
Tive o privilégio de trabalhar de perto com Gabriela Canavilhas aquando da sua passagem pela Direcção da Orquestra Metropolitana de Lisboa (onde foi vogal primeiro, e depois Presidente, substituindo Miguel Graça Moura) *. Sei, por isso, que é uma mulher com a coragem e a determinação necessárias para enfrentar os grandes desafios, para não se deixar abater perante as mais difíceis condições de trabalho, para quem a palavra impossível não existe mesmo, ou sobretudo, em situações de sufoco financeiro ou de verdadeiro estado de guerra, como as que viveu em certo período na Metropolitana. Tudo isto sem nunca perder a lucidez, o equilíbrio e a sensibilidade — atributos que lhe permitiram, sempre, manter o controlo das situações, e a que não será estranha, certamente, a sua formação como pianista, que uma exemplar carreira veio fortalecer. A estas qualidades Gabriela Canavilhas junta ainda os seus indiscutíveis dotes de sedução. Tem uma presença fortíssima e é uma comunicadora por excelência, o que faz dela uma interlocutora privilegiada dos media e uma voz de peso (mas sempre afável) em qualquer mesa de negociações. A verdade é que Gabriela Canavilhas é, antes mesmo de o ser, uma política nata.
É claro que os problemas que Gabriela Canavilhas enfrentou na Metropolitana não são, nem de perto nem de longe, comparáveis aos que a esperam no Ministério da Cultura. Em comum, talvez a circunstância de ter de medir forças com elementos endógenos, com bloqueios que vêm de dentro, do próprio Governo, mais do que com os agentes culturais e os artistas (comunidade em relação à qual, como artista que também é, tem um sentimento de pertença, que decerto será um auxiliar precioso na sua relação com ela). Mesmo tendo já passado pela terrível experiência de “fazer mais com menos”, estou certo que nunca cairá no tremendo erro do seu antecessor — que, traído pela sua vaidade, o prometeu publicamente, e, com essa sua afirmação, assinou logo à nascença a sua certidão de óbito como Ministro da Cultura. Acredito que Gabriela tudo fará para cobrar a Sócrates a sua confissão de arrependimento — eleitoralista e demagógica, até prova em contrário – de ter investido pouco na cultura (aliás, já começou a fazê-lo, nas suas primeiras declarações após a nomeação). E tenho fortes esperanças que aqueles seus atributivos que acima apontei – a determinação aliada à sedução – a levem a obter um reforço substancial do orçamento destinado ao seu Ministério (e já nem aponto à meta, sempre apregoada mas nunca concretizada, e irrealista em tempo de “vacas magras”, de 1% do Orçamento Geral do Estado).
É bom que se tome consciência, de uma vez por todas, que esse reforço se poderá fazer, em grande parte, pela partilha de verbas com o Ministério da Economia e o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através de um esforço sério de promoção da marca Portugal e da (nova) identidade cultural portuguesa, e de um reforço da difusão da língua pátria, dos nossos autores e da nossa criatividade. Já é altura de acabar com a imagem do Portugal salazarento encarcerado no universo restrito do “Fado, Fátima e Futebol”, que a RTP Internacional, com o nosso dinheiro, tem o desplante de continuar a divulgar pelo mundo fora. E de se optar definitivamente por uma estratégia que passe também pela internacionalização da cultura portuguesa, a única com capacidade para atenuar ou mesmo eliminar o crónico défice económico que caracteriza as actividades culturais em Portugal – devido, em grande parte, à reduzida escala e ao exíguo mercado do nosso país (não esqueçamos, enquanto não seja tarde, o potencial inestimável da língua portuguesa, com mais de duzentos milhões de falantes em todo o mundo).
E, sobretudo, é preciso não perder de vista que a mais importante de todas as reformas, comum e transversal à cultura e à educação (e com impacto em todos os sectores da sociedade), continua por fazer, não obstante as promessas e as dezenas ou centenas de documentos que sobre o assunto foram produzidos: a generalização do ensino artístico desde o ensino básico e secundário, com o objectivo de fomentar, logo a partir do início do percurso educacional de qualquer criança, o seu contacto com o mundo das artes e da cultura. Não se trata de nada de original ou de inovador, mas sim de algo tão elementar e básico que já Platão o defendia na República há 2500 anos atrás. Aí, a música era uma disciplina essencial na formação de qualquer cidadão, pelas especiais qualidades que desenvolvia no ser humano. Expurgando as intenções de “Admirável Mundo Novo” avant la lettre que a obra continha, continuam a ser válidas, e mesmo altamente recomendáveis num mundo em que o telelixo nos entra descontroladamente pela casa todos os dias, medidas de educação da sensibilidade artística que contribuam para formar os públicos culturais do futuro – públicos mais qualificados, com uma capacidade de apreensão e percepção que lhes permita ir além de cultura que não seja, apenas, a cultura massificada de entretimento dos La Féria da vida (e que me perdoe pela heresia o recentemente plebiscitado Rui Rio). É da maximização da participação cultural dos cidadãos de que se trata, da capacidade de os mesmos se abrirem a outras manifestações artísticas, de disporem da sensibilidade e da preparação necessárias para aderirem a obras culturais com passado e/ou futuro mas sem lugar no seu presente, o de muitos milhões de portugueses. Essa é uma reforma imprescindível, inadiável e urgente, se houver verdadeiro interesse dos nossos governantes em estancar a (actual) iliteracia cultural nas gerações futuras. E que não se consegue sem uma actuação integrada e concertada do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, e sem que os respectivos responsáveis ministeriais (sob uma orientação clara do primeiro-ministro, claro está) a assumam como prioridade estratégica comum.
Julgo que Gabriela Canavilhas, melhor do que ninguém, estará em condições de perceber a premência dessa reforma. Porque foi educada e se formou no meio artístico, porque passou pela experiência da docência artística, porque é simultaneamente intérprete e fruidora de obras culturais, porque já foi gestora e programadora cultural, porque tudo isso lhe deu a vantagem de melhor compreender a diferença que tal reforma pode fazer. Faça-lhe Sócrates a vontade e os portugueses do futuro agradecerão.
*Pois é: a par de Jorge Salavisa e de Diogo Infante, aqui referidos, Gabriela Canavilhas, insuspeita de quaisquer simpatias políticas pelo PSD, é também, enquanto gestora cultural (e se ressalvarmos a sua experiência anterior de Directora do Festival MusicAtlântico dos Açores), uma criação de sucesso de Pedro Santana Lopes e da sua Vereadora da Cultura na CML, Maria Manuel Pinto Barbosa.

















É açoreana… Isso explica muita coisa!
Pois é, Ana, as açoreanas que cruzam os mares em direcção ao continente têm um dom especial, com o qual nós, os continentais, temos muito a aprender…
Bom artigo Diogo, de facto perceber que cultura e educação andam a par aponta para o que ninguém até hojeparece ter interiorizado: a cultura não é apenas para as elites e formar públicos é fundamental.
Obrigado Isabel. Infelizmente, não tem havido vontade política para formar públicos culturais através da educação. Talvez porque continue a dar jeito ao poder manter a populaça iliterata…