A verdade de Proust

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E não apenas não retemos de imediato as obras verdadeiramente raras, como até, no seio de cada uma dessas obras (…) são as partes menos preciosas que começamos por apreender.

(…) as belezas que se descobrem mais cedo são também aquelas de que mais depressa nos cansamos, e sem dúvida pela mesma razão, que é a que diferem menos do que já conhecíamos.

(…) o tempo de que um indivíduo precisa (…) para penetrar uma obra de alguma profundidade é apenas o resumo e como que o  símbolo dos anos, por vezes dos séculos, que decorrem antes que o público possa amar uma obra-prima verdadeira nova.

Marcel Proust

Em Busca do Tempo Perdido, Volume II – À Sombra das Raparigas em Flor (tradução de Pedro Tamen)


Estas palavras, escritas por Marcel Proust em 1918, e tão ou mais verdadeiras agora do que o eram à época, talvez ajudem a explicar porque é que Vincent Van Gogh apenas vendeu uma obra sua em vida (e, se o conseguiu, foi porque o seu irmão Theo se disponibilizou piedosamente a comprá-la).

E lançarão a dúvida sobre as verdadeiras razões desta nossa queda para a celebração de artistas ou autores que já morreram.

Mas, acima de tudo, estão na base de uma certeza, que o tempo não destrói: a de que a lógica de mercado, guiada por critérios de rentabilidade económica imediata, não se pode substituir ao Estado – pelo menos na totalidade ou sequer predominantemente — no apoio à criação artística. Sob pena de as obras-primas nunca chegarem a sê-lo, ou porque não passarão de ideias não materializadas, ou porque não deixarão a clandestinidade da casa, estúdio ou atelier do seu criador.

Comentários a “A verdade de Proust” (4)

  1. António Eça diz:

    A este respeito relembro duas coisas: Daniel-Henry Kahnweiler, o grande ‘marchand’ e promotor de Picasso e de muitos outros modernistas (que sempre afirmou comprar apenas o que gostava), e a sensação predominante de que as obras encomendadas por mecenas — sejam eles institucionais ou não — acabam sempre por surgir deformadas pela inevitável sombra lançada pela necessidade subliminar de agradar minimamente ao promotor. É claro que há excepções: a casa real inglesa encomendou a Lucien Freud um retrato de Isabel II, pagou-o à cabeça, e no fim levou com algo que, sendo fantástico como retrato, não é certamente nada que os clássicos patronos estivessem à espera.
    O apoio directo à criação artística sempre deu resultados um pouco ambíguos — parece-me.

  2. Diogo Leote diz:

    Caro António Eça, é verdade que ainda existem alguns resquícios dessa sombra, que podem inibir o artista (leia-se também a companhia de teatro ou a produtora de cinema, entre outros beneficiários de apoios) de morder a mão que lhe dá de comer. Mas a noção de mecenato, pelo menos em Portugal, já pouco ou nada tem a ver com o patrocínio das artes à la Medicis. Infelizmente, o mecenato no nosso país privilegia, acima de tudo, o apoio aos grandes acontecimentos mediáticos, que lhe garantem uma visibilidade que nenhuma mão cheia de artistas emergentes pode igualar. E não se substitui ao Estado no apoio à criação artística, simplesmente porque é o próprio Estado, ou directamente através das suas instituições públicas ou sob a veste de empresas de capitais públicos ou mistos, que dele acaba por beneficiar em muitos casos.

  3. António Eça diz:

    Exacto. Haverá duplicidade mais desonrosa? Continuo a preferir as trocas medievais: levo o quadro, e tu pega lá vinte moedas, mais três galinhas e uma amante — ou o criadito com cara de anjo… Chegava-se a acordo e pronto. Agora paga-se por objectivos, acto impróprio e desajustado à criação. Porque subsidia o ICAM os filmes chatérrimos do Manoel de Oliveira? (que aprecio bastante como pessoa, diga-se de passagem) Porque é de bom tom, fica bem, PARECE bem. E os gastos telenoveleiros da RTP, que todos pagamos? Serão gastos culturais? E abrigar a colecção do Berardo pagando-lhe bem, ainda por cima?
    Há muita coisa demasiado esborratada neste quadro, as linhas que ultrapassam a sua moldura só mostram jogos de interesses e prebendas de duvidosa funcionalidade. O Estado só apoia algo de que possa retirar lucro e — de preferência imediato, ou mediático, como muito bem diz.
    Nos EUA, por exemplo, há fundações com grandes meios que apoiam artistas por elas detectados.
    Aqui não há nada, a não ser ‘circo’.

  4. […] vejo bem, caro Diogo, porque raio a «lóg­ica de mer­cado» tem de ser sinón­imo de «rentabilidade […]

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