Busby Berkeley
Queridos Mortos

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Há três razões para gostarmos dele:
– inventou a dança nos filmes;
– inundou o ecrã com delirantes visões eróticas;
– celebrou no cinema o milagre da multiplicação das pernas femininas.
Estou a a falar de Busby Berkeley. Ou seja, ninguém! Pelo menos para qualquer pessoa que não tenha passado os 5 últimos anos fechado num arquivo de cinemateca. Ou então, alguém! O maior artista americano do século XX  para Andy Warhol.
Era dance director, fosse lá o que isso fosse (mas era alguma coisa), quando chegou a Hollywood. E, vindo da Broadway, chegou desconfiado. Não é fácil de explicar, mas os filmes dos outros que ele fez, passaram a ser dele. Trabalhou, nos anos 30, com a explosão do sonoro, para a Warner Bros e para o produtor Daryl F. Zanuck. Cabia-lhe imaginar e executar as coreografias dos números musicais de filmes de outros realizadores com histórias convencionalíssimas. Só queria, como disse, fazer as pessoas felizes nem que fosse por uma hora. Fez: sem essas coreografias os pobres desses filmes estariam a arder em lume brando num purgatório perto de si.
O que é que Berkeley fez, então? Juntou água, mulheres, bandeiras, soldados, mulheres, noites, camas, pianos, mulheres e transfigurou tudo com uma poética a que podemos aplicar os qualificativos que quisermos – surreal, vanguardista, místico-freudiana – mas que só é explicável se usarmos o termo certo: hollywoodiana.
Poética hollywwodiana. De brancos imaculados, escuríssimos negros, combinatórias prováveis, mas tão deslumbrantes, de repuxos e nudez, da câmara colocada no ponto de vista de Deus com trompe l’oeils magníficos, imensas paradas de pijamas e ceroulas, centenas de pares sentados em cadeiras de balouço. Acreditem, essa multiplicação, feita com precisão geométrica, pode ser – era e é – a mais erótica, a mais carnal, das visões. Nas palavras directas e talvez tocadas por um módico de ciúme, doutro coreógrafo mais tardio, Berkeley “arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis.
Não será um artista como de Man Ray ou de Matisse se diz que são artistas. É talvez um sargento, ou um jovem tenente (o que bate certo com a sua formação na Academia Militar), com a obsessão das formaturas, mas nos jardins suspensos de Busby Berkeley, no começo dos anos 30, no glorioso preto e branco da Warner Bros, surgiu uma arte pop avant la lettre: a águia americana e as stars and stripes de Jasper Johns, os tintados retratos de celebridades de Warhol, já tinham sido imaginados e delirantemente sonhados em Footlight Parade, Dames, 42nd Street e nas Gold Diggers de Busby Berkeley, nascido em 1895 e chegado ao paraíso a 15 de Março de 1976.  Presumo que o velho e perverso Jeová lhe tenha entregue as coreografias celestes: julgo tê-los visto, aos dois, a deslizar pelos túneis que Berkeley montou com milhares de angélicas pernas abertas.

 

Comentários a “Busby Berkeley” (2)

  1. vallera diz:

    Se não fosse o Busby Berkeley creio que teria havido muitos mais suicídios na era da Depressão..
    Creio que o Manuel já terá visto o Gold Diggers of 1933 de Mervyn LeRoy?

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Vallera, já vi, vi algumas dezenas de musicais clássicos. Fui um dos organizadores, há muito anos do Ciclo de Cinema Musical que teve lugar na Cinemateca e na Gulbenkian. Escrevi os textos de apresentação de quase todos os filmes coreografados pelo BB. Foi um dos meus maiores prazeres dos 10 anos de trabalho com o João Bénard da Costa. Praticamente dividimos a meio o trabalho de apresentação desse ciclo.

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