Raúl Solnado
Queridos Mortos

 

OUTRA VEZ, MAMÃ! 


         Em criança o vinil de 45 rotações nunca riscou apesar das repetições diárias lá em casa. Está lá, é do Inimigo? Os textos eram do galego Miguel Gila, a adaptação de Raul tornou-os intimamente nacionais, tão decorados que pareciam ser de quem os repetia.

         E tão frescos que pareciam sempre saídos do forno quando por ele ditos.

 

O SENHOR DA GUERRA  


         Nunca pensei conhecê-lo pessoalmente: achava que já o conhecia, de tão presente nos risos da família. Quando conheci, soube que o Raul guardava recordações carinhosas dessas gravações antigas: “Estávamos no início da guerra de África”, lembrou, “as coisas quando estão dentro da circunstância são potenciadas”.

         O Solnado que ía para a guerra “serviu de escape, serviu aos militares que lá estiveram: fui várias vezes lá e eles diziam as frases que eu dizia: qual é a tua guerra?, vou para a minha guerra. E quando havia uma explosão diziam: não batam com as portas! Foi uma descompressão que eles tiveram” E ria a contar.

         E percebi porque é que ele era o herói do meu pai.



A HISTÓRIA DE UM CURIOSO  


        Às vezes parecia que não tinha paciência para essas caixas do passado, queria fazer coisas sem pensar nos caixotes que tinha lá para trás.

Queria sempre mais: “Alimentar a curiosidade é que nos faz interessantes”.

         Quando o conheci, nos seus tenros 74 anos, estava em digressão pelo país. Só ele e um ecrã de fotografias e uma sala cheia de risos. Um homem sozinho em pé punha toda a plateia refém dele.

         E gostava do palco, como de pôr outros a crescer em palco. Como quando deu aulas de teatro a amadores na Guilherme Cossoul — a sociedade que “lhe desenhou o destino” desde cedo. Aprendeu teatro ali a ver os outros; dizia que ensinar é fazer crescer.

          E aprender é não parar: aos 79 anos lá estava ele na rodagem de um filme de João Nuno Pinto, final de 2008. E gostava muito da sua personagem de falsificador de passaportes em “América” (é mais uma caixa de surpresas que deixou por estrear). 


NA COZINHA


         E depois tenho aquela história de uma manhã a cortar cebolas.

         Precisava de filmar uma receita e o Raul prontificou-se a cozinhar-me um dos pratos preferidos: bacalhau ao vapor. Uma delícia temperada com Bach e Chopin, Eça de Queirós e histórias de outros tempos.

         Eu a chorar copiosamente em luta com as rodelas fininhas, ele muito sério a cortar batatas: “O que eu queria mesmo era emocioná-la. Afinal bastavam as cebolas”.


OUTRA VEZ, TITI!


         Agora, quando ouço a Guerra de 1908, eu é que parei no tempo. Apesar dos risos gravados,  ele conta a história só para mim.

         Os meus sobrinhos dizem “outra vez, titi”, com o cd na mão, e arrependo-me de os ter mandado brincar para o parque naquela tarde de filmagens na cozinha lá de casa.

         Nunca conheceram de perto O Senhor da Guerra, mas sei que nunca irão esquecê-lo.

Comentar