A primeira vez
04abel

Tintoretto, Caim mata Abel

A faca enterrou-se na carne macia e jovem. Fundo. Subiu, cega e oblíqua, da barriga para o estômago. Eu não devia ter mais de 14 anos e estas coisas, sendo raro acontecer, aconteceram em Luanda. Na minha vida, foi a primeira vez que a palavra morte teve rosto.

O V era mais velho. Mais um ano do que eu. Um ano, um mundo de diferença. Não éramos colegas de turma, éramos só colegas do caminho que se fazia a pé, do Salvador Correia até ao Cinema Império, passando pela Sagrada Família, o descampado em frente ao Hospital Militar, um inóspito carreiro até ao Liceu Feminino e, à frente, atravessando a D. João II, o cinema Império, com a defesa civil ao lado, as moradias alinhadas entre as traseiras do cinema e a Estrada de Catete.

Numa noite, a última noite, o V andava em bando – em bando, sempre em bando – e surpreenderam um ladrão. Larápio só, não ladrão como os ladrões que hoje se conhecem. Seria, ou talvez viesse animado pelo espírito de risco, pelo orgulho de deambular no bairro branco. Rito de iniciação e coragem. E devia ser jovem também.

Passou, de repente, a acossado. Imagino que tenha ficado animal encolhido entre muro e sebe, a respiração a ferver, músculos tensos até doer, pronto para ser invisível e lutar. Matar, se fosse preciso. As sombras brancas corriam, sem que nenhuma o visse. Imagino, ainda, que V o tenha apanhado de surpresa, num tempo sem som, igual a uma tontura. Mais apto, mais rápido, a jovem máquina de luta de musseque espetou-lhe na barriga uma facada darwiniana. De baixo para cima, irremediável. E perdeu-se também ele na meia-noite dos trópicos. De coração livre e sobrevivente.

Soube no dia seguinte: mataram o V!

Matar alguém, alguém morrer. Foi a minha primeira vez e percebi que nada havia de natural na morte. A morte é brutal, lírica, grosseira, suja, cruel, pacificadora, vermelha de sangue, castanha cor de merda.

No cemitério – éramos um bando, sempre um bando – não conseguíamos chorar. Ríamos nervosamente. Digo, então, que a primeira vez que vi a morte me ri nervosamente, tão nervosamente como me ri quando, pela primeira vez, sangue em alvoroço, me apaixonei.

Comentários a “A primeira vez” (3)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Fiz o caminho todo até ao cemitério, em bando, vi tudo, a última noite também, eu que nunca estive em Luanda.

  2. jose rotiv diz:

    E verdade, também vi essa morte do V e dei por mim , certo dia, também no cemiterio aquando do enterramento do V. È verdade, percorri so mesmo parte desse caminho, ai a partir da D. João II ate lá em baixo, onde mataram o V. Verdade mesmo é que, tanbém assisti , lá no mesmo Bairro( dos brancos ‚mestiços e alguns negros, mais aburgesados) e baiiros e musseques adjacentes á morte de X,Y e Z. Fui ao Cemiterio e, com música, muita comida e rituais estranhos para alguns Europeus e seus descendentes, vi a alegria com que celebram a morte. Por outras palavras, quasi que me apeteçe dizer que, a morte em Àfrica é diferente da morte na Europa. Como dizia o Velho Silva do meu Bairro, ao sul das Ingonbotas, na morte ” o que custa mais é a primeira vez”.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Pois é José, o velho Silva sabia do que falava! E sei bem que estavas lá no cemitério no dia do V e, depois, em tantos óbitos de vários dias, quando vinham as tias, as primas, a família toda do mato e se celebrava a morte com a comida que não havia, com a bebida que tinha de haver, com muito choro de ai ué, ai ué, com reco-reco, dança e algum transe. Komé é k é meu kamba, gostei de te ver por aqui. Volta sempre e traz as primas Chinha e Órora, e um dia ainda sacamos o Nélinho.

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