
Declaração de interesses: colaborei com o executivo de Santana Lopes no seu mandato como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Mas fi-lo com funções totalmente apolíticas, no exercício da minha profissão e limitado (e ainda bem) ao Pelouro da Cultura. Não sou nem nunca fui santanista ou de “ismo” nenhum a não ser o do Benfica. Como quase todos os portugueses, não apreciei a sua passagem infeliz por São Bento. E, descontando uma ponta de irritação que toma conta de mim sempre que me falam de um certo período da Orquestra Metropolitana de Lisboa, consigo manter a distância suficiente para não perder a lucidez sempre que tenho de me pronunciar sobre o meu tempo na CML.
Mas, vamos a factos. Factos da vida cultural da nossa cidade de Lisboa naqueles quatro anos em que Santana teve a responsabilidade de a governar. Não quero falar de túneis, do que já lá está ou dos que estariam para vir se Santana regressasse. E muito menos quero falar de “fait-divers” como violinos de Chopin ou cartões de agradecimento a Machado de Assis. E sei que deixar obra feita na cultura não faz, só por si, um grande autarca. Mas ajuda e muito. Sobretudo numa capital europeia, onde a obra cultural se confunde com a própria identidade de uma cidade, marca o seu estilo e lhe dá grandeza aos olhos dos que nela vivem e dos que a visitam.
Quero, sim, falar do Teatro São Luiz, que esteve amaldiçoado durante décadas, à espera que alguém tirasse partido da sua História e da sua localização privilegiada e o transformasse, finalmente, no “ex-libris” cultural que há muito merecia ser. E quero lembrar que foi preciso alguém, naqueles tempos, descobrir a vocação de director artístico de Jorge Salavisa para esse milagre acontecer.
E, já que falamos de teatros municipais, então que não se esqueça, também, que foi naqueles tempos que o Maria Matos voltou a ser um espaço com programação regular de qualidade e com público assíduo. E igualmente porque alguém viu em Diogo Infante qualidades de programador, de que o próprio provavelmente nem suspeitava, e que em muito pouco tempo fizeram dele, já depois de Santana, o Director do maior teatro nacional português.
E o que dizer das nómadas companhias do Teatro Meridional e do Teatro da Garagem, dois exemplos de qualidade ao serviço da língua e da cultura portuguesa, a quem alguém, naqueles tempos, se lembrou de dar um tecto e condições decentes de trabalho?
Convém trazer à memória, também, que foi nesse período que alguém teve a coragem de enfrentar interesses instalados e de pôr fim aos abusos de um projecto, o da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que era suposto ser de todos nós e não de um homem só, devolvendo-lhe ao mesmo tempo a credibilidade e o reconhecimento que há muito lhe faltavam. E, quanto a este assunto, por aqui me fico, para não me arriscar a perder o tom sereno destas minhas palavras.
E, no que toca à moralização dos apoios camarários, é preciso lembrar ainda quem acabou com uma pouca vergonha chamada Companhia de Dança de Lisboa, que há anos dispunha a seu bel-prazer de cama, mesa e roupa lavada no andar nobre do Palácio do Marquês de Tancos, sem apresentar nenhuma obra que se visse. E importa, já agora, saudar quem se atreveu a lembrar aos senhores artistas dos Coruchéus que os ateliers que aí estavam (entregues de mão beijada em tempos idos com todas as benesses e sem um mínimo de obrigações) serviam – coisa única – para produzir, para criar, e não para viver.
E é preciso recordar, ainda, que a actual jóia da coroa de António Costa, o muito “trendy” MUD, só é uma realidade porque alguém, naqueles tempos, decidiu, sem que ninguém lhe soprasse ao ouvido, comprar a colecção que ele alberga. O mesmo se diga da hoje tão consensual (mas não naqueles tempos) Experimenta Design de Guta Moura Guedes, que só sobreviveu porque alguém – sempre o mesmo – não desistiu de nela apostar.
E, se fizermos um último esforço de memória, ninguém ousará desmentir que, naqueles tempos, alguém se lembrou de dar uma outra dignidade e imagem à Feira do Livro, recuperando-a do marasmo onde se encontrava.
Muitos dirão que faltou estratégia onde sobrou Gehry. Que se gastou muito. Que se usou e abusou das expectativas daqueles pobres coitados a quem ninguém se atreveu a dizer que o teatro de revista estava morto e enterrado há muito. Alguns, de uma esquerda que não gosta de caviar, dirão que se privilegiou uma visão elitista de cultura. Ou bem ornamental e ornamentada, ao melhor estilo de Carrilho. Este, para nunca correr o risco de ser comparado com Santana, chamar-lhe-á populismo. Outros ainda, daquela direita conservadora que tem horror à criação, invocarão dezenas de palácios que continuaram sem recuperação. Talvez cada um deles tenha uma parte de razão à sua maneira.
Mas o que está por provar é que algum presidente de câmara, até à data, tenha feito mais pela criação de uma dinâmica cultural na cidade de Lisboa. Tenha revelado mais ideias e mais arrojo do que o executivo de Santana mostrou nessa área. Tenha percebido melhor que a cultura é fundamental na afirmação e renovação da identidade de Lisboa. Tenha procurado capitalizar como ele o potencial turístico de uma oferta cultural forte. Costa, esse de certeza não o demonstrou, pois votou a cultura ao mais absoluto desprezo nos dois anos que leva de câmara. Mas, apesar disso e do seu tão propalado exclusivo às “pequenas obras”, não se coibiu de, só em eventos popularuchos no Parque Mayer nos dois meses que antecederam as eleições, gastar metade (ou mais, segundo dizem) do que Santana despendeu com Gehry.
Resta-me a ilusão de que Costa se tenha apercebido, a tempo, da depressão cultural que tomou conta de Lisboa nestes dois últimos anos. Pelo menos, a chamada para as suas listas de duas senhoras distintas da cultura como Simonetta da Luz Afonso e Catarina Vaz Pinto é um sinal nesse sentido. Mas só respirarei de alívio quando o Pelouro da Cultura voltar a ter a importância (estratégica, orçamental e não só) que Santana lhe destinou. E, claro, quando o Terreiro do Paço voltar a ser transitável, e quando desaparecer de vez o risco de destruição das zonas de lazer das nossas docas.
* Para quem não saiba e para evitar o risco de algum dos detractores de Santana se sentir visado com a expressão, trata-se do nome dado a um evento regular da programação do Teatro São Luiz, organizado pelas Produções Fictícias durante o executivo de Santana Lopes, com a presença de um painel fixo de comentadores e de convidados da área cultural, das mais diversas tendências artísticas e políticas.















Digamos que só agora me apercebi da discussão real. Não fazia ideia da maioria da obra feita de Santana em Lisboa (com a péssima desculpa de que vivo no Porto) e percebo muito bem a sua «quête» da verdade das coisas. Existe uma discussão semelhante por cá, mas suponho que de sentido inverso ou pelo menos divergente: Rio diz que há que distinguir «cultura» de «lazer», mas também não tenho a certeza de que ele faça essa distinção de forma equidistante (pelo menos tem boa parte da chamada elite contra ele). Quando há pouco dinheiro as disponibilidades mudam de incidência, quando não são também uma boa desculpa para nada se fazer. Seja como for a animação cultural duma grande cidade é um naco fundamental da sua alma — e isso nunca devia ser esquecido por quem manda nela.
Muito obrigado pelo texto.
Diogo, parabéns pela clareza e frontalidade. Uma das coisas mais preocupantes na vida política é a incapacidade real que o cidadão comum tem para controlar resultados. O ruído das máquinas de propaganda e de contra-propaganda deixa pouco espaço a uma observação objectiva.
Concordo inteiramente com o teor do texto. Tenho dúvidas em relação a uma das senhoras que citou que não se conhece nada de relevante quando foi Secretária de Estado da Cultura no tempo de Carrilho. Talvez tenha agora, melhores condições para mostrar que sabe e possa dinamizar a cultura da cidade. Quanto à outra senhora, Simonetta Luz Afonso tem muita obra digna de registo, com especial relevo ao nível dos museus (IPM) e das exposições internacionais como a Europália da qual foi Comissária, como Lisboa — capital da cultura — em 1994, quando Santana era Secretário de Estado da Cultura. Talvez Simonetta estivesse melhor no cargo de vereadora da cultura.
Quanto ao mandato do PSL, para além das actividades que foram referidas, houve uma de grande impacto que foi a recuperação de diversos monumentos no centro histórico da cidade por incapacidade do ministério da cultura em recuperá-los como seria sua obrigação. A CML substituiu-se ao ministério e com o apoio da extinta DGEMN e dos párocos, procedeu-se à recuperação integral ou parcial de várias igrejas designadamente: Basílica dos Mártires e igreja da Encarnação(Chiado), São Nicolau (Baixa), Madre de Deus e São Miguel (Alfama), da Saúde no Martim Moniz, Santa Catarina (Bairro Alto e Bica) etc. Ainda está por concluir o restauro do magnífico órgão barroco (1732) desta última igreja cujos encargos, assumidos pela autarquia em 2004, não foram respeitados pelo actual presidente. Lamentável.
Caro José Rocha, agradeço o seu comentário. E tem toda a razão no que toca à recuperação dos monumentos do centro histórico da cidade. Apenas não a referi no meu texto porque não constituíam uma atribuição do Pelouro da Cultura e, sim, segundo creio, da Direcção Municipal da Reabilitação Urbana, integrada no Pelouro do Urbanismo. E relembro, ainda desses tempos, o lançamento dos ciclos de concertos de Natal nas igrejas (Sé, igrejas históricas da Baixa e de bairros mais periféricos, com grande variação de reportórios), à imagem do que se faz em quase todas as grandes cidades e capitais europeias.
Que bom texto e a direito, Diogo. Gostei muito.
Eugénia e Manuel, obrigado pelas vossas simpáticas palavras. Tem toda a razão no que diz, Manuel. Acresce que, no caso particular de Santana Lopes, ele próprio contribui (ou contribuia, porque parece estar bastante mais comedido nesse aspecto) para esse ruído mediático que acompanha(ava) as suas intervenções, e que abafa(va) muitas vezes o essencial da sua actuação.
Felicito-o pelo seu texto, exemplar e isento.
Sou apoiante de António Costa, e dele espero agora, que da ilusão que a si lhe resta, ele passe a sêr uma certeza, não só na Cultura, como em todos os aspectos da vida da cidade.
Os seus dois anos em Lisboa, foram dedicados e eu não tenho nenhuma razão para duvidar, a pagar as mais variadas dívidas contraídas pelo executivo de Santana Lopes, que quase levaram a Câmara à banca-rôta .
Certamente o senhor, por estar “por dentro”, saberá disso, muito mais e melhor do que eu, embora esse aspecto não fosse focado no seu texto.
E os projectos que refere, culturais e outros, da iniciativa de Santana Lopes, talvez não tivessem sido concretizados, em consequência da situação financeira catastrófica, em que a Cãmara foi deixada.
Também António Costa, teve contra si, sistemáticamente, a maioria PSD na Assembleia Municipal, que inviabilizou, com estultos argumentos, os pedidos de empréstimo bancário, destinado ao saneamento financeiro, com a discordância,honra lhe seja feita, da sua presidente, Paula Teixeira da Cruz.
Agora, com quatro anos de maioria absoluta, tem António Costa e a sua Vereação, a obrigação de cumprir os seus projectos para Lisboa, pelos quais todos ansiamos e merecemos.
Cumprimento-o com consideração.
Agora, com 4 anos de maioria absoluta, vamos ver no fim o que Antonio Costa nos deixa na cidade. Qual vai ser a desculpa ao fim de 4 anos. Não pode ser a de que andou a pagar as dividas no executivo anterior, porque essas, segundo ele, já estão pagas. Tenho a ligeira impressão que ainda vamos ouvir daqui a 4 anos, o Antonio Costa a dizer que o Dr Santana Lopes afinal ainda tinha deixado outro buraco orcamental não sei bem onde…e por isso esteve a arrumar a casa, não tendo feito nada.
Pedro Matos
É exatamente como você diz:-“VAMOS VÊR !”.
E em vez de especular AGORA, porque não esperar e FALAR DEPOIS ?
Caro José Peralta, ver não leva acento.