Gente Morta — O senhor engenheiro importa-se, hoje que é dia de eleições, de nos dizer como é que na Inglaterra onde vive?
Álvaro de Campos – Ainda há muita gente em Inglaterra que tem no íntimo da alma a convicção de que uma eleição geral é uma coisa no género e da categoria de uma lei da natureza, e de que a “vontade do povo” é frase que comporta qualquer espécie de sentido.
GM — Tem noção de que no boca de um engenheiro essas declarações vão provocar escândalo?
AC – O que há de mais estranho nos indivíduos políticos é o pouco que conseguem aprender com a experiência flagrante. Metem-se-lhes na cabeça certas ideias, e atravessam a vida com essas ideias, embora a experiência quotidianamente as desminta.
GM – Mas a maioria…
AC – A maioria é essencialmente espectadora. As próprias eleições, dada a complexidade e o custo do maquinismo eleitoral, nunca podem ser vencidas senão por partidos eleitoralmente organizados. O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão, o que é diferente. Tudo é oligárquico na vida das sociedades. A democracia é o mais estúpido de todos os mitos, porque nem sequer tem carácter místico.
GM . O senhor engenheiro não me vai dizer que Portugal…
AC – Portugal é uma plutocracia financeira de espécie asinina… uma oligarquia de simuladores provincianos, pouco industriados na própria histeria postiça.
GM – Desculpe, senhor engenheiro, mas não se pode falar consigo. Digo-lhe já há decerto outros engenheiros, futuristas ou não, que não pensam nada como o senhor.
AC – “Quem não intruja não come”; é esta a forma sociológica dum provérbio que o povo não sabe dizer, porque o povo nunca sabe dizer nada… As farsas não me divertem.
GM – **!!##???


















Comentando hoje do “futuro”… texto bem futurista, à época.
Manuel, da próxima vez que estiver com ele, pergunte-lhe, da parte deste amigo:
GM — O senhor é engenheiro mesmo? Daqueles engenheiros… mesmo, mesmo engenheiros?
Andreia, o problema do engenheiro é mesmo o futuro.
Pedro, tão cedo, julgo eu, não volto a apanhar o engenheiro a jeito. Foi para Glasgow.
Manuel, o problema é que sendo o problema do engenheiro, deixa de ser só do engenheiro.
E eu que sempre pensei que a democracia tinha por mito a Grécia antiga! Mais um sonho que se esfarela…
António, atendendo à condição naval do engenheiro, diria que o teu sonho se afoga… Abraço grande dragão!