Raul Solnado

Pensei que não reproduziria neste blog textos do Mátria Minha. Pensei que daria continuidade a séries anteriormente iniciadas, que criaria novas séries, textos de fresco. Enganei-me: a nossa Teresa Conceição decidiu evocar o Raul Solnado e, afinal, eu reproduzo o texto que publiquei quando ele morreu, mas deveria ter escrito e publicado quando ele estava vivo.

Quando era pequena, muito pequena, o gira discos dos meus avós era um móvel de madeira envernizada, com pés, colunas laterais com a frente em tecido, uma porta dianteira desdobrável como a da escrivaninha, e dentro, ao centro, um eixo de metal dourado onde se enfiavam os discos que desceriam como quem se deixa cair. Quando singles, queriam uma peça que não era Lego, mas poderia, circular e cinzenta, que preenchesse o necessário vazio para ficarem confortados e cheios. Depois de caídos com estrondo e sem elegância, iniciava-se o segundo acto do bailado mecânico automático: a pata da agulha elevava-se com um estalido, nave mãe, sobrevoava e aterrava na primeira linha mais externa do disco. Podia-se, então, levá-la pela mão para outra faixa, se outra faixa que não a primeira se pretendesse — deixá-la sobre a fronteira antes do som, exigia gostada precisão. Havia um disco de capa cor de laranja com um Raul Solnado a preto e branco, muito jovem, magro, de fato e de chapéu. Um chapéu pequeno, pequeno propositado demais, do tempo das gravatas e virados estreitos e calças curtas, afuniladas, a deixar ver toda a extensão dos sapatos. Adorava a cartolina grossa, o amarelo pálido, quase branco envelhecido da humidade leve do lado interno, que só se deixava espreitar depois de retirada aquela placa de vinil espesso e duro, em preto brilhante, tão bem sulcada, tão misteriosamente sulcada que prendia nos sulcos uma voz incansável que batia às portas da guerra até acertar na guerra. O meu avô, dizia-me, do Villaret, de me ver séria, é preciso gostar. Do Solnado, de me ver rir, sorria e perguntava-me, mas tu gostas? Isso tem anos, onde é foste descobri-lo? Eu gostava muito. Do engano da guerra que o fazia subir mais um bocadinho, do uso parcimonioso e partilhado, entre inimigos, de balas ou bombas e dias da semana. E do tom malicioso quando… mas a minha mãe foi a Évora. Mais tarde, no meu aniversário de treze anos, ofereceram-me Getting Even, que se transformou, depois, em Para acabar de vez com a cultura, e eu vi-o, ao Raul Solnado, de chapéu pequeno propositado curto, a passear-se nas linhas. E muito, muito mais tarde, em Black Hadder Goes Forth, ouvi os ecos da guerra de Mila que ele tinha feito nossa. Aceno a cabeça ao meu avô, a rir, gosto muito! E de o ouvir, de cada vez que se deixou entrevistar, e a entrevista desapareceu atrás da conversa, do olhar bom, disfarçado agudo da inteligência atenta, gostei mais, e o avô?

Publicado a 08.08.2009 no blog Mátria Minha

Comentários a “Raul Solnado” (2)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    E o avô gostou mesmo, Eugénia? Por gostos destes e cabeças a abanar, é que a morte desanunciada da Mátria Minha é vista pela bloga como pecado mortal e acto doloso. Só tem mesmo uma forma de se redimir. Recupere para aqui, com roupagem actualizada se lhe apetecer, os melhores 365 textos que lá escreveu. Vai ver que gostamos nós e o avô fica feliz.

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá Manuel Fonseca. Com o meu avô eu tive o Solnado, o Fred Astaire, a Cyd Charisse, Ford com Wayne, Marlon Brando e Monroe. E muito mais. Música com Sinatra e Dean Martin. Idas à ópera, no sofá da sala da televisão, vestidos a preceito. Adorava-o. Um dia escrevo sobre ele.

    Vou pensar naquilo dos textos mátrios. Merci.

Comentar