Olhe que não…

É certo, ainda não li o Caim de Saramago, no entanto, caro José, não concordo consigo. Receio não poder responder com o mesmo talento, bem como temo a reacção dos muito que já elogiaram o seu post, mas aqui vai.

Seria certamente mais fácil apontar as armas ao radicalismo islâmico, e tal não levantaria controvérsia entre a maioria das audiências, até por ventura, com a complacência dos islâmicos moderados. Talvez Saramago obtivesse com isso uma fatwa, mas, em termos gerais, seria um «alvo fácil». Só que Saramago é também um entertainer e nesses termos, nada causa mais alergias que escandalizar os que moram lá em casa.

Se aquilo que vier no livro for o que tem sido dito, então Saramago não é assim tão original. Basta dar o exemplo de Dawkins, que é contra todas as religiões e também ele, no seu estilo um tanto ou quanto violento, já mostrou amplamente porque é que a Bíblia é um «manual de maus costumes».

“God ordered Abraham to make a burnt offering of his longed-for son. Abraham built an altar, put firewood upon it, and trussed Isaac up on top of the wood. His murdering knife was already in his hand when an angel dramatically intervened with the news of a last-minute change of plan: God was only joking afterall, ‘tempting’ Abraham, and testing his faith. A modern moralist cannot help but wonder how a child could ever recover from such psychological trauma. By the standards of modern morality, this disgraceful story is an example simultaneously of child abuse, bullying in two asymmetrical power relationships, and the first recorded use of the Nuremberg defence: ‘I was only obeying orders’.“
in God Delusion

A verdade é que a interpretação não literal da Bíblia é, como muito bem afirma, caro José, uma evolução da nossa sociedade ocidental, que foi progressivamente refinando os significados dos textos, ao mesmo tempo que ela própria se solidificava, se modernizava. No entanto nem sempre assim foi e a verdade é que houve tempos em que um Islão bem mais tolerante e iluminado, enfrentava uma civilização cristã violenta e retrógrada. E o que aconteceu depois? Será isso algo que se ensina? E não é também nessa mesma Europa modernizada que a própria Igreja perde progressivamente a força?

A Igreja não o incomoda, é verdade, a mim também não. Afinal de contas, vivemos num país pacificado, com uma matriz cultural centenária, onde a formação de base cristã é explícita ou implicitamente assumida. Mas essa assumpção, em parte, deve-se ao facto de Portugal ser um país relativamente homogéneo, onde o conflito não existe, senão entre os ligeiramente mais conservadores e os relativamente mais progressistas. Mais ainda: talvez não o incomode, porque lê, ouve, escreve e está num ambiente capaz de herdar todo o acervo cultural que levou dois milénios a chegar ao ponto em que estamos. Que diabo, até é ateu! (as raízes são tramadas, não são?).

O que aqui me interessa não é defender Saramago. Nada disso. Aliás, se no livro apenas se refere à literalidade da Bíblia, não só não é original, como segue atrás de um argumento que já pouco colhe, sendo que entre os não-radicais não há quem defenda as religiões ostentando tais exemplos. No entanto, caro José, a pergunta que põe é extremamente interessante, dependendo, é claro, de como partirmos para a analisar. “Como se pode ser Bom se a Lei é má?” — esta é verdadeiramente uma questão curiosa.

De um ponto de vista sociológico e antropológico é extremamente interessante, exista Deus ou não, saber como é que uma Lei que textualmente não muda, apenas a sua interpretação, tem um peso tão grande na construção da identidade moral e no quadro de valores de uma sociedade inteira, tanto ao nível indivídual, como colectivo. Imagine-se uma constituição de um país cujo texto permanece imutável ao longo dos tempos; nesse ponto, embora Obama ainda não seja oficialmente o Messias, a carta constitucional americana será a que mais se assemelha à Bíblia. Mais interesse terá no caso em que não exista Deus, aí sendo uma pura invenção humana, ancorada num ponto temporal fixo, capaz de criar uma estrutura de valores totalmente imaterial e independente de uma realidade física. A verdade é que a não existir, Deus, tal como as quotas que existem para acabar com elas próprias, terá existido nas mentes humanas como mecanismo de defesa da estabilidade social. Se a sociedade ultrapassar esse ponto, os valores morais não estarão ancorados numa justificação supra-natural, mas sim numa estrutura mental colectiva auto-contida.

Não sei se Saramago vai abordar esta questão de forma inteligente e arguta, ou meramente provocadora. Preferiria a primeira. Mas, caro José, percebo inteiramente Saramago. Como a Eugénia tortura quem mais gosta, não há nada melhor que espicaçar, por vezes de forma bastante irritante, aqueles que nos dizem algo. Especialmente se se está convicto de algo como o facto de que as religiões — talvez umas primeiro que outras, mas todas no final — devem acabar. E claro, se se é um entertainer, porque Saramago também o é. Então se há eurodeputados a pedir a renúncia à nacionalidade, imagino o que não se deve estar a divertir em Lanzarote.

Comentários a “Olhe que não…” (5)

  1. António Eça diz:

    Caro Francisco, concordo que Saramago se deva estar a rir — o que é sempre bom. E, claro, entendo a questão da lei imutável já que as ditas tábuas mais não representam que um códice do senso comum aplicado às sociedades. A única coisa onde emperro é na sua «estrutura mental colectiva auto-contida», não consigo acreditar em tal possibilidade sem argumentação invasiva, se me faço entender. Teríamos talvez de estar demasiado preocupados com a extinção da espécie — e, portanto, teríamos de ser bem poucos. Ou fala já duma sociedade de sobreviventes?…

    • Não, não! Acho é que, no momento em que se reconhecer a não existência de Deus (a nível da sociedade, não individualmente), então aí deixa de fazer sentido que o quadro moral provenha duma entidade sobrenatural. No entanto, “Deus”, ainda que como estrutura imaginária, terá contribuido para a evolução da consciência colectiva humana, não como entidade externa, mas como artifício interno dos diversos indivíduos.

      No entanto essa evolução, apesar de ter sido ajudada por uma construção mental individual, é feita de forma colectiva. É uma evolução da consciência e não do organismo. Por isso a chamei estrutura mental colectiva. E auto-contida, porque se processerá inteiramente nas mentes dos humanos, sem factores externos, apesar de, como já disse, o artifício “Deus” ser uma projecção de um factor externo.

      Isto, claro, tudo na assumpção de que um dia Deus será provado inexistente… Assumpção falível, é certo!

  2. António Eça diz:

    Há muitos anos, quando o meu agnosticismo não era tão evidente (para mim!), gabava-me de ter inventado uma boa definição de envolvimento: «O Tempo é a carne de Deus» — afinal uma simples brincadeira dimensional com alguma geometria. É, a Incerteza é sempre uma benção quântica quando se trata de ‘incertos’ com paradeiro desconhecido. Ou, neste caso, daquele que se calou desde o Início, como dizia Unamuno. Embora não me passe sequer pela cabeça que algum dia o ‘bozão’ de Higgins possa ser encontrado, o facto é que a estrutura conhecida do Universo, a consciência vislumbrada do Tempo e os passos evolutivos das espécies tendem para uma noção inata de movimento — ou se quisermos, de vontade. Hawkins disse uma vez que se o Universo foi criado (o Big Bang) então é de admitir que algo o possa ter criado. É óbvio que não acredito num deus todo poderoso, moralista e vingativo — ou sequer com pachorra para pensar nisso. Mas admito na sacralidade da paisagem geral — como também admito que um dia, colectivamente, talvez possamos ser todos um pouco mais equilibrados. Parece-me um bom desígnio.
    Obrigado pela conversa.

  3. João Pedro Guimarães diz:

    Caro Francisco,
    Não sei se saramago se estará a rir em Lanzarote mas acredito — com pena — que sim, que possa estar. E com pena porque saramago tem um passado e um presente com atitudes e defesa de pessoas, regimes e posições com as quais discordo em absoluto e com as quais não me identifico. Mais: o megafone que o Nobel representou deu-lhe (infelizmente) a possibilidade de fazer ouvir a voz muito mais alto e muito mais longe. E a imagem que faz passar de Portugal e dos Portugueses é má e isso nada tem de (apenas) provocador. O que me espanta é que Portugal lhe preste atenção e dê visibilidade. Como escreveu um dia o Pedro Norton (em texto que, aliás, já aqui citei) trocava de bom grado o saramago e o seu Nobel pelas cinzas do Jacques Brel.

  4. Orcama diz:

    Por alguma razão cada povo adoptou uma certa religião. Desconheço que haja algum sem alguma. Acho que faz parte do desenvolvimento humano. Tenho para mim que um dia dissipar-se-ão. Diferente questão é o seus códigos de valores morais, que condicionam todas as sociedades, não só os crentes.
    Aquela em que nos inserimos advoga a tolerância que interage com liberdade.
    Ora princípios desta dimensão, fundadores da democracia que exigimos, parecem estar bem arredados do julgamento (quem somos nós?) que, pressurosa (e reiteradamente), fazemos de alguém que não mais exerceu que o seu direito a exprimir-se com liberdade.
    Que se discuta e rebata no plano das ideias, óptimo, mas afastando manifestações iconoclastas, que não rimam com cidadania, já que nacionalidade (a tal que se incita retirar) só pode rimar com bestitalidade…
    E atente-se donde provêm este tipo de proposições: de quem diariamente interfere em decisões que têm a ver com o nosso destino colectivo, a nível nacional e europeu…confrangedor, digo eu, e não só para (des)rimar…

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