Volto a João Bénard da Costa e ao comovente texto que o Pedro Norton nos deixou aqui ao lado. E vem-me à memória aquela noite em que, num écran de televisão, vi e ouvi Bénard falar do “filme da sua vida”, o seu Johnny Guitar, que Nicholas Ray realizou em 1954. Segundo a lenda (sim, porque as personagens “bigger than life” como ele têm esse privilégio, o de os comportamentos mais insólitos ou menos convencionais, elevados à transcendência com alguma dose de exagero, se converterem em lendas), Bénard terá visto Johnny Guitar centenas de vezes. Certo é que o próprio afirmou tê-lo visto 68 vezes entre 1957 e 1988. Por incrível que pareça, eu nunca tinha tido essa experiência quando assisti ao seu apaixonante desabafo sobre o filme da sua vida. Apaixonante é mesmo a palavra certa. Bénard tinha o condão de nos transmitir paixão. A paixão do cinema e das histórias de todos os amores e paixões dos filmes que programava, sobre os quais escrevia e falava. Antes mesmo de conhecer no écran a história de Vienna e Johnny, eu fiquei, naquela noite, definitivamente ligado ao filme. Mais do que nunca, percebi como o amor pode nascer da perseguição de uma ideia, que em nós toma forma à medida dos nossos anseios e expectativas. Bénard falava sobre o amor, sobre a recordação de um amor, ou melhor de vários amores, sobre um tempo em que esses amores persistiram através da mera recordação. E confessava-se ao público com a vibração e a euforia de uma criança que acabara de receber a sua primeira bola de futebol, ou a sua primeira pista de comboios, e para quem nada há de mais importante no mundo do que partilhar com os outros esse momento.
Pouco tempo depois dessa declaração de amor (ao filme e ao Cinema) de Bénard, vi finalmente o Guitar na Cinemateca, e a impressão que me produziu foi tão arrebatadora quanto as suas palavras sobre o filme. Não saberei dizer quanto por elas fui condicionado, como não saberei também determinar qual a influência que Bénard tem no prazer que experimento de cada vez que contemplo a Alida Valli do Senso, ou adivinho as deixas do par Bergman/Bogart do Casablanca. Sei, sim, que a sombra (ou será a luz?) de Bénard paira sobre esses laços de afecto que, a cada visionamento, se reforçam e consolidam. A paixão por Johnny Guitar é, claro está, do domínio do irracional, não se explica. Serei ridículo, como todas as cartas de amor o são, se procurar explicar porque é que me emociono, quase até à lágrima, de cada vez que, ao som envolvente da banda sonora de Victor Young, Johnny/Sterling Hayden pergunta a Vienna/Joan Crawford “how many men have you forgotten?” e ela lhe responde “As many women as you´ve remembered”. E haverá diálogo mais banal — e ao mesmo tempo mais belo e universal para todos os que sentem a força da paixão — do que aquele em que se contém toda a essência do filme, a da recordação do amor, em que Johnny lhe suplica “Tell me you still love me like I love you” e Vienna lhe faz a vontade, dizendo-lhe “I still love you like you love me”?
Tal como Vienna e Johnny, naquele reencontro, reviviam o amor através da sua recordação, também eu (como muitos outros certamente), recordando o filme — como o faço agora, como Bénard o fez, embora de forma muito mais marcante, naquela noite do “filme da sua vida” -, revisito toda a paixão do Cinema e todo o universo de sensações que ela pode provocar. Revivo todos os amores que já vivi e aqueles que estão para vir. Porque, afinal de contas, é sempre de Amor que se trata. E da linha tão ténue que separa a ficção de uma certa Ideia pela qual, a cada “Tell me you still love like I love you”, mais nos convencemos valer a pena lutar.
















O texto do filme vem carregado de uma esperança, à nível de uma consciência coletiva e ao mesmo tempo individual, de que o amor pode sobreviver apesar dos percalços, tempo e distância.
Ou escutar o “Tell me you still love like I love you”..o que todos querem escutar, mesmo que não confessem, é yes…yes..yes
O Amor sobrevive sempre, Turmalina. O Amor é eterno… enquanto dura.
Não ví o filme, mas esse depoimento me aguçou a curiosidade,me encantei, preciso ver.. Acredito no amor! Qualquer maneira de amor vale a pena!!