. Pouco lhe importam que as estórias — disso não passam — edificantes da sua religião versem a denúncia, a opressão do imaginado inimigo ou a acefalia geral em benefício de um imposto dogma. A visão da certeza, do Bem estabelecido pelo Caim da sua Verdade, exclusivamente pertencerá aos eleitos, aos poucos que escolhidos inter-pares, decidem pela amorfa e anónima soma de números em que a humanidade obrigatoriamente se torna, anulando-se como motor da continuidade da própria História.

    Agarrado ao encharcado lenço de uma derrota que jamais esperou ver chegar, pouco mais resta ao escritor premiado com o Nobel, senão aferrar-se à sua grande certeza: a metálica matéria. No seu caso, o ouro, não em forma de bezerro, mas da vaidade que lhe garante um final confortável e feliz.

  3. manuel s. fonseca diz:

    ZN, sei que não precisas, mas é só para te dizer, em fim de tarde, e enquanto não vou ali beber um copo, que achei excelente de bem fundada a argumentação e elevado o estilo.

  4. JP Guimarães diz:

    Manuel, eu cá sem estilo algum — mas com alguma fundamentação — repito apenas deploremos o saramago (sem “sr.” que, para mim, jamais mereceu ou merecerá).

  5. ana diz:

    Folgo que leias Tomaz de Figueiredo

  6. Sabina diz:

    Uma das melhores opiniões sobre a polémica.

  7. Orcama diz:

    “E agora, José
    …José, pr’a onde?“
    Como dizia Drummond.
    Agrada-me quase tudo o que aqui li. Agora, aduzir argumentos sem ler as razões…parece-me intempestivo.
    Já sem sr., tudo bem, agora quanto ao merecimento, transcende-me.
    No que toca à praxis e à respectiva teoria, isso seria toda uma outra discussão. Faz o que eu digo…

  8. Vejo Saramago como um monge ateu atormentado pelo místico, obcecado pelos dogmas, pela soturna aura dos míticos templos do velho livro. Como um sacerdote, atormentado pelo desejo da carne, saramago é um monge da negação, atormentado pelo desejo místico. Por isso, lhe atormenta tanto, lhe ocupa todo o tempo, por isso , nega tanto.

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