Duques & Valetes

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Esperemos que daqui a muitos anos as comemorações do 25 de Abril acabem assim: um punhado de velhotes a defenderem de veias inchadas aquilo que a todos parece óbvio e já ninguém discute.
Em boa verdade, foram os monárquicos, hoje reduzidos a umas cabriolas pelo meio da noite e a umas reais jantaradas, que tudo fizeram para deteriorar a causa até ao tutano.
Primeiro, foram séculos de acasalamentos que hoje seriam obscenos, entre primos, entre sobrinhas e tios, até o sangue ter ficado roxo e os genes degenerados, ao ponto de haver sério perigo e probabilidade de a linha familiar produzir espécimes com os alqueires mal medidos. Olhem para os Bourbons: em cada geração costuma haver um que sai poucochinho. Mas isto compreende-se, eram os costumes pouco higiénicos do Antigo Regime, antes do protestantismo e da maçonaria enterrarem os mortos fora das igrejas e convencerem a corte que o banho era uma prática sanitária e não sinal de vaidade.
A velha nobreza lusitana desagregou-se logo aos primeiros trotes da cavalaria napoleónica por terras de Portugal. A melhor parte fugiu e não voltou do Brasil, em 1807; do que sobrou, uma grande porção desarrumou-se com a definitiva derrota miguelista firmada em Évora-Monte. O resto do séc. XIX foi regateado por um punhado de Duques, quase todos de novíssima extracção, os mais sintomáticos o d’Ávila, filho de um sapateiro açoriano, e o de Loulé casado à pressa com a Princesa Ana de Jesus, não fosse a Senhora parir antes das núpcias. Por fim, foram baronatos e viscondados atribuídos a eito: “foge cão que te fazem barão/ para onde se me fazem visconde?”.
Ou seja: Casas Antigas, serão hoje cinco dedos delas, se tanto. E quase todas muito dissipadas e inúteis ao povo e à pátria. À melhor, temos solares a renderem como turismo de habitação e fidalgos de meia leca pendurados nos subsídios europeus à cunha dos três palmos de morgadio herdado.
Pelo que a causa monárquica deu nisto: são de latão os brasões que hoje rodeiam o Pretendente, bisneto de D. Miguel – rica genealogia, não haja dúvida – são de cartório os títulos que trazem pendurados no nome e resulta muito patético vê-los a grafar “Mello” em vez de “Melo” ou “Athayde” no lugar de “Ataíde”. Uns burguesitos.

Comentários a “Duques & Valetes” (2)

  1. e nós nem reais jantaradas e muito menos cabriolas pelo meio da noite. longe vão os tempos de «nós somos os melhores» remember?. deve ser da chuva deu-me uma de brideshead. enfim,mais mortos que vivos lá fomos sobrevivendo. temos que nos ver. antes que seja tarde

  2. temos que ou temos de? olha escolhe tu que eu estou morta de sono ;)

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