Para que os ramos de uma árvore toquem no céu, as suas raízes têm de tocar no inferno. *
Quando conheci o Eugene O‘Neill ele estava no corpo do Jack Nicholson, apaixonado pela Louise Bryant que amava John Reed … — quase a Quadrilha de Drummond de Andrade. Isto tudo passou-se em Reds, num verão muito quente, quando eu era a mais nova a reboque dos primos mais velhos, crescidíssimos de propedêutico acabado e a faculdade à espera, que inveja, os do degrau logo acima em idade, e com namorados e namoradas, era um verão muito quente na esplanada do café até tão tarde depois da praia usada até à última gota de sol. Onde eles iam, também eu, que bom, mas o melhor era o cinema conversado a seguir a the end, falava-se de tudo, eles sabiam tudo, o que quer que fosse era Marx, Nietzsche, Woody Allen, Bergman. Quando tivesse 18 anos também seria assim, de namorado e tudo em certezas. Talvez mesmo comunista de nuclear, não, obrigado, se conseguisse desacreditar de Sá Carneiro, afinal, ele próprio como John Reed e Louise Bryant, a Louise chamava-se Snu Abecassis, decerto iria onde fosse preciso por ele como Louise foi, e foi, até ao fim, ama-se igual em qualquer partido político, até ao fim, talvez não viesse a ser comunista, só vontade de Tolstoi e Dostoyevsky em russo transcendente como a língua dos anjos. A Natália Correia era-lhes mais leal que a Emma Goldman de Maureen Stapleton tinha sido, e todo o excesso se lhe estreitava ao passar-lhe pela boquilha. Metiam-me medo, todas, sentia-me fútil, tinha imenso medo da Natália Correia e da Emma Goldman, tanto quanto da minha futilidade, menos medo dela Natália porque lhes era leal, a Snu e Sá Carneiro apontados a dedo. Enquanto não sabia tudo, longe os 18, que desgosto, nem sequer para um cigarro quanto mais boquilha, era surpreendida assim, daquela maneira, por aquela gente de amor sem casamento que encenava peças na sala de jantar, os dias em quase comuna, a peregrinação das ideias até ao corpo, bem que gostava disso na casa de jantar, e da coragem de viver diferentemente suportando os custos da diferença entre a aprovação dos iguais, com ideias à refeição acompanhadas de discussões e batatas fritas. À sobremesa, literatura. Bem que gostava disso. Todavia entre iguais, ele era menos igual, a margem da margem: destino da solidão. O‘Neill. Não sabia de um outro que não o nosso, o do sorriso torto, mau, diziam-me, em bons poemas, eu lia. No mundo de Reds, em peças perfeitamente encaixadas, sem juntas visíveis, a peça solta caída no meu colo, uma voz sem coro, a da deriva nossa, quilómetros de palavras para a impossível cosmologia de A long journey into the night, eu li, nunca saberia tudo, não saberia o que quer que fosse, nem aos 18 nem nunca, nada de nada além do gosto da verdade que é de sangue na boca, que é só ela que atravessa o tempo rasgando tudo o que não é, rasgado ardido à passagem dela, tudo, olhar de fogo combustivo no coração alquímico das coisas. A verdade.
Eugénia de Vasconcellos


















[…] baixo da entrada QUERIDOS MORTOS, aparece a vermelho o nome de Eugene O’Neill. Se clicar vai ler o epitáfio que a Eugénia de Vasconcellos lhe dedicou. Um texto onde há mortos a mudar de corpo. […]