Parece que agora até lhe chamam Noite das Bruxas cá no nosso burgo onde a pirataria reina. Antes da mais descarada violação de um património que não é nosso, Halloween só existia entre nós desde finais de 70. E existia como filme, esse sim património da humanidade com toda a legitimidade. E a verdade é que, para este vosso amigo que tem bem entranhado na pele o terror então experimentado, Halloween há só um. O do Carpenter e mais nenhum (eu sei que houve sequelas mas vamos lá reduzir isto ao “the first movie”). Depois de Psycho ter mudado a face do cinema de terror, Halloween é ainda, trinta anos depois da sua estreia, e talvez a par de Shining, o paradigma do género. E, ao contrário de outros colegas que passaram a carreira a copiar Hitchcock (sim, Mr. De Palma), Carpenter conseguiu fugir ao pastiche sem trair a herança do mestre.
Eu sei que os tempos foram mudando, que o psicopata da máscara Michael Myers foi glosado e reinterpretado até ao enjoo, que a cândida Jamie Lee Curtis (ela própria uma emanação de Psycho, onde a sua mãe Janet Leigh era a vítima do chuveiro) se transformou num sex-symbol (com toda a justiça, diga-se), e que o cinema de terror está outra vez longe da nobreza de outros géneros (ou serei eu que estou enganado por não frequentar o Fantasporto?). Mas ninguém me tira o arrepio que ainda sinto quando ouço o som (composto pelo próprio Carpenter) que aqui vos deixo. Se alguém duvida do efeito pavloviano que a música pode ter, este é seguramente o melhor exemplo em sentido contrário.
Em homenagem ao genuíno Halloween de Carpenter, o único que também é nosso, façam o favor de ter medo. E façam o favor, já agora, de começar a caça às bruxas. A caça às bruxas falsas, que são todas as que vão andar perto de si este fim-de-semana. Dêem-lhes com o Carpenter na cabeça.

















Vejo que usted no cree en las brujas. Pois que las hay, las hay, digo eu. E as piores são as que andam por aí o ano todo, sem que se dê por elas. Tenha cuidado, muito cuidado, não vá o caçador acabar caçado!
Concordo inteiramente, Bellatrix. O problema é que, como diz, não se dá pelas verdadeiras bruxas, pois andam muito bem disfarçadas. E por isso são tão perigosas para quem não acredita nelas, como eu.